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Brasil Concentra 80% das Doenças Negligenciadas: Dá Tempo até 2030?

🦠📊 Doenças Tropicais Negligenciadas & Meta 2030

O Brasil está entre os 16 países que concentram 80% dos casos de doenças tropicais negligenciadas do mundo, segundo a OMS. O ministro Alexandre Padilha anunciou avanços reais no MEDTROP 2026, e o Programa Brasil Saudável já elegeu 209 municípios prioritários com meta de eliminação até 2030. A pergunta que fica: dá tempo?

Esta reportagem tem cards interativos e gráficos de dados. Toque neles ao longo do texto para ver mais.

Em 17 de agosto de 2026, durante o 61º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (MEDTROP 2026), em Brasília, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, trouxe um dado que resume, em um único número, o tamanho do desafio brasileiro: o Brasil está entre os 16 países que concentram 80% dos casos de doenças tropicais negligenciadas (DTNs) do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde, informou a CNN Brasil. É o mesmo tipo de dado que o próprio Ministério da Saúde já vinha divulgando desde pelo menos setembro de 2025. O anúncio veio ao lado de avanços reais e verificáveis: menor taxa de malária em 48 anos, salto no diagnóstico de tuberculose, queda acentuada de casos na Terra Indígena Yanomami. Mas o mesmo discurso trouxe uma meta ambiciosa (eliminar 14 doenças até 2030) e uma pergunta que o MNDN não vai deixar de fazer: com os determinantes sociais que ainda sustentam essas doenças, esse prazo é realista?

Ministro da Saúde Alexandre Padilha em conferência no 61º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical
Foto: Ministério da Saúde, via CNN Brasil. O dado foi divulgado pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, em conferência no MEDTROP 2026, em Brasília.

O que foi anunciado no MEDTROP 2026

Os números apresentados por Padilha fazem parte de uma análise do Ministério da Saúde que monitora um conjunto de 11 doenças tropicais negligenciadas: malária, doença de Chagas, leishmanioses, hanseníase, tuberculose, esquistossomose, geo-helmintíases, tracoma, oncocercose, filariose linfática e raiva humana. Entre essas, quatorze doenças e infecções (incluindo transmissões verticais) fazem parte do Programa Brasil Saudável, que estabeleceu meta de eliminação até 2030 e já elegeu 209 municípios prioritários por alta carga de doenças, segundo a reportagem da CNN Brasil.

É a política federal criada pelo Decreto nº 11.908/2024, coordenada pelo Ministério da Saúde através do Comitê Interministerial para a Eliminação da Tuberculose e Outras Doenças Determinadas Socialmente (Ciedds), instituído em abril de 2023, com participação de outros 13 ministérios. Na criação do programa, em fevereiro de 2024, o Ciedds havia identificado 175 municípios prioritários por alta carga de duas ou mais doenças determinadas socialmente. Em agosto de 2026, esse número já havia crescido para 209 municípios, segundo a CNN Brasil, o que indica tanto uma expansão do mapeamento quanto a persistência do problema em mais territórios do que se calculava inicialmente.

Fontes: Ministério da Saúde/Gov.br, OPAS, CNN Brasil.

  • O Brasil fechou 2025 com a menor taxa de casos de malária dos últimos 48 anos e registrou queda de mais de 50% dos casos na Terra Indígena Yanomami;
  • Em hanseníase, 81,3% dos municípios brasileiros estão há cinco anos consecutivos sem casos novos em pessoas com menos de 15 anos, indicador que mede a interrupção da transmissão recente;
  • No diagnóstico de tuberculose, o uso do teste rápido molecular saltou de 4,3% para 63% dos casos;
  • Na oncocercose (“cegueira dos rios” ou “mal do garimpeiro”), a cobertura de tratamento coletivo subiu de 68% para 85,4% em 2025;
  • O Brasil já teve certificada pela OPAS/OMS, em dezembro de 2025, a eliminação da transmissão vertical do HIV, tornando-se o único país continental (mais de 100 milhões de habitantes) a alcançar esse marco;
  • Em julho de 2026, o Ministério da Saúde entregou à OPAS e à OMS o dossiê oficial solicitando validação do Brasil como país livre da transmissão vertical da hepatite B;
  • A transmissão vertical da sífilis segue como a principal pendência do país nesse conjunto de metas, segundo o próprio ministério.

Dois indicadores que avançaram, lado a lado: antes x depois

O teste rápido molecular de tuberculose teve o salto mais expressivo entre os dois indicadores anunciados pelo ministério.

Teste molecular de tuberculose: 4,3% antes, 63% depois. Tratamento coletivo de oncocercose: 68% antes, 85,4% depois (2025).

Fonte: Ministério da Saúde, apresentação no MEDTROP 2026, via CNN Brasil.

👆 Toque aqui para ver o contraste entre os avanços anunciados e o dado que abriu esta matéria.

Ainda não revelado. Toque no card acima.

O dinheiro por trás do avanço

Parte desse progresso tem explicação orçamentária. O MNDN já mostrou em reportagem anterior que o financiamento federal para pesquisa em doenças determinadas socialmente saltou de uma média de R$ 110 milhões por ano, entre 2019 e 2022, para R$ 561 milhões só em 2025, cinco vezes a média do período anterior. Em 2024, foram lançados 9 editais que somaram entre R$ 234 milhões e R$ 263,8 milhões, contemplando 336 projetos de pesquisa.

Financiamento federal para pesquisa em doenças negligenciadas (R$ milhões)

O orçamento de 2025 é cinco vezes maior do que a média anual do período 2019-2022.

Média 2019-2022: R$ 110 milhões por ano. 2024: entre R$ 234 e R$ 263,8 milhões. 2025: R$ 561 milhões.

Fonte: MNDN, com base em editais do CNPq, decretos, portarias e Portal da Transparência.

O padrão que o MNDN já identificou antes se repete: o dinheiro aumentou, mas a solução técnica para a maioria dessas doenças já existia há décadas (a hanseníase tem cura com poliquimioterapia há mais de 40 anos, a esquistossomose tem tratamento eficaz com praziquantel). O que sempre travou não foi a ausência de remédio, foi o acesso a ele e às condições de vida que evitam a reinfecção.

Onde o dinheiro esbarra: os determinantes sociais

É aqui que o anúncio do MEDTROP 2026 encontra um limite que orçamento sozinho não resolve. A maioria das 11 doenças monitoradas pelo Ministério da Saúde, e todas as que mais concentram casos no Brasil, tem no saneamento básico precário e na falta de água potável seu principal terreno de reprodução.

Ilustração de família em comunidade com pouco acesso a água tratada
Em muitas comunidades, a pouca água disponível é destinada primeiro para beber e cozinhar, reduzindo a higiene e criando condições para a circulação de doenças como o tracoma e as geo-helmintíases.
  • Segundo boletim do Ministério da Saúde, as maiores taxas de detecção de doenças tropicais negligenciadas se concentram nas regiões Norte e Nordeste, exatamente as regiões com os piores índices de acesso à água e saneamento do país;
  • Em 2023, apenas 60,4% dos domicílios da Região Norte tinham acesso à rede geral de água, contra 91,8% no Sudeste, segundo o IBGE;
  • Cerca de 19,4% da população brasileira ainda usa fossa rudimentar ou buraco como destino do esgoto, segundo dados citados pelo próprio MNDN em reportagem sobre geo-helmintíases;
  • Para as geo-helmintíases especificamente, o Brasil não tem sistema de vigilância de rotina que produza dados atualizados por estado ou município, ao contrário do que ocorre com tuberculose e hanseníase, que têm notificação compulsória.

Um país que promete eliminar uma doença precisa saber onde ela está.

Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)

O MNDN já detalhou esse problema em reportagem específica: o Brasil se comprometeu a eliminar as geo-helmintíases até 2030, mas não sabe, hoje, quantas pessoas estão infectadas, porque essas doenças não são de notificação compulsória. É o mesmo padrão de lacuna de dado que a matéria sobre tracoma também identificou: o Brasil abriu processo de validação junto à OMS em 2018 e, oito anos depois, ainda não tem um número nacional atualizado. Faltam quatro anos para 2030 e, para várias dessas doenças, o país segue sem o instrumento básico de medição que permitiria saber se a meta está próxima ou distante.

Avanços reais em territórios específicos: o caso Yanomami

A queda de mais de 50% dos casos de malária na Terra Indígena Yanomami, citada por Padilha, não veio isolada. Segundo o Ministério da Saúde, entre 2023 e 2024 o território teve mais de 45 mil doses de vacina aplicadas, aumento de 73% na realização de exames de malária, redução de 68% nos óbitos por desnutrição no primeiro semestre de 2024 em comparação ao ano anterior, e a inauguração do primeiro Centro de Referência em Saúde Indígena do país, capaz de atender cerca de 40 mil indígenas de 60 comunidades.

Equipe de saúde em ação de vigilância em comunidade indígena
Foto: OPAS/OMS/Karina Zambrana. Investimentos estruturantes em territórios indígenas específicos, como o Yanomami, mostram que é possível reverter indicadores graves em poucos anos quando há presença sustentada do Estado.

É um exemplo concreto de que reversão rápida é possível quando há investimento estruturante e presença territorial contínua. O contraponto crítico do MNDN é que esse mesmo padrão de investimento concentrado não está disponível, com a mesma intensidade, para todas as 209 municípios prioritários do Brasil Saudável, nem para doenças que, como as geo-helmintíases e o tracoma, dependem quase inteiramente de obras de saneamento de longo prazo, não de campanhas emergenciais.

2030: Sonho ou Realidade?

O MNDN reconhece que os números anunciados no MEDTROP 2026 são reais e representam trabalho técnico sério. Mas a matemática da meta de 2030 impõe um alerta duro. O Brasil levou mais de duas décadas para reduzir a malária ao patamar atual e ainda assim segue entre os 16 países que concentram 80% da carga mundial de DTNs. O processo de validação da eliminação do tracoma, aberto em 2018, segue incompleto oito anos depois. As geo-helmintíases nem sequer têm um sistema de contagem atualizado. E quando se olha para o dado mais básico de todos, o dinheiro que o país efetivamente investe em água e esgoto, a resposta fica ainda mais difícil de evitar.

Vala de esgoto a céu aberto passando entre casas de uma comunidade
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil. Esgoto a céu aberto: 19,4% da população brasileira ainda usa fossa rudimentar ou buraco como destino do esgoto, segundo o Censo Demográfico 2022 do IBGE, terreno exato onde circulam geo-helmintíases, esquistossomose e outras DTNs.

O Ranking do Saneamento 2026, do Instituto Trata Brasil em parceria com a GO Associados, com base no Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA, ano-base 2024), traz o retrato mais atual e mais desconfortável dessa conta.

  • Seis anos depois da sanção do Marco Legal do Saneamento Básico (Lei 14.026/2020), apenas 11 das 100 maiores cidades do Brasil já universalizaram água e esgoto. As outras 89 têm até 2033 para se adequar;
  • Mais de 30 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à água potável, e cerca de 90 milhões (43,3%) não têm coleta de esgoto;
  • Mais da metade dos 100 municípios mais populosos do país (51 cidades) investe menos de R$ 100 por habitante em saneamento por ano, menos da metade dos R$ 225 por habitante que o Plano Nacional de Saneamento Básico (PLANSAB) estima como necessário para universalizar o serviço até 2033;
  • Apenas 17 municípios investem mais de R$ 200 por habitante, e só 10 atingem nível de excelência no ranking;
  • A média de perdas de água na distribuição é de 41,51%, muito acima do limite de 25% considerado aceitável, ou seja, quase metade da água tratada no Brasil se perde antes de chegar à torneira.

O próprio Instituto Trata Brasil resume o cenário de forma direta: o prazo de 2033 se aproxima “sem que, em muitos casos, se observe uma mudança estrutural consistente”, e a melhora lenta dos indicadores médios nacionais “mascara a profunda heterogeneidade que caracteriza o setor no Brasil”.

Este é, talvez, o dado mais revelador desta reportagem: o Marco Legal do Saneamento Básico (Lei 14.026/2020) estabelece 2033 como prazo para universalizar água e esgoto no país. O Programa Brasil Saudável estabelece 2030 para eliminar 14 doenças que, em sua maioria, dependem exatamente de água e esgoto para deixar de circular. Ou seja: a própria legislação brasileira admite que vai levar até três anos a mais só para resolver a infraestrutura, o pré-requisito básico, do que o prazo dado para eliminar as doenças que essa infraestrutura deveria ter evitado. Não é um detalhe técnico. É uma contradição de calendário que qualquer plano sério precisaria explicar publicamente.

Fontes: Lei nº 14.026/2020 (Marco Legal do Saneamento Básico); Decreto nº 11.908/2024 (Programa Brasil Saudável).

Investimento em saneamento por habitante: real x necessário (R$/ano)

O Brasil investiu 39% a menos por pessoa do que o necessário para universalizar o saneamento até 2033.

Necessário (PLANSAB): R$ 225 por habitante/ano. Investido no Brasil em 2024: R$ 137,02 por habitante/ano.

Fonte: Painel Saneamento Brasil / SINISA, citado pelo Instituto Trata Brasil, 2026.

Investimento anual em saneamento no Brasil: real x necessário (R$ bilhões)

Para cumprir a meta de 2033, o Brasil precisaria investir um ritmo que nunca alcançou até hoje.

Necessário por ano, até 2033: R$ 48 bilhões. Investido em 2024: R$ 29,1 bilhões.

Fonte: Estudo “Avanços do Marco Legal do Saneamento Básico no Brasil de 2026”, Instituto Trata Brasil.

Não é a primeira vez. O PLANSAB, elaborado em 2012, já havia estabelecido a meta de universalizar o saneamento até 2033, com um investimento estimado em R$ 392 bilhões (depois revisado para R$ 357 bilhões), dos quais 42% (cerca de R$ 163 bilhões) estavam previstos apenas para o primeiro quinquênio, 2013-2018. O resultado: apenas 38% desse valor (R$ 63 bilhões) foi de fato investido no período. Passados mais de dez anos da meta original, um estudo da KPMG em parceria com a ABCON estimou que ainda seriam necessários R$ 753 bilhões para universalizar os serviços até 2033. O padrão que se repete, década após década, é o mesmo: metas ambiciosas no papel, orçamento real sistematicamente abaixo do planejado.

Fontes: PLANSAB (2012, revisão 2018); KPMG/ABCON, “Quanto custa universalizar o saneamento no Brasil” (2020).

👆 Toque aqui para ver a desigualdade entre as capitais brasileiras no acesso à água.

Ainda não revelado. Toque no card acima.

  • Segundo o Censo 2022 do IBGE, 49 milhões de brasileiros (24,3% da população) ainda usavam recursos precários de esgotamento sanitário, e 1,2 milhão de pessoas viviam em domicílios sem banheiro, sanitário ou buraco algum para dejeções, com Piauí, Acre e Maranhão nas piores posições;
  • Um estudo da Fiocruz publicado nos Cadernos de Saúde Pública encontrou 36,5% de crianças com um ou mais geo-helmintos em dez municípios de baixo IDH no Norte e Nordeste, chegando a 45,7% na zona rural, e identificou que baixa renda familiar aumenta em 75% a chance de infecção;
  • O MNDN já mostrou, em reportagem anterior sobre geo-helmintíases, que essas doenças nem sequer têm sistema de vigilância de rotina no Brasil, o que significa que o país não tem, hoje, como medir se está se aproximando ou se afastando da meta de 2030.

Juntando os dois lados da conta, o MNDN chega a uma conclusão que não é confortável, mas é a que os dados sustentam: para as doenças que dependem de solução médica direta, como a transmissão vertical do HIV, a meta de 2030 já provou ser alcançável, o Brasil fez isso. Mas para as doenças que dependem de saneamento básico e água potável, como tracoma, geo-helmintíases, esquistossomose e boa parte da hanseníase e da doença de Chagas, a mesma matemática que rege obras de infraestrutura no Brasil, décadas de metas subfinanciadas, prazos legais que se estendem além de 2030, investimento 39% abaixo do necessário, indica que a meta de 2030, tal como está, é mais um horizonte a perseguir do que um compromisso que será cumprido no prazo. Reconhecer isso publicamente, com números na mesa, é mais útil ao país do que repetir uma meta única sem diferenciar o que é possível do que ainda depende de uma torneira que não existe.

Perguntas que o MNDN dirige ao poder público

  • Existe um cronograma público, ano a ano, mostrando quantas das 14 doenças e infecções do Programa Brasil Saudável estão de fato no caminho para serem eliminadas até 2030, e quantas estão atrasadas?
  • Qual é a lista completa e atualizada dos 209 municípios prioritários, e quais indicadores de saneamento básico e água potável cada um desses municípios apresenta hoje?
  • Por que as geo-helmintíases, incluídas na meta de eliminação até 2030, ainda não têm notificação compulsória nem sistema de vigilância de rotina no Brasil?
  • O aumento do financiamento de pesquisa (de R$ 110 milhões para R$ 561 milhões por ano) está sendo acompanhado por investimento equivalente em saneamento básico nos 209 municípios prioritários, ou concentra-se apenas em pesquisa e assistência médica?
  • O modelo de investimento concentrado que reduziu a malária em mais de 50% na Terra Indígena Yanomami será replicado, com o mesmo nível de recursos, para outros territórios prioritários do Brasil Saudável?

A posição do Movimento

Logo do Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas
As perguntas acima são formuladas pelo MNDN no exercício do controle social previsto na Lei nº 8.142/1990. Arte: MNDN

O MNDN reconhece avanços concretos e verificáveis: a certificação da eliminação da transmissão vertical do HIV, a queda histórica da malária, o salto no diagnóstico da tuberculose e a recuperação de indicadores graves no território Yanomami são conquistas reais, fruto de investimento e trabalho técnico sustentado. Mas reconhecer o avanço não significa aceitar o prazo sem questionamento. Nossa posição:

  • Meta sem medição não é meta, é intenção. Doenças como as geo-helmintíases precisam de notificação compulsória e vigilância de rotina antes que se possa dizer, com seriedade, que serão eliminadas até 2030;
  • 209 municípios prioritários precisam de dados públicos completos. Não basta saber que existem: a sociedade civil precisa saber quais são e quais indicadores de saneamento cada um apresenta;
  • Investimento em pesquisa não substitui investimento em saneamento. Os R$ 561 milhões de 2025 são uma conquista, mas resolvem hanseníase e tuberculose muito mais rápido do que resolvem tracoma e geo-helmintíases, que dependem de obra, não de remédio;
  • O modelo Yanomami precisa virar política, não exceção. Se investimento concentrado reduz malária em mais de 50% em poucos anos, esse modelo deveria ser replicado com a mesma prioridade orçamentária em outros territórios de alta carga;
  • Honestidade sobre o prazo. Reconhecer publicamente quais das 14 metas dificilmente serão cumpridas até 2030 é mais útil ao país do que manter uma meta única sem diferenciação de risco.

Os números do MEDTROP 2026 mostram que o Brasil sabe como reduzir uma doença negligenciada quando decide investir de verdade. A pergunta que o país ainda não respondeu é se vai fazer isso em todos os 209 municípios prioritários, ou só onde a atenção internacional está olhando.

João Victor Pacheco Fós Kersul de Carvalho, Presidente do MNDN

Perguntas frequentes sobre a meta 2030

Porque as doenças tropicais negligenciadas estão historicamente associadas à pobreza, ao saneamento básico precário e à falta de acesso à água potável, condições que ainda persistem em partes significativas do território brasileiro, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste e em territórios indígenas.

É a política federal, criada pelo Decreto nº 11.908/2024, que estabeleceu meta de eliminar 14 doenças e infecções determinadas socialmente até 2030, incluindo tuberculose, hanseníase, HIV/aids, malária, hepatites virais, tracoma, oncocercose, doença de Chagas e esquistossomose, entre outras. O programa elegeu 209 municípios prioritários por alta carga dessas doenças.

Em 2025, o país registrou a menor taxa de malária em 48 anos, queda de mais de 50% dos casos na Terra Indígena Yanomami, salto no diagnóstico molecular de tuberculose (de 4,3% para 63%) e aumento na cobertura de tratamento da oncocercose (de 68% para 85,4%). Em dezembro de 2025, o país também teve certificada pela OPAS/OMS a eliminação da transmissão vertical do HIV.

Para algumas doenças com solução médica direta, como a transmissão vertical do HIV, sim, já foi demonstrado ser possível. Para outras que dependem de saneamento básico e acesso à água, como tracoma e geo-helmintíases, o prazo é mais incerto: o processo de validação do tracoma, por exemplo, está aberto desde 2018 e ainda não foi concluído, e as geo-helmintíases nem sequer têm sistema de vigilância de rotina no país.

Fontes e referências

  • CNN BRASIL. Brasil e 16 países concentram casos de doenças tropicais negligenciadas. Ana Clara Machado e Thomaz Coelho, 18 de agosto de 2026. cnnbrasil.com.br.
  • MOVIMENTO NACIONAL DAS DOENÇAS NEGLIGENCIADAS (MNDN). Investimento em Doenças Negligenciadas: Governo Federal Gastou R$ 561 Mi em 2025. mndnbrasil.org.
  • MOVIMENTO NACIONAL DAS DOENÇAS NEGLIGENCIADAS (MNDN). Geo-helmintíases: o Brasil promete eliminar até 2030 uma doença que não sabe medir. mndnbrasil.org.
  • MOVIMENTO NACIONAL DAS DOENÇAS NEGLIGENCIADAS (MNDN). Tracoma: a doença que cega em silêncio e o Brasil não sabe dizer quantas pessoas ainda têm. mndnbrasil.org.
  • MINISTÉRIO DA SAÚDE / GOV.BR. Brasil é o primeiro país a lançar programa para eliminação e controle de doenças socialmente determinadas. gov.br/saude.
  • MINISTÉRIO DA SAÚDE / GOV.BR. Ministério da Saúde caminha rumo à eliminação do tracoma no Brasil (cita os 16 países e 80% da carga global de DTNs). gov.br/saude.
  • AGÊNCIA GOV / Ministério da Saúde. Ações federais garantem proteção, cidadania e preservação na maior terra indígena do país (dados Yanomami). agenciagov.ebc.com.br.
  • UNICEF BRASIL / OPAS-OMS. OMS certifica Brasil pela eliminação da transmissão vertical do HIV. unicef.org/brazil.
  • IBGE. Pnad Contínua: Características Gerais dos Domicílios e dos Moradores, 2023 (dados de acesso à água por região). agenciadenoticias.ibge.gov.br.
  • INSTITUTO TRATA BRASIL / GO ASSOCIADOS. Ranking do Saneamento 2026 (dados SINISA, ano-base 2024). tratabrasil.org.br.
  • INSTITUTO TRATA BRASIL. Brasil investe 39% a menos por pessoa do que o necessário para universalizar o saneamento. tratabrasil.org.br.
  • AGÊNCIA BRASIL / RADIOAGÊNCIA NACIONAL. Ranking do Saneamento 2026 aponta falta de investimento no setor. agenciabrasil.ebc.com.br.
  • KPMG / ABCON. Quanto custa universalizar o saneamento no Brasil (2020, com base no PLANSAB 2012/2018). assets.kpmg.com.
  • IBGE. Censo Demográfico 2022: Características dos domicílios (esgotamento sanitário, fossa rudimentar, ausência de banheiro). agenciadenoticias.ibge.gov.br.

Nota de transparência: todos os dados numéricos citados nesta matéria têm fonte verificada indicada acima. A lista completa e atualizada dos 209 municípios prioritários do Programa Brasil Saudável não está disponível de forma consolidada nas fontes consultadas até a publicação desta reportagem; essa lacuna de transparência é apontada explicitamente na seção de perguntas ao poder público.

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