Lombriga, amarelão, verme. Os nomes populares são conhecidos de qualquer família brasileira que tenha morado onde falta esgoto. O nome técnico é geo-helmintíase , um conjunto de parasitoses transmitidas pelo solo contaminado por fezes humanas. O Brasil assumiu o compromisso de eliminá-las como problema de saúde pública até 2030. Faltam quatro anos. E o país não tem um sistema que diga, hoje, quantas crianças estão infectadas.
O que são as geo-helmintíases?
Geo-helmintíases são infecções causadas por vermes que passam parte do ciclo de vida no solo. Daí o prefixo geo, de terra. As três principais no Brasil são:
- Ascaridíase, causada pelo Ascaris lumbricoides a lombriga;
- Ancilostomíase, causada por ancilostomídeos conhecida como amarelão ou doença do Jeca Tatu;
- Tricuríase, causada pelo Trichuris trichiura.
Elas integram a lista de doenças tropicais negligenciadas da Organização Mundial da Saúde e estão entre as 14 doenças que o programa Brasil Saudável se comprometeu a eliminar ou reduzir.
Como a esquistossomose, elas não se transmitem de pessoa para pessoa. Transmitem-se pelo ambiente e o ambiente, aqui, é produto de política pública.
Como acontece a transmissão
O ciclo é curto e revelador:
- Uma pessoa infectada elimina ovos do verme nas fezes;
- Sem banheiro ou esgotamento adequado, essas fezes vão para o solo;
- Os ovos amadurecem na terra em clima quente e úmido, isso leva poucas semanas;
- A infecção acontece por ingestão, quando mãos, alimentos ou água entram em contato com o solo contaminado, no caso da ascaridíase e da tricuríase;
- Ou por penetração pela pele, no caso dos ancilostomídeos tipicamente ao andar descalço.
Reparem no que a lista descreve: criança que brinca no chão, família que não tem banheiro, gente que anda descalça porque não tem sapato. Nenhum desses é comportamento de risco. São descrições de pobreza.
Por que atinge principalmente as crianças
As geo-helmintíases afetam de forma desproporcional crianças em idade escolar, e o motivo não é apenas o contato com o solo. É que os efeitos são mais graves em corpos em crescimento.
A infecção crônica está associada a anemia por deficiência de ferro, desnutrição, atraso no crescimento, e comprometimento do desenvolvimento cognitivo e do desempenho escolar. Nos casos de carga parasitária alta, pode haver obstrução intestinal.
É um ciclo cruel e bem documentado: a criança adoece porque é pobre, e a doença compromete a escola, que é justamente o que poderia interromper a pobreza.
O mapa do saneamento clique no seu estado
Se a transmissão depende de fezes humanas no solo, então o indicador que melhor prevê a doença é a cobertura de esgoto. Abaixo, os dados oficiais do IBGE por região e por estado.
Antes de clicar, um aviso que é o centro desta reportagem: você não vai encontrar aqui a prevalência de vermes no seu estado. Esse número não existe de forma atualizada e sistemática. Explicamos o porquê logo abaixo do mapa.
Saneamento no Brasil, estado por estado
Cada quadrado é uma unidade da federação, posicionada aproximadamente onde fica no país. A cor indica a cobertura de esgoto da região. Clique para ver os dados disponíveis.
Selecione um estado
Dados do IBGE
Toque ou clique em qualquer quadrado do mapa para ver os dados de saneamento daquele estado e da sua região.
Fontes: IBGE, PNAD Contínua 2022 — Características gerais dos domicílios (domicílios urbanos ligados à rede geral de esgoto) e Censo Demográfico 2022 — Características dos domicílios. Onde consta “não consultado”, o dado existe no SIDRA/IBGE, mas não foi levantado para esta reportagem — optamos por não estimar números.
O dado que o Brasil não tem
Aqui está o problema que esta reportagem quer expor.
Para a esquistossomose, o Brasil mantém o Sistema de Informação do Programa de Controle da Esquistossomose (SISPCE), que registra exames e casos ano a ano. Para tuberculose, hanseníase e várias outras, existe notificação compulsória o caso diagnosticado entra num sistema nacional.
Para as geo-helmintíases, não. Elas não são de notificação compulsória e não contam com um programa de vigilância de rotina que produza séries históricas por estado ou município.
O resultado prático é este: o país assumiu diante da OMS e da ONU a meta de eliminar essas doenças até 2030, mas não dispõe de um indicador nacional atualizado que permita saber se está se aproximando ou se afastando dessa meta.
Não se elimina o que não se mede. Uma meta sem indicador de acompanhamento não é uma política pública é uma intenção. E intenção não cura criança nenhuma.
Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)
O que o último inquérito nacional encontrou
O dado mais abrangente que o Brasil produziu sobre o tema veio do Inquérito Nacional de Prevalência da Esquistossomose mansoni e Geo-helmintoses, realizado pela Fiocruz Minas — o Instituto René Rachou — sob coordenação do pesquisador Naftale Katz.
Foi um estudo de corte transversal, de base populacional, com escolares de 7 a 17 anos, e o primeiro com abrangência em todas as unidades da federação. Os resultados mostraram queda expressiva em relação aos levantamentos anteriores, de 1953 e de 1977.
- Maranhão: a proporção de escolares positivos para geo-helmintos era de 99,4% em 1953; no inquérito recente, ficou em torno de 20%;
- Minas Gerais: a taxa era de 89,4% historicamente; no inquérito, 1,4% para Ascaris, 0,9% para ancilostomídeos e 0,6% para Trichuris;
- A positividade para esquistossomose no mesmo inquérito caiu para 1%, contra 10% em 1953 e 6,9% em 1977.
É preciso dizer com clareza: esses números representam um avanço real e enorme. Sair de 99,4% para 20% no Maranhão é conquista de saúde pública, e os próprios autores atribuem o resultado à urbanização, à expansão do abastecimento de água e do esgoto, e aos milhões de tratamentos realizados ao longo de décadas.
Mas os pesquisadores fizeram uma ressalva que o MNDN considera decisiva: essas melhorias, especialmente no esgotamento sanitário, vêm ocorrendo em ritmo lento o que reforça a preocupação com os efeitos de mudanças nas políticas de saneamento e nas políticas sociais.
E há um segundo problema com esse inquérito, que não é culpa de quem o fez: em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul, a adesão ficou entre 19% e 37% do previsto, o que comprometeu a representatividade nesses estados. Ou seja, mesmo o melhor dado que temos tem lacunas conhecidas.
Onde a pobreza se concentra, o número é outro
A média nacional esconde. Quando pesquisadores foram medir especificamente onde a vulnerabilidade é maior, encontraram um retrato bem diferente.
Um estudo publicado nos Cadernos de Saúde Pública, da Fiocruz, investigou crianças de 5 a 14 anos em dez municípios brasileiros com baixo Índice de Desenvolvimento Humano, no Norte e no Nordeste.
- Das 2.523 crianças examinadas, 36,5% tinham um ou mais geo-helmintos;
- Ascaris lumbricoides: 25,1%;
- Ancilostomídeos: 15,3%;
- Trichuris trichiura: 12,2%;
- Na zona rural, a proporção chegou a 45,7%; na urbana, 32,2%.
O estudo também identificou os fatores associados à infecção, e eles descrevem exatamente o que o MNDN vem apontando há anos:
- Baixa renda familiar — chance de infecção 75% maior;
- Baixa escolaridade materna — chance 69% maior;
- Presença de lixo próximo ao domicílio — chance 50% maior;
- Maior número de pessoas no domicílio — também associado a risco aumentado.
Coloque os dois conjuntos lado a lado. Na média nacional de escolares, poucos por cento. Em municípios de baixo IDH, mais de um terço das crianças infectadas quase metade na zona rural. A doença não sumiu do Brasil. Ela se concentrou.
O que o Censo 2022 mostra sobre o terreno onde a doença cresce
Os números de saneamento do Censo Demográfico 2022 explicam por que essa concentração acontece:
- 49 milhões de brasileiros — 24,3% da população — ainda usavam recursos precários de esgotamento sanitário;
- 19,4% da população tinha como destino do esgoto a fossa rudimentar ou buraco exatamente a condição que deposita ovos de helmintos no solo;
- 2,0% lançava esgoto diretamente em rio, lago, córrego ou mar, e 1,5% em vala;
- 1,2 milhão de pessoas viviam em domicílios sem banheiro, sanitário ou buraco para dejeções. Piauí (5,0%), Acre (3,8%) e Maranhão (3,8%) tinham as taxas mais elevadas;
- A coleta de lixo atendia 90,9% da população mas variava de 99,0% em São Paulo a 69,8% no Maranhão.
Compare esse último dado com o fator de risco identificado pelo estudo da Fiocruz: lixo próximo ao domicílio aumenta em 50% a chance de infecção. No Maranhão, três em cada dez pessoas não têm coleta.
Diagnóstico e tratamento existem e são baratos
Este é o ponto que torna a permanência dessas doenças mais difícil de justificar.
O diagnóstico é feito por exame parasitológico de fezes, com o método Kato-Katz o mesmo usado para esquistossomose, de baixo custo e aplicável em campo.
O tratamento é feito com anti-helmínticos de dose única, via oral, baixo custo e poucos efeitos colaterais. Os próprios autores do inquérito nacional destacam que os milhões de tratamentos realizados ao longo das décadas foram um dos fatores da redução observada.
Ou seja: o Brasil sabe diagnosticar, sabe tratar, e o custo é baixo. O que falta não é tecnologia.
A meta de 2030 e o que ela exige
As geo-helmintíases estão entre as doenças que o programa Brasil Saudável, criado por decreto em fevereiro de 2024, se comprometeu a eliminar como problema de saúde pública até 2030. O programa reúne 14 ministérios e nasceu do Comitê Interministerial para a Eliminação da Tuberculose e Outras Doenças Determinadas Socialmente (CIEDDS).
O desenho é correto: envolver 14 ministérios é reconhecer que essas doenças não se resolvem só na Saúde. Mas uma meta precisa de três coisas para sair do papel indicador, prazo e orçamento.
Prazo existe: 2030. Orçamento é matéria de disputa. Indicador atualizado e desagregado por território, esse não temos.
Linha do tempo
- 1953 — O primeiro retrato Levantamento nacional encontra 99,4% dos escolares positivos para geo-helmintos no Maranhão e 89,4% em Minas Gerais. A positividade para esquistossomose era de 10%.
- 1977–1981 — Segundo levantamento Novo inquérito registra queda: esquistossomose em 6,9%. As geo-helmintíases também recuam, acompanhando a urbanização e a expansão do saneamento.
- Inquérito Nacional — Fiocruz Minas Primeiro estudo com abrangência em todas as unidades da federação, com escolares de 7 a 17 anos. Maranhão cai para cerca de 20%; Minas Gerais registra 1,4% para Ascaris. Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul têm adesão de apenas 19% a 37%.
- 2022 — O Censo 49 milhões de pessoas seguem com esgotamento precário. 19,4% da população usa fossa rudimentar. 1,2 milhão vive sem qualquer instalação sanitária.
- 2024 — O compromisso Programa Brasil Saudável inclui as geo-helmintíases entre as doenças a eliminar até 2030, com 14 ministérios envolvidos.
- 2026 — Quatro anos para a meta Sem vigilância de rotina, o país não tem como afirmar se está avançando ou retrocedendo em direção ao compromisso assumido.
Perguntas que o MNDN dirige aos gestores
Não como acusação, mas como exercício legítimo de controle social. São perguntas de interesse público, e merecem resposta pública:
- Qual é o indicador oficial que o Brasil usará para verificar o cumprimento da meta de eliminação das geo-helmintíases até 2030?
- Existe previsão de um novo inquérito nacional de prevalência, ou de incorporação dessas doenças a algum sistema de vigilância?
- Qual a cobertura atual das campanhas de desparasitação em escolares, e ela é monitorada por município?
- Os estados com adesão insuficiente no último inquérito — Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul — foram reavaliados?
- As metas de universalização do saneamento estão priorizando os territórios com maior carga dessas doenças, ou seguem outro critério?
- Como as comunidades afetadas participam da definição dessas prioridades?
A posição do Movimento
O Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas reconhece os avanços. A queda de 99,4% para 20% no Maranhão é resultado de décadas de trabalho de pesquisadores, profissionais do SUS e agentes comunitários. Isso precisa ser dito, e dito com todas as letras.
Mas reconhecer o avanço não é aceitar a parada. Nossa posição:
- Criar vigilância de rotina. Sem indicador atualizado e desagregado por território, a meta de 2030 não é verificável;
- Retomar os inquéritos periódicos, com adesão garantida em todas as unidades da federação;
- Priorizar saneamento por vulnerabilidade o investimento precisa chegar primeiro onde o Censo apontou os piores indicadores;
- Integrar desparasitação e saneamento. Tratar sem sanear devolve a criança curada ao mesmo solo em poucos meses;
- Valorizar Agentes Comunitários de Saúde e Agentes de Combate às Endemias, que são quem alcança essas famílias;
- Garantir participação social na definição de onde e como investir.
As doenças negligenciadas não começam no consultório nem terminam no medicamento. Elas têm origem nas condições em que as pessoas vivem. Quando falamos em eliminar essas doenças, estamos falando de saneamento básico, água tratada, coleta de lixo, tratamento de esgoto, moradia digna, educação em saúde e redução das desigualdades.
— João Victor Pacheco Fos Kersul de Carvalho, Presidente do MNDN
Faltam quatro anos para 2030. O Brasil tem o exame, tem o remédio, tem o SUS e tem um programa interministerial. Falta saber onde estão as crianças doentes e fazer o cano chegar até elas.
Fontes e referências
- KATZ, N. (coord.). Inquérito Nacional de Prevalência da Esquistossomose mansoni e Geo-helmintoses. Fiocruz Minas / Instituto René Rachou, Belo Horizonte. Disponível no repositório ARCA/Fiocruz.
- Fiocruz. Estudo mostra redução de casos de esquistossomose e geo-helmintoses no Brasil. Portal Fiocruz.
- FONSECA, E. O. L. et al. Prevalência e fatores associados às geo-helmintíases em crianças residentes em municípios com baixo IDH no Norte e Nordeste brasileiros. Cadernos de Saúde Pública, Fiocruz. SciELO.
- IBGE. Censo Demográfico 2022: Características dos domicílios — Resultados do universo. Divulgado em 23 de fevereiro de 2024. Agência IBGE Notícias.
- IBGE. PNAD Contínua 2022 — Características gerais dos domicílios e dos moradores. Agência IBGE Notícias.
- Governo Federal. Programa Brasil Saudável Decreto de 7 de fevereiro de 2024. CIEDDS.
- Organização Mundial da Saúde. Roteiro para doenças tropicais negligenciadas 2021–2030.
- Esta matéria tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Se você suspeita de parasitose, procure uma Unidade Básica de Saúde. O exame e o tratamento são gratuitos pelo SUS.