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Mato Grosso no Centro da Tempestade: doenças negligenciadas, El Niño e o que o parlamento ainda não respondeu

🌿 Mato Grosso & Saúde Pública

Mato Grosso concentrou 71% das mortes por chikungunya do Brasil em 2025, lidera o ranking nacional de hanseníase, tem leishmaniose endêmica, malária ativa e doença de Chagas circulando. A Defesa Civil já se mobilizou para o El Niño 2026-2027. Mas o estado ainda não iniciou seu Plano Estadual de Adaptação do Setor Saúde — enquanto o vizinho Mato Grosso do Sul já está construindo o dele.

Esta reportagem tem cards interativos. Toque neles ao longo do texto para ver mais.

Existe uma frase que circula nos corredores da saúde pública brasileira: o Brasil tem doenças esquecidas, mas Mato Grosso tem doenças acumuladas. Não é exagero. O estado lidera o país em hanseníase, foi responsável pela maioria das mortes por chikungunya do Brasil em 2025, tem malária ativa em parte do território, leishmaniose endêmica e doença de Chagas circulando. Agora enfrenta o ciclo El Niño 2026-2027 com uma preparação de duas velocidades: a Defesa Civil mobilizada desde maio, com investimento pesado em combate a incêndios — e a saúde ainda sem plano estadual próprio. Este documento foi produzido para o parlamento estadual, para as secretarias de saúde e para a sociedade civil de Mato Grosso. Os dados são verificados. As perguntas estão abertas.

Fumaça de queimada sobre Cuiabá durante período de seca em Mato Grosso
Pesquisa da Unemat documenta que a fumaça de queimadas na Amazônia Legal e no Cerrado setentrional custa R$ 17,6 milhões por ano ao SUS-MT em internações cardiorrespiratórias. Em um ano de El Niño intenso, esse número cresce. Foto: Rodrigo Vargas / Agência Cenarium

Arboviroses: Mato Grosso como epicentro nacional

Em 2024, Mato Grosso registrou mais de 38 mil casos confirmados de dengue, 317 de zika e mais de 20 mil de chikungunya, segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES-MT). Naquele ano, 39 pessoas morreram de dengue e 12 de chikungunya no estado, com concentração de óbitos em Cuiabá, Tangará da Serra, Pontes e Lacerda e Primavera do Leste.

  • Somente nos primeiros 48 dias de 2025, o estado já acumulava 5.391 casos confirmados de dengue e 10.020 de chikungunya — enquanto todo o ano de 2024 havia somado 40 mil e 21.373 casos respectivamente;
  • A chikungunya apresentou crescimento de 6.500% em Cuiabá entre 2024 e início de 2025, passando de média semanal de 5 notificações para 305 casos. Na 4ª semana epidemiológica de 2025, foram 605 casos em uma única semana;
  • A dengue também avançou na capital: 386% de crescimento na média semanal de casos em 2025, subindo de 34 para 167 notificações por semana;
  • Até a 17ª semana de 2025, Mato Grosso havia registrado 88 mortes por arboviroses — sendo 46 por chikungunya;
  • Circulam simultaneamente três dos quatro sorotipos de dengue no território mato-grossense (DENV-1, 2 e 4). Quanto mais sorotipos circulam, maior a chance de reinfecção e de evolução para forma grave.

👆 Toque aqui para ver o dado que foi apresentado na Assembleia Legislativa e que resume a gravidade do problema.

Ainda não revelado. Toque no card acima.

O que a Assembleia Legislativa debateu — e o que ainda falta

Em 28 de abril de 2025, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) realizou audiência pública sobre o avanço das arboviroses. O evento reuniu SES-MT, Hospital Universitário Júlio Muller da UFMT, Cosems-MT, TCE-MT, Prefeitura de Várzea Grande e o Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN).

A conclusão explícita da audiência foi que as mortes por chikungunya em Mato Grosso, na maioria dos casos, poderiam ter sido evitadas se as vítimas tivessem recebido o tratamento adequado. O Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas pediu prioridade nas ações e demandas de Mato Grosso no recebimento da vacina contra chikungunya prevista para 2026, e integração entre a Secretaria de Saúde e a Secretaria de Educação.

  • Das 61 mil doses de vacina contra dengue recebidas pelo estado desde abril de 2024, apenas 45 mil foram aplicadas até a data da audiência, em 35 dos 142 municípios do estado — adesão abaixo do esperado;
  • Em julho de 2026, a Comissão de Saúde da ALMT aprovou um pacote com 16 matérias, incluindo especificamente medidas de combate a doenças tropicais negligenciadas e enfrentamento ao hantavírus. Os projetos aguardam votação em plenário em dois turnos e sanção do Executivo estadual.

Hanseníase: Mato Grosso lidera o Brasil

Este é o dado mais grave e menos discutido sobre Mato Grosso no contexto de doenças negligenciadas. Segundo o Boletim Epidemiológico Especial de Hanseníase do Ministério da Saúde, publicado em fevereiro de 2026:

  • Em 2024, Mato Grosso e Tocantins apresentaram as maiores taxas de detecção de hanseníase de todo o Brasil, com destaque para a Região Centro-Oeste e Norte no acumulado histórico;
  • Em 2021, o estado havia registrado a maior taxa do país: 58,76 casos novos por 100 mil habitantes — mais do que o dobro da média nacional;
  • Os dez municípios com maiores taxas em menores de 15 anos incluem Querência (99,6/100 mil), Ribeirãozinho (92,1), Água Boa (90,3), Juína (83,6) e Peixoto de Azevedo (82,6) — todos no norte e leste do estado, na fronteira do desmatamento;
  • O boletim de 2025 alerta para o crescimento de diagnósticos com incapacidade física já instalada — indicador direto de diagnóstico tardio. Uma lesão neural causada por hanseníase não regride com antibiótico: a janela de cura sem sequela se fecha antes do diagnóstico chegar;
  • Casos novos em menores de 15 anos representaram 4,1% dos diagnósticos nacionais em 2024 — sinal de transmissão ativa, não residual.

Hanseníase tem cura. O problema em Mato Grosso não é ausência de tratamento: é diagnóstico tardio, que chega quando a incapacidade física já está instalada. Prevenir a incapacidade depende de detectar a doença antes dela causar dano nervoso permanente. E isso depende de agente comunitário presente, de profissional de saúde treinado, de sistema de vigilância ativo. Três coisas que o El Niño 2026-2027 vai colocar em risco exatamente nos municípios mais endêmicos do estado.

Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)
Agente comunitário de saúde em visita domiciliar em município de Mato Grosso
O diagnóstico precoce de hanseníase depende de agente comunitário de saúde presente e treinado. Em municípios do norte de MT com risco de isolamento por seca, essa presença é a primeira coisa a falhar durante eventos climáticos extremos. Foto: O Bom da Notícia

Leishmaniose: endêmica e sem monitoramento regular

Mato Grosso figura entre os estados com maior incidência de leishmaniose tegumentar americana (LTA) no Brasil, com as regiões Norte e Centro-Oeste concentrando os casos, diretamente ligados ao desmatamento e à expansão de fronteiras agrícolas.

Estudo aprovado pelo CEP/UFMT/Sinop (parecer nº 3.708.550) analisou o perfil epidemiológico dos casos de leishmaniose tegumentar em Mato Grosso no período de 2007 a 2019. Os resultados confirmaram padrão consistente de casos ligados à atividade rural e ao desmatamento, com predomínio da forma cutânea, que pode evoluir para a forma mucosa, desfigurante e mais grave, especialmente quando há atraso no diagnóstico.

A professora Lidiane de Ávila e Silva, do Instituto de Saúde Coletiva da UFMT (ISC-UFMT), explica em entrevista ao portal UFMT Ciência que as doenças negligenciadas acometem prioritariamente “populações pobres da América Latina, África e Ásia” — e que, em Mato Grosso, elas têm determinantes sociais claros: desmatamento, garimpo, expansão agrícola sem infraestrutura sanitária.

O Hospital Universitário Júlio Muller (HU-UFMT) participou diretamente da audiência pública da ALMT em abril de 2025 sobre arboviroses e é a principal referência estadual para casos graves de doenças infecciosas. O MNDN recomenda que a ALMT e a SES-MT formalizem parceria com a UFMT para publicação periódica de dados sobre doenças negligenciadas no estado.

Fontes: CEP/UFMT/Sinop, parecer 3.708.550; ufmt.br/ufmtciencia; secom.mt.gov.br (29/04/2025).

A leishmaniose visceral (calazar), embora menos prevalente no estado, apresenta letalidade de até 6,5% quando tratada com atraso — e pode chegar a mais de 90% sem tratamento. Diferente das arboviroses, não tem vacina disponível para humanos no Brasil.

Um dado importante que a OPAS documenta: a incidência de leishmaniose pode cair durante o El Niño em áreas de seca, porque o vetor (flebotomíneo) prefere ambientes úmidos, mas tende a aumentar nos anos seguintes de La Niña. Isso significa que o risco não desaparece: apenas migra no tempo, tornando o monitoramento contínuo ainda mais essencial.

Malária: área de transmissão ativa e impacto do El Niño anterior

Mato Grosso integra a Região Amazônica Legal e tem transmissão ativa de malária, concentrada nos municípios do norte e noroeste do estado: bacia do Rio Juruena, região de Juína e municípios de fronteira com o Amazonas e Rondônia.

  • O Ministério da Saúde previu a implantação da tafenoquina (medicamento de dose única para malária por P. vivax) em duas áreas de Mato Grosso a partir de junho de 2025 — medida que reduz abandono de tratamento;
  • A OPAS documenta o impacto direto do El Niño 2023-2024 em Mato Grosso: o fenômeno anterior foi caracterizado por seca severa na Amazônia brasileira que disrumpiu a agricultura, a pesca e o acesso a serviços de saúde na região, agravando a carga de malária acima do que os fatores ambientais já causavam (OPAS/OMS, 2026, p. 19);
  • A letalidade da malária fora da Amazônia é 51 vezes maior do que dentro dela — dado que afeta diretamente pacientes de Mato Grosso que buscam atendimento em cidades do Sudeste ou do Centro-Sul do estado, onde profissionais raramente reconhecem os sintomas a tempo.

Doença de Chagas: silenciosa, subestimada e documentada em MT

A doença de Chagas é uma das negligenciadas mais invisíveis de Mato Grosso, mas não por ausência de dados. O estado integra a Amazônia Legal e possui vigilância epidemiológica específica para a doença, coordenada pela Superintendência de Vigilância em Saúde da SES-MT. Segundo o Ministério da Saúde, a vigilância na região amazônica é centrada na detecção precoce de casos agudos e surtos, apoiada na estrutura da Vigilância Epidemiológica da Malária e na capacitação de microscopistas.

  • Estudo publicado no Brazilian Journal of Health Review (2024) com dados do SINAN aponta que na Região Centro-Oeste, cerca de 71% dos casos de doença de Chagas concentraram-se em Mato Grosso e no Distrito Federal, posicionando o estado como o mais relevante epidemiologicamente da região;
  • A transmissão oral é a forma predominante no Brasil: representa 81,5% dos casos confirmados entre 2012 e 2022, segundo análise publicada no Brazilian Journal of Infectious Diseases (2024), com dados do SINAN/DATASUS — e está diretamente associada ao consumo de açaí e outros alimentos processados de forma artesanal sem pasteurização;
  • A transmissão oral, que gera surtos agudos com alta mortalidade, já foi documentada em surtos com caldo de cana (Rio Grande do Norte, 2015) e com açaí em múltiplos estados da Amazônia Legal, incluindo estados vizinhos de Mato Grosso como Pará e Amazonas;
  • Segundo a SES-MT, na fase aguda — que pode ser assintomática — o único diagnóstico confiável é o exame parasitológico direto. A maioria dos portadores crônicos não sabe que está infectada e pode desenvolver cardiomiopatia chagásica décadas depois;
  • Metanálise publicada na Revista Panamericana de Salud Pública (2024) estimou que aproximadamente 1,2 milhão de pessoas no Brasil vivem com doença de Chagas crônica, com maiores prevalências concentradas no Centro-Oeste e Nordeste — doença subdiagnosticada e subnotificada em várias áreas do Brasil.

O risco específico durante o El Niño vem por dois caminhos simultâneos em Mato Grosso:

1. Transmissão oral: qualquer fator que altere a produção, o transporte e o armazenamento de açaí e outros alimentos em municípios do norte de MT — como seca prolongada, falta de energia elétrica para refrigeração, ou deslocamento de populações ribeirinhas — aumenta o risco de contaminação por barbeiros infectados ou suas fezes no alimento. Surtos orais têm mortalidade maior que a transmissão vetorial clássica.

2. Transmissão vetorial reativada: o deslocamento de fauna silvestre em resposta a extremos climáticos, especialmente secas que reduzem o habitat natural, aproxima reservatórios animais e barbeiros de áreas habitadas, podendo reativar ciclos de transmissão vetorial em municípios onde o inseto havia sido controlado.

A SES-MT alerta que gestantes com fatores de risco para Chagas devem receber atenção especial durante o pré-natal. Em contexto de El Niño, com possível perturbação dos serviços de pré-natal em comunidades isoladas, esse alerta tem significado ampliado.

Fontes: SES-MT — saude.mt.gov.br/doenca-de-chagas; BJHR, v. 8, n. 2, 2025; BJID, v. 28, 2024; LAPORTA, G. Z. et al., Rev Panam Salud Publica, v. 48, 2024.

Parasitárias, verminoses e o que os dados ainda não contam

Aqui chegamos ao ponto mais difícil desta análise: algumas das doenças parasitárias e verminoses que afetam Mato Grosso simplesmente não têm dados estaduais atualizados e confiáveis publicamente disponíveis. Isso não significa que elas não existem. Significa que o sistema de vigilância não as monitora com a mesma prioridade que monitora dengue.

  • Geo-helmintíases (ascaridíase, ancilostomíase, teníase): o Boletim Epidemiológico de DTNs do Ministério da Saúde (jan/2025) aponta que a sobreposição de três ou mais doenças negligenciadas é mais frequente no Centro-Oeste. Em contexto de saneamento precário — que persiste em municípios do norte e leste de MT — as verminoses são endêmicas silenciosas;
  • Acidente ofídico: relevante pela extensão do território rural e pela fronteira com o Pantanal e a Amazônia. A OPAS classifica o risco de acidentes por animais peçonhentos como alto tanto em cenário seco quanto úmido durante o El Niño — extremos climáticos deslocam serpentes e escorpiões para perto de áreas habitadas;
  • Hantavírus: a própria ALMT aprovou em julho de 2026 medidas de enfrentamento ao hantavírus, reconhecendo a relevância do agente em MT, onde o contato com roedores em áreas de expansão agrícola é frequente. O El Niño, ao alterar a disponibilidade de alimento dos roedores, pode aumentar a proximidade com humanos;
  • Cisticercose e teníase por Taenia solium: associadas a condições de saneamento e manejo inadequado de dejetos. Dados estaduais não são publicados regularmente, mas a doença é reconhecidamente subnotificada em toda a Região Centro-Oeste.

📊 A ausência de dado não é ausência de doença. Em Mato Grosso, a maioria das verminoses e parasitárias não tem sistema de notificação obrigatória: elas são tratadas quando chegam ao serviço de saúde, mas não são contadas como endemia. O El Niño vai alterar condições de saneamento, acesso à água e deslocamento populacional. O que não está sendo medido agora vai aparecer nas internações de 2027.

El Niño 2026-2027 e o mapa de risco específico para Mato Grosso

O leste do Mato Grosso já foi identificado pelo Cemaden no Índice Integrado de Seca (IIS-3) de maio de 2026 como área em condição de seca severa. O Pantanal está em alerta máximo. O mapa do fogo aponta Mato Grosso como um dos estados com maior risco de incêndio florestal no trimestre julho-setembro de 2026, e o estado figura entre os 15 estados brasileiros sob alerta para focos de calor e fumaça.

  • 🌵 Norte e leste de MT (seca): reduz acesso à água potável, aumenta armazenamento doméstico de água (criadouro de Aedes), isola comunidades ribeirinhas, compromete continuidade de tratamento de hanseníase e leishmaniose, e favorece proliferação de roedores transmissores de hantavírus;
  • 🌧️ Sul e sudeste de MT (chuva): eleva risco de enchentes e leptospirose, aumenta transmissão de malária em condição úmida (risco muito alto segundo a OPAS), e compromete estradas de acesso a serviços de saúde;
  • 🔥 Fumaça de queimadas: afeta toda a população urbana de Cuiabá, Sinop, Rondonópolis e interior. Pesquisa da Unemat documenta custo médio anual de R$ 17,6 milhões ao SUS-MT em internações cardiorrespiratórias por fumaça — valor que cresce em anos de El Niño intenso;
  • 🌡️ Calor extremo: trabalhadores rurais de MT são os mais expostos. O estresse térmico, classificado como quase certo pela OPAS no ciclo atual, é a principal causa de morte relacionada ao clima e agrava diabetes, insuficiência cardíaca e doença renal crônica — todas prevalentes entre a população mais vulnerável do estado.

Os primeiros reflexos já aparecem. Em Várzea Grande, a Secretaria Municipal de Saúde já registra aumento na procura por atendimento de pacientes com sintomas respiratórios — gripe, crises alérgicas e agravamento de doenças pulmonares. Segundo a secretária municipal de Saúde, Valéria Nogueira, o município vive um período de alta incidência de doenças respiratórias, com calor, frio, tempo seco, neblina intensa e fumaça de queimadas urbanas ocorrendo no mesmo dia.

Rio seco no Pantanal mato-grossense durante período de estiagem
O Pantanal mato-grossense está em alerta máximo de seca. Comunidades ribeirinhas perdem acesso à água, ao transporte e aos serviços de saúde ao mesmo tempo. Foto: Gustavo Figuerôa / SOS Pantanal

O que Mato Grosso já está fazendo — e o que ainda não começou

Este é o ponto em que o MNDN precisa ser rigoroso e justo. Ao contrário do que uma leitura apressada poderia sugerir, Mato Grosso não está parado. Existe mobilização real em curso — mas ela está concentrada na Defesa Civil e no meio ambiente, não na saúde.

  • ✅ Defesa Civil mobilizada desde maio de 2026. A Defesa Civil de MT está orientando os municípios sobre os impactos do El Niño no segundo semestre de 2026, com reuniões técnicas, monitoramento climático e palestras aos coordenadores municipais. Houve reunião geral online em 20 de maio, seguida de palestras presenciais em diferentes regiões do estado;
  • ✅ A saúde já aparece nas orientações da Defesa Civil. As coordenadorias municipais foram orientadas a revisar planos de contingência, avaliar a segurança hídrica e a capacidade de abastecimento de água, promover conscientização sobre o uso do fogo e fortalecer a atenção básica de saúde;
  • ✅ Investimento robusto em queimadas. Somente em 2025, o Governo do Estado investiu cerca de R$ 134 milhões em prevenção e combate a incêndios florestais — equipamentos, viaturas, tecnologia, capacitação e estrutura do Corpo de Bombeiros;
  • ✅ Comitê Estratégico de Queimadas e Desmatamento, coordenado pelo governador Otaviano Pivetta, reunindo diversas secretarias para atuação integrada;
  • ✅ Participação no encontro nacional do SUS. O Ministério da Saúde realizou em Brasília, entre 7 e 9 de julho de 2026, encontro regional do Centro-Oeste sobre preparação do SUS para o El Niño, com oficina prática de avaliação de riscos pela metodologia internacional THIRA.

👆 Toque aqui para ver a lacuna que este estudo identificou — e a comparação com o estado vizinho.

Ainda não revelado. Toque no card acima.

O AdaptaSUS é o Plano Nacional de Adaptação do Setor Saúde às Mudanças Climáticas, apresentado pelo Ministério da Saúde durante a COP30. Reúne 27 metas e 93 ações até 2035, com previsão de R$ 9,8 bilhões em adaptação estrutural. Em 2026, o Ministério mobilizou R$ 16,3 milhões para atender emergências, sendo R$ 12,7 milhões destinados a desastres.

Cada estado deve elaborar seu Plano Estadual de Adaptação do Setor Saúde às Mudanças Climáticas. A situação atual, segundo o Ministério da Saúde: Bahia, Pará e Piauí concluíram seus planos. Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Maranhão e Rio de Janeiro estão em fase de elaboração. Os demais estados brasileiros — incluindo Mato Grosso — permanecem em fase inicial.

O que o Mato Grosso do Sul já fez e que MT ainda não fez: nos dias 22 e 23 de abril de 2026, o Auditório do Conselho Estadual de Saúde de MS sediou encontro estratégico reunindo Atenção Primária, Vigilância em Saúde, Vigilância Sanitária, Vigilância em Saúde Ambiental e Toxicológica, Fundo Estadual de Saúde, Ouvidoria do SUS, Hemosul, Lacen, Cemtec e o Distrito Sanitário Especial Indígena, para construir o plano estadual.

Além disso, MS teve sete projetos selecionados no PET-Saúde Clima — e o melhor colocado de todo o país foi desenvolvido em parceria entre a Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande e a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

Fontes: Ministério da Saúde / AdaptaSUS; SES-MS (abril de 2026); Campo Grande News, Midiamax e Perfil News (maio e julho de 2026).

O MNDN faz questão de registrar: a Defesa Civil de Mato Grosso está trabalhando, e trabalhando bem. O investimento em combate a incêndios é real e verificável. Mas prevenir queimada não é a mesma coisa que preparar hospital, garantir medicamento de hanseníase em município isolado ou treinar equipe para reconhecer malária fora da área endêmica. Falta o capítulo da saúde. E ele tem nome, tem metodologia nacional e tem um estado vizinho já mostrando como se faz.

Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)

Perguntas que o MNDN dirige à Assembleia Legislativa e à SES-MT

Logo do Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas
As perguntas a seguir são formuladas pelo MNDN no exercício do controle social previsto na Lei nº 8.142/1990. Arte: MNDN
  • Mato Grosso já iniciou formalmente a elaboração de seu Plano Estadual de Adaptação do Setor Saúde às Mudanças Climáticas (AdaptaSUS)? Se não, qual é o cronograma previsto, considerando que Bahia, Pará e Piauí já concluíram e que Mato Grosso do Sul está em fase avançada de elaboração desde abril de 2026?
  • Mato Grosso concentrou 71% das mortes nacionais por chikungunya em 2025. Qual investigação formal foi conduzida para identificar se as mortes ocorreram por falha de diagnóstico, falha de acesso ou falha de tratamento, e quais mudanças de protocolo foram implementadas desde então?
  • Considerando que o estado lidera o ranking nacional de hanseníase, qual é o plano específico da SES-MT para garantia de diagnóstico precoce e continuidade de tratamento durante o El Niño 2026-2027, especialmente nos municípios do norte com risco de isolamento por seca?
  • Quais foram os encaminhamentos concretos assumidos pela delegação de Mato Grosso no encontro regional do Centro-Oeste sobre preparação do SUS para o El Niño, realizado pelo Ministério da Saúde em Brasília entre 7 e 9 de julho de 2026?
  • As orientações da Defesa Civil estadual para fortalecer a atenção básica de saúde foram traduzidas em protocolo formal pela SES-MT, com metas e indicadores? Quantos dos 142 municípios já revisaram seus planos de contingência incluindo o componente sanitário?
  • Das 61 mil doses de vacina contra dengue recebidas, apenas 45 mil foram aplicadas até abril de 2025, em 35 dos 142 municípios. O que explica a baixa adesão e qual estratégia está sendo adotada para a chegada da vacina contra chikungunya prevista para 2026?
  • As medidas de combate a doenças tropicais negligenciadas aprovadas pela Comissão de Saúde da ALMT em julho de 2026 têm cronograma de implementação e orçamento definido? Qual o prazo para votação em plenário e sanção?
  • Existe sistema de monitoramento integrado entre queimadas, qualidade do ar e internações por doenças respiratórias em Mato Grosso, dado que pesquisa da Unemat documenta custo de R$ 17,6 milhões/ano ao SUS-MT em internações por fumaça?
  • A UFMT e o Hospital Universitário Júlio Muller têm protocolo formal de repasse de dados epidemiológicos à SES-MT e à ALMT? Mato Grosso apresentou projetos ao PET-Saúde Clima, programa em que o estado vizinho teve sete propostas selecionadas?

A posição do Movimento

O MNDN reconhece publicamente os esforços em curso em Mato Grosso: a mobilização da Defesa Civil estadual desde maio de 2026, o investimento de R$ 134 milhões em prevenção a incêndios florestais, o Comitê Estratégico de Queimadas e Desmatamento, a audiência pública da ALMT sobre arboviroses em abril de 2025 e a aprovação pela Comissão de Saúde de medidas específicas sobre doenças negligenciadas em julho de 2026. Reconhece também a contribuição do Hospital Universitário Júlio Muller da UFMT como referência técnica estadual.

Mas a preparação está em duas velocidades. A proteção ambiental corre. A proteção sanitária caminha. E os números não esperam: 71% das mortes nacionais por chikungunya em Mato Grosso, maior taxa de hanseníase do país, leishmaniose endêmica sem monitoramento regular, e um El Niño com 90% de probabilidade de ser muito forte. Nossa posição:

  • Início imediato da elaboração do Plano Estadual de Adaptação do Setor Saúde às Mudanças Climáticas (AdaptaSUS), seguindo o modelo já adotado por Bahia, Pará, Piauí e em construção em Mato Grosso do Sul, com participação formal do Conselho Estadual de Saúde e da sociedade civil;
  • Criação de um Observatório Estadual de Doenças Negligenciadas, com participação da UFMT, da SES-MT, do Cosems-MT e da sociedade civil, para publicação de dados regulares e comparáveis ao longo do tempo;
  • Protocolo de continuidade de tratamento para hanseníase, leishmaniose e outras doenças de ciclo longo em municípios com risco de isolamento por seca ou enchente, incluindo telessaúde e distribuição descentralizada de medicamentos;
  • Integração formal entre Defesa Civil e SES-MT, transformando a orientação genérica de “fortalecer a atenção básica” em protocolo com metas, indicadores e responsáveis definidos;
  • Inquérito parasitológico estadual para mapeamento de verminoses em crianças em idade escolar, começando pelos municípios de maior vulnerabilidade social;
  • Integração do calendário de queimadas com o alerta sanitário, garantindo que a vigilância epidemiológica seja ativada automaticamente quando os índices de fumaça ultrapassarem limiares de risco;
  • Prioridade de Mato Grosso no recebimento da vacina contra chikungunya, dado o histórico documentado de concentração de mortalidade no estado;
  • Votação urgente em plenário das medidas de DTNs aprovadas pela Comissão de Saúde, com garantia de orçamento e cronograma público de implementação.

Mato Grosso não é apenas um estado com problemas de saúde. É um estado que carrega o peso de ser fronteira viva: entre o Cerrado e a Amazônia, entre o agronegócio e as comunidades tradicionais, entre o Brasil desenvolvido e o Brasil esquecido. As doenças negligenciadas em Mato Grosso são o termômetro mais honesto dessa fronteira. E o El Niño 2026-2027 vai apertá-lo. A boa notícia é que ainda há tempo. A má notícia é que o relógio já começou a contar em maio.

João Victor Pacheco Fós Kersul de Carvalho, Presidente do MNDN

Fontes e referências

  • MATO GROSSO. Secretaria de Estado de Saúde (SES-MT). Informe Epidemiológico — Arboviroses 2024. matogrossosaude.mt.gov.br.
  • MATO GROSSO. SECOM-MT. SES alerta para ações de prevenção à dengue, zika e chikungunya. 4 de fevereiro de 2026. secom.mt.gov.br.
  • PORTAL MATO GROSSO. Cuiabá registra queda expressiva nos casos de dengue e chikungunya em 2026. Fevereiro de 2026.
  • ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DE MATO GROSSO (ALMT). Audiência pública debate o crescente número de casos de chikungunya, dengue e zika. 28 de abril de 2025. al.mt.gov.br.
  • MATO GROSSO. SECOM-MT. SES-MT apresenta ações para enfrentamento às arboviroses em audiência na Assembleia Legislativa. 29 de abril de 2025.
  • CENÁRIO MT. Assembleia Legislativa aprova programa contra vício em apostas e mais 15 projetos de saúde, incluindo medidas de combate a DTNs e hantavírus. Julho de 2026.
  • MATO GROSSO. Defesa Civil Estadual. Defesa Civil de MT orienta municípios sobre impactos do El Niño e reforça preparação para período de seca. Junho de 2026. Declarações do secretário-adjunto de Proteção e Defesa Civil, coronel BM Marcelo Reveles.
  • GOVERNO DE MATO GROSSO. Governo intensifica preparação para enfrentar possível El Niño e reduzir riscos de incêndios florestais. Junho de 2026. Dado: R$ 134 milhões investidos em 2025; Comitê Estratégico de Queimadas e Desmatamento.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. AdaptaSUS — Plano Nacional de Adaptação do Setor Saúde às Mudanças Climáticas. Apresentado na COP30. 27 metas, 93 ações até 2035, R$ 9,8 bilhões.
  • MATO GROSSO DO SUL. SES-MS. Estado inicia construção de plano para adaptar o SUS às mudanças climáticas em MS. Encontro de 22 e 23 de abril de 2026, Conselho Estadual de Saúde. saude.ms.gov.br.
  • CAMPO GRANDE NEWS. Com El Niño à vista, MS prepara plano estadual para enfrentar impactos na saúde. Julho de 2026. Dado: sete projetos selecionados no PET-Saúde Clima, com o melhor colocado do país (Sesau/UFMS).
  • NATIVA NEWS / RDM ONLINE. El Niño ameaça elevar doenças e lotar unidades de Saúde em MT. Julho de 2026. Declarações da secretária municipal de Saúde de Várzea Grande, Valéria Nogueira.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico Especial de Hanseníase. Número Especial, janeiro de 2025. gov.br/saude.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Ministério da Saúde divulga boletim especial sobre hanseníase no Brasil. Fevereiro de 2026.
  • SILVA, C. E. R.; DONOFRIO, F. C.; ALEGRANCI, P. Panorama epidemiológico da leishmaniose tegumentar no estado de Mato Grosso: 2007 a 2019. CEP/UFMT/Sinop, parecer nº 3.708.550. Brazilian Journal of Development, v. 7, n. 11, 2021.
  • UFMT CIÊNCIA. O que são doenças negligenciadas? Entrevista com a profa. Lidiane de Ávila e Silva (ISC/UFMT). ufmt.br/ufmtciencia.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Brasil reduz 26% dos casos de malária no primeiro trimestre de 2025. Abril de 2025.
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  • INPE, CEMADEN e outros. Painel El Niño 2026-2027 — Boletim Mensal nº 01, junho de 2026. gov.br/inpe.
  • UNEMAT. Estudo epidemiológico retrospectivo sobre custos das internações por doenças cardiorrespiratórias associadas a queimadas na Amazônia Legal e no Cerrado setentrional (2010-2021). Citado pelo Portal Amazônia.
  • MATO GROSSO. SES-MT. Doença de Chagas — Superintendência de Vigilância em Saúde. saude.mt.gov.br.
  • LEITÃO, V. R. et al. Análise epidemiológica da doença de Chagas aguda no Brasil (2013-2023). Brazilian Journal of Health Review, v. 8, n. 2, 2025. Dado: 71% dos casos do Centro-Oeste em Mato Grosso e DF.
  • PINHEIRO, A. M.; PEREIRA, B. M. Perfil epidemiológico da doença de Chagas no Brasil entre 2012 e 2022. Brazilian Journal of Infectious Diseases, v. 28, 2024. DOI: 10.1016/j.bjid.2024.103951. Dado: 81,5% dos casos por transmissão oral.
  • LAPORTA, G. Z. et al. Estimativa de prevalência de doença de Chagas crônica nos municípios brasileiros. Rev Panam Salud Publica, v. 48, 2024. DOI: 10.26633/rpsp.2024.28. Dado: 1,2 milhão de portadores crônicos no Brasil.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico de Doenças Tropicais Negligenciadas. Número Especial, janeiro de 2025.

Nota de transparência: todos os dados numéricos têm fonte verificada citada acima. Ausências de dado estadual — como a falta de notificação sistemática de verminoses por estado — são sinalizadas explicitamente no texto como lacunas de vigilância, não como ausência de doença. A ausência de Mato Grosso entre os estados com Plano Estadual de Adaptação do Setor Saúde em elaboração baseia-se no levantamento público do Ministério da Saúde citado pela imprensa em julho de 2026; caso o estado tenha iniciado o processo após essa data, o MNDN registrará a atualização.

  • Esta matéria tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Se você apresentar sintomas de arbovirose, hanseníase ou outra doença citada, procure uma unidade de saúde. O atendimento é gratuito pelo SUS. Em caso de emergência climática, acione a Defesa Civil pelo 199.

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