Muita gente que teve hanseníase conhece de perto o que vem junto com a doença: o apelido na escola, a demissão sem explicação, o parente que se afasta, a história da família separada nos antigos hospitais-colônia. A hanseníase tem cura, mas o preconceito continua. Em julho, a ONU reafirmou que isso é violação de direitos humanos e pediu aos países que ajam para acabar com a discriminação. O problema é que a decisão chegou em inglês. Esta reportagem explica o que a Resolução diz, traz a tradução completa feita pelo MNDN e mostra o que muda a partir de agora.
O que é a Resolução 62/15
A Resolução 62/15, “Eliminação da discriminação contra as pessoas afetadas pela hanseníase e seus familiares”, foi adotada sem votação pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU em 7 de julho de 2026, em Genebra, e publicada no dia seguinte. Ela dá continuidade a uma série de resoluções sobre o tema iniciada em 2008, e reafirma que as pessoas afetadas e suas famílias, incluindo mulheres, crianças, pessoas idosas e pessoas com deficiência causada pela doença, devem ser tratadas com dignidade e ter todos os seus direitos garantidos.
O MNDN não participou dessa negociação, mas recebeu do Comitê de Supervisão do Fórum Global um pedido para divulgar a Resolução amplamente entre as pessoas afetadas pela hanseníase no Brasil. Havia um problema: quatro meses depois da aprovação, o texto ainda estava disponível apenas em inglês, idioma que a grande maioria das pessoas afetadas não domina. Para que a informação chegue a quem ela se destina, o MNDN fez a tradução completa da Resolução para o português.
- Princípios e Diretrizes da ONU: a Resolução reafirma esse documento de 2010 como referência central contra a discriminação e pede sua ampla divulgação;
- Leis e políticas: os Estados devem intensificar os esforços, incluindo medidas em leis, programas e estratégias, com participação e acesso à informação;
- Tecnologias digitais acessíveis: incentivo ao uso para conscientização, diagnóstico precoce, apoio e redução do estigma;
- Dia Mundial contra a Hanseníase: celebrado no último domingo de janeiro, com eventos que amplifiquem a voz das pessoas afetadas;
- Relatoria Especial: o mandato não foi prorrogado; a atual relatoria apresenta relatório à Assembleia Geral em sua 81ª sessão;
- Novo relatório: o Alto Comissário da ONU apresentará um relatório abrangente ao Conselho na 71ª sessão, seguido de diálogo interativo;
- Eventos anuais de alto nível: com as pessoas afetadas no centro, e com resultados que devem alimentar esse relatório.
Leia a Resolução 62/15 em português
Resolução 62/15: Eliminação da discriminação contra as pessoas afetadas pela hanseníase e seus familiares
📅 Adotada em 7 de julho de 2026, sem votação, na 62ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra. Publicada em 8 de julho de 2026.
Escolha como quer ler. Na versão em português, toque em “EN” para ver o trecho original em inglês.
Tradução não oficial: Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN), novembro de 2026. Em caso de divergência, prevalece o texto original em inglês (A/HRC/RES/62/15), adotado sem votação em 7 de julho de 2026. Seguindo a Lei nº 9.010/1995, o termo leprosy foi traduzido como “hanseníase”.
O que muda na prática
A Resolução não renovou o mandato da Relatoria Especial sobre a eliminação da discriminação contra as pessoas afetadas pela hanseníase. A atual titular, Beatriz Miranda-Galarza, que apresentou seu relatório ao Conselho em junho de 2026, ainda fará um relatório à Assembleia Geral na 81ª sessão. Depois disso, o acompanhamento passa a ser feito pelo Escritório do Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos.
Fontes: Resolução A/HRC/RES/62/15, parágrafos 6 e 7; relatório do Conselho sobre a 62ª sessão (A/HRC/62/2).
A Resolução saúda a realização de eventos anuais de alto nível, sempre com as pessoas afetadas pela hanseníase no centro. O que for discutido nesses eventos deve entrar no relatório do Alto Comissário ao Conselho, que também será enviado à Assembleia Geral. É uma porta concreta para que associações e movimentos levem suas denúncias e propostas à ONU.
Fonte: Resolução A/HRC/RES/62/15, parágrafos 8 e 9.
A Resolução encoraja os países a celebrar a data, no último domingo de janeiro, com eventos públicos, atividades educativas e de extensão que amplifiquem a voz das pessoas afetadas. Em 2027, a data cai em 31 de janeiro, e coincide com o Janeiro Roxo no Brasil.
Fonte: Resolução A/HRC/RES/62/15, parágrafo 5.
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Ainda não revelado. Toque no card acima.
No mesmo dia, outra vitória: a Resolução 62/21
Também em 7 de julho, o Conselho aprovou por consenso a Resolução 62/21, a primeira da ONU dedicada a todas as doenças tropicais negligenciadas como questão de direitos humanos. Essa resolução o MNDN acompanhou desde o início: em junho, o movimento pediu formalmente ao governo brasileiro que apoiasse o texto, como mostramos na matéria de 18 de junho.
Carta nº 38/2026: o pedido do movimento ao governo brasileiro
Em 17 de junho de 2026, antes da votação em Genebra, o MNDN enviou ao Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) e ao Ministério da Saúde uma carta pedindo que o Brasil apoiasse a primeira resolução da ONU sobre doenças tropicais negligenciadas e direitos humanos. Três semanas depois, o texto foi aprovado por consenso, com o Brasil entre os membros do Conselho.
O pedido chegou na hora certa: a carta foi entregue enquanto o texto ainda estava em negociação, 13 dias antes de o projeto oficial ser apresentado, em 30 de junho. Era justamente o momento em que o Brasil definia como iria se posicionar.
Ler a carta completa (PDF) Matéria de junhoToque em cada data
Em laranja, as ações do MNDN.
As duas resoluções lado a lado
Resolução 62/21
- Tema: todas as 21 doenças tropicais negligenciadas
- Inédita: a primeira do Conselho sobre o tema
- Proposta por 6 países africanos
- Pede relatório do Alto Comissário, previsto para 2027
- O MNDN pediu apoio do Brasil
Resolução 62/15
- Tema: discriminação contra pessoas afetadas pela hanseníase e familiares
- Continuidade: série iniciada em 2008
- Não renova a Relatoria Especial
- Pede relatório do Alto Comissário na 71ª sessão
- O MNDN traduziu para o português
As duas foram adotadas sem votação em 7 de julho de 2026. Fonte: OHCHR.
O que as duas resoluções têm em comum
As duas dizem a mesma coisa por caminhos diferentes: não há enfrentamento possível dessas doenças sem as pessoas afetadas no centro. A 62/21 pede participação significativa das comunidades em todas as etapas dos programas. A 62/15 coloca as pessoas afetadas pela hanseníase no centro dos eventos anuais e do novo relatório da ONU.
É a mesma bandeira que o MNDN e o Fórum Social Brasileiro de Enfrentamento das Doenças Infecciosas e Negligenciadas (FSBEDIN) defendem há anos. A Carta de Brasília do 11º FSBEDIN, de agosto de 2026, afirma que as pessoas acometidas não podem ser apenas destinatárias das políticas públicas: devem estar entre aquelas que as constroem.
A ONU agora diz em Genebra o que as associações de pessoas afetadas dizem há décadas nos territórios. O desafio é fazer essa decisão chegar ao posto de saúde.
Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)
Os próximos passos
- 31 de janeiro de 2027: Dia Mundial contra a Hanseníase, que a Resolução 62/15 incentiva os Estados a celebrar com as pessoas afetadas;
- 2027: previsão de apresentação do relatório do Alto Comissário sobre direitos humanos e doenças tropicais negligenciadas, com consulta à sociedade civil;
- 81ª sessão da Assembleia Geral: relatório da atual Relatoria Especial sobre hanseníase;
- 71ª sessão do Conselho: relatório abrangente do Alto Comissário sobre a discriminação contra as pessoas afetadas pela hanseníase.
Teste o que você aprendeu
1. Em que idioma a Resolução 62/15 foi publicada pela ONU?
2. O que a Resolução 62/15 pede aos países?
3. Quando é o Dia Mundial contra a Hanseníase?
Perguntas que o MNDN dirige ao poder público
- O governo vai disponibilizar uma versão oficial em português da Resolução 62/15, em linguagem acessível, para as pessoas afetadas pela hanseníase?
- Como os Princípios e Diretrizes da ONU contra a discriminação serão incorporados à Estratégia Nacional para o Enfrentamento da Hanseníase e ao Programa Brasil Saudável?
- Quais ações o Ministério da Saúde prevê para o Dia Mundial contra a Hanseníase de 2027, com a participação das pessoas afetadas?
- O Brasil vai apoiar e participar dos eventos anuais de alto nível previstos na Resolução 62/15?
- Como o governo vai contribuir para o relatório do Alto Comissário, e como as pessoas afetadas e suas organizações serão ouvidas?
- Qual foi o posicionamento do Brasil na negociação das Resoluções 62/15 e 62/21, e o governo pretende publicá-lo?
A posição do Movimento
A aprovação da Resolução 62/15 é uma conquista real: a ONU reafirma, mais uma vez e por consenso, que discriminar quem teve hanseníase é violar direitos humanos. Mas uma resolução não muda sozinha a vida de quem ainda enfrenta o preconceito no trabalho, na escola e no próprio serviço de saúde. Sem tradução, divulgação e participação das pessoas afetadas, o texto aprovado em Genebra corre o risco de não chegar aos territórios. Nossa posição:
- Acesso à informação: as pessoas afetadas têm direito de conhecer, em português e em linguagem acessível, as decisões tomadas sobre elas;
- Fim do estigma: os Princípios e Diretrizes da ONU devem orientar leis, políticas e a formação dos profissionais de saúde;
- Participação: as pessoas afetadas e seus movimentos devem estar no centro dos eventos anuais e do relatório do Alto Comissário;
- Diagnóstico precoce: a hanseníase tem cura, e tratar cedo é a melhor forma de evitar incapacidades e discriminação;
- Transparência: o governo deve tornar público o posicionamento brasileiro nas resoluções sobre hanseníase e doenças negligenciadas;
- Continuidade: o MNDN seguirá acompanhando cada etapa e prestando contas à sociedade.
Uma decisão sobre as pessoas afetadas pela hanseníase que elas não conseguem ler não cumpre o seu papel. Por isso traduzimos. Agora, cada pessoa afetada no Brasil pode conhecer seus direitos e cobrar que eles saiam do papel.
João Victor Pacheco Fós Kersul de Carvalho, Presidente do MNDN
Perguntas frequentes sobre a Resolução 62/15
É uma resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU, adotada sem votação em 7 de julho de 2026, que pede aos países que eliminem a discriminação contra as pessoas afetadas pela hanseníase e seus familiares, reafirmando os Princípios e Diretrizes da ONU de 2010.
As resoluções do Conselho não têm força de lei, mas têm peso político e reforçam obrigações que o Brasil já assumiu em tratados de direitos humanos. Elas servem como referência para cobrar o governo e orientar políticas públicas.
A atual relatora ainda apresenta um relatório à Assembleia Geral na 81ª sessão. Depois, o tema passa a ser acompanhado pelo Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, que fará um relatório abrangente ao Conselho na 71ª sessão, alimentado por eventos anuais com as pessoas afetadas no centro.
O MNDN fez uma tradução não oficial completa, que pode ser lida nesta reportagem e baixada em PDF, junto com o documento original em inglês. Em caso de divergência, vale o texto original.
Fontes e referências
- MOVIMENTO NACIONAL DAS DOENÇAS NEGLIGENCIADAS. Carta nº 38/2026/MNDN-BRASIL: Carta de apoio à Resolução do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas sobre as Doenças Tropicais Negligenciadas. Cuiabá, 17 jun. 2026. mndnbrasil.org.
- MOVIMENTO NACIONAL DAS DOENÇAS NEGLIGENCIADAS. MNDN pede que Brasil apoie resolução da ONU que reconhece doenças negligenciadas como violação de direitos humanos. 18 jun. 2026. mndnbrasil.org.
- MINISTÉRIO DA SAÚDE. Boletim Epidemiológico, volume 57, nº 1: hanseníase. 23 jan. 2026. gov.br/saude.
- OHCHR. 62nd regular session of the Human Rights Council: Resolutions, decisions and President’s statements. ohchr.org.
- CONSELHO DE DIREITOS HUMANOS DA ONU. Human rights and neglected tropical diseases (projeto de resolução A/HRC/62/L.27). 30 jun. 2026. infontd.org.
- CONSELHO DE DIREITOS HUMANOS DA ONU. Resolução A/HRC/RES/62/15: Elimination of discrimination against persons affected by leprosy/Hansen’s disease and their family members. 8 jul. 2026. original em inglês · tradução MNDN.
- ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Historic resolution on neglected tropical diseases adopted by the United Nations Human Rights Council. 7 jul. 2026. who.int.
- UNITING TO COMBAT NTDs. NTDs elevated at the 61st UN Human Rights Council session as Malawi announces intent to table an NTD resolution. 25 fev. 2026. unitingtocombatntds.org.
- UNITING TO COMBAT NTDs. UN Human Rights Council Adopts First-Ever Resolution on Human Rights and Neglected Tropical Diseases. 7 jul. 2026. unitingtocombatntds.org.
- OHCHR. Report of the Human Rights Council on its sixty-second session (A/HRC/62/2, versão avançada). ohchr.org.
- AGÊNCIA GOV / IBGE. Censo 2022: rede de esgoto alcança 62,5% da população, mas desigualdades regionais e por cor e raça persistem. 23 fev. 2024. agenciagov.ebc.com.br.
- SBT NEWS. Brasil é eleito para Conselho de Direitos Humanos da ONU (mandato 2024-2026). 10 out. 2023. sbtnews.sbt.com.br.
- IMAGENS: FORGET, Yann. Flags onu geneva2.jpg. Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0, commons.wikimedia.org. Demais imagens: MNDN e Marcelo Camargo/Agência Brasil.
Nota de transparência: todos os dados citados têm fonte verificada indicada acima. Não foi possível localizar publicamente o posicionamento oficial do Brasil durante a negociação da Resolução 62/21, nem uma versão oficial em português das Resoluções 62/21 e 62/15; tratamos isso como lacuna de transparência e incluímos a questão nas perguntas ao poder público. O detalhamento dos parágrafos da Resolução 62/21 foi feito a partir do projeto A/HRC/62/L.27, adotado com revisão oral; a numeração final pode variar levemente no texto definitivo. A tradução da Resolução 62/15 é não oficial e foi feita pelo MNDN.