Trinta e três metros. É essa a distância entre uma casa de assentamento rural no Acre e a palmeira onde pesquisadores capturaram uma ninfa de barbeiro que já havia se alimentado de sangue humano. Ninguém precisou de um inseto morando dentro da parede para que o risco chegasse. Bastou que a floresta recuasse até a porta. É esse o achado que amarra três estudos publicados por um mesmo grupo científico sobre o município de Cruzeiro do Sul, no Vale do Juruá, e que reposiciona o desmatamento não como um problema ambiental que também afeta a saúde, mas como um determinante direto de três doenças negligenciadas ao mesmo tempo: leishmaniose, doença de Chagas e malária.
O que a ciência foi medir em Cruzeiro do Sul
A investigação é liderada pelo biólogo Gabriel Laporta, do Centro Universitário Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), com financiamento da FAPESP e do programa Amazônia+10. O grupo escolheu um assentamento rural no segundo maior município do Acre, território sob pressão constante de desmatamento, e o transformou em laboratório a céu aberto. Não é modelagem de gabinete: é coleta de campo, em pontos amostrais que vão da floresta íntegra à área completamente derrubada.
- 20 unidades de paisagem amostradas em Cruzeiro do Sul (AC) nos anos de 2022 e 2024, nos estudos de leishmaniose e de doença de Chagas;
- 40 pontos de coleta no estudo anterior, sobre malária, publicado em 2025 na revista Acta Tropica;
- Imagens de drone e satélite de alta resolução foram usadas para medir distâncias e composição do uso da terra em cada ponto;
- Ensaios moleculares identificaram a infecção dos insetos pelos parasitas, e a análise de repasto sanguíneo revelou de quem cada inseto havia se alimentado;
- Três doenças negligenciadas foram avaliadas sob o mesmo gradiente de perda florestal: leishmaniose cutânea, doença de Chagas e malária.
Porque ele responde a uma pergunta que a vigilância brasileira raramente consegue responder: onde, exatamente, dentro de um território, o risco se concentra. A vigilância epidemiológica trabalha com o município como unidade, mas dentro de um mesmo município há paisagens completamente diferentes. Um estudo que mede a distância entre uma palmeira e uma casa produz um indicador que um gestor municipal pode efetivamente usar para priorizar visita domiciliar, borrifação e busca ativa. É o oposto da estatística que só serve para relatório.
Fonte: Laporta et al., PLOS ONE, 2026; Agência FAPESP.
Leishmaniose: o que pesa não é a floresta, é o tempo de ocupação
O primeiro resultado contrariou a expectativa dos próprios pesquisadores. Os achados deste estudo, publicado na revista Parasites & Vectors, são apresentados aqui conforme descritos na reportagem da Agência FAPESP, já que o texto integral do artigo está sob acesso restrito. A hipótese natural seria encontrar mais mosquitos-palha (os flebotomíneos que transmitem o protozoário Leishmania) nas áreas de mata fechada, mais úmidas e sombreadas. Não foi o que os dados mostraram. A abundância dos vetores se associou mais fortemente ao tempo decorrido desde o desmatamento e a ocupação humana do que à cobertura florestal remanescente. Ou seja: o mosquito-palha se estabelece no ambiente modificado e permanece ali por anos, e sua população cresce gradualmente à medida que o assentamento se consolida e a atividade humana persiste. A espécie dominante encontrada foi Nyssomyia antunesi. Todos esses achados são relatados pela Agência FAPESP com base em entrevista com o autor correspondente do artigo, o biólogo Gabriel Laporta.
A consequência prática é direta: um assentamento antigo pode ser mais perigoso que uma frente de desmatamento recente. E as ações de controle vetorial precisam levar em conta o histórico de uso da terra, informação que, hoje, não entra na ficha de investigação epidemiológica de leishmaniose no Brasil.
- 71.942 casos de leishmaniose tegumentar teriam sido notificados no Brasil entre 2020 e 2024, com maior concentração nas regiões Norte e Nordeste, segundo estudo epidemiológico retrospectivo com dados do SINAN publicado na Revista Eletrônica Acervo Científico. O dado não consta de boletim epidemiológico oficial do Ministério da Saúde;
- Cerca de 13 mil casos de leishmaniose tegumentar foram registrados só em 2023, de acordo com o Ministério da Saúde, que naquele ano lançou painéis de monitoramento das leishmanioses;
- A região Norte lidera a incidência nacional, com Pará e Amazonas entre as áreas mais afetadas;
- 3 casos por 10 mil habitantes é a taxa média anual de incidência de leishmaniose cutânea em Cruzeiro do Sul, abaixo da observada em áreas mais desmatadas do próprio Acre, e concentrada em homens jovens da zona rural;
- Cerca de 2 mil casos anuais de leishmaniose visceral, a forma grave e potencialmente fatal, são notificados no país, com surtos localizados sobretudo no Norte e no Nordeste.
👆 Toque aqui para ver o dado que muda a lógica do controle vetorial da leishmaniose no Brasil.
Ainda não revelado. Toque no card acima.
Chagas: o barbeiro não precisa entrar em casa
O segundo estudo, publicado na PLOS ONE, desmonta um pressuposto que organiza a política brasileira de controle da doença de Chagas há décadas. A vigilância clássica se estrutura em torno da domiciliação do vetor: o barbeiro que coloniza frestas de parede, entulhos e móveis parados. A lógica é: se não há colonização domiciliar, o risco é baixo. Os dados do Acre mostram que essa lógica não se sustenta na Amazônia.
Os pesquisadores selecionaram, em cada ponto de amostragem, uma palmeira do gênero Attalea próxima a uma residência habitada, coletaram os triatomíneos e testaram sua infecção. Modelos bayesianos mostraram que a probabilidade de infecção por Trypanosoma cruzi, o parasita da doença de Chagas, foi maior nas paisagens mais desmatadas, e que esse efeito era modulado pela distância entre a palmeira e a casa: quanto menor a distância, maior a chance de encontrar o inseto infectado. O parasita aparentado Trypanosoma rangeli, que não causa doença em humanos, não apresentou associação com a cobertura florestal, o que reforça que o padrão encontrado é específico e não um artefato do desenho do estudo.
A análise de repasto sanguíneo revelou alimentação frequente em hospedeiros silvestres, sobretudo marsupiais. E, em uma ninfa coletada a apenas 33 metros de um domicílio, foi detectado sangue humano. O ciclo silvestre não precisou se mudar para dentro da casa. A casa é que chegou perto dele.
- 3.750 óbitos por doença de Chagas foram registrados no Brasil em 2024, com maior concentração no Sudeste, reflexo de infecções contraídas há décadas;
- 520 casos agudos em 2024, principalmente no Norte, com destaque para o Pará;
- 627 casos agudos em 2025 (dados preliminares), sendo 97% deles na região Norte, além de 8.106 casos crônicos concentrados em Minas Gerais, Bahia e Goiás;
- 84,68% das infecções agudas notificadas entre 2013 e 2023 teriam ocorrido por transmissão oral, superando a transmissão vetorial clássica, com 95,24% dos casos na região Norte, segundo levantamento de 2.603 notificações do SINAN divulgado pelo Conselho Federal de Farmácia. Outros estudos com recortes distintos apontam percentuais próximos, entre 83% e 88%;
- R$ 12 milhões foram anunciados pelo Ministério da Saúde em abril de 2026 para vigilância e controle da doença em 155 municípios prioritários de 17 estados.
Justamente por isso. O triatomíneo infectado que vive na copa da palmeira não precisa picar ninguém para transmitir o parasita: basta que ele, ou suas fezes, acabe dentro do tanque de processamento de açaí, bacaba ou outro fruto de palmeira colhido naquela mesma vegetação. O parasita sobrevive na polpa e infecta quem consome. Por isso os surtos amazônicos de Chagas aguda são familiares e coletivos, atingem várias pessoas da mesma casa de uma vez, e têm sazonalidade ligada à safra dos frutos.
Isso conecta diretamente os dois achados: a mesma palmeira que aproxima o vetor da casa é a palmeira de onde sai o alimento. O desmatamento no entorno concentra as duas coisas no mesmo ponto.
Fonte: Guia de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde; Laporta et al., PLOS ONE, 2026; estudos epidemiológicos com dados do SINAN/DATASUS.
Malária: o risco mora no meio do caminho
O terceiro trabalho do grupo, publicado em 2025 na revista Acta Tropica, encontrou um padrão que parece contraintuitivo mas explica muita coisa: o maior risco de malária não está na floresta íntegra nem na área totalmente arrasada. Está no meio, em paisagens com aproximadamente 50% de cobertura florestal remanescente, fragmentada, junto a moradias e assentamentos. Ali o mosquito Anopheles do subgênero Nyssorhynchus encontra ao mesmo tempo criadouro adequado e hospedeiro humano disponível.
Nos dois extremos, o risco cai. Na área completamente desmatada, o ambiente se torna inóspito para o vetor. E aqui está o ponto que interessa à política pública: quando a floresta é restaurada acima de 70% de cobertura, a ameaça também recua. A restauração, portanto, não é apenas mitigação climática: é medida de controle vetorial.
- 118.037 casos autóctones de malária foram registrados no Brasil em 2025: 15% menos que em 2024 e o menor número desde 1978;
- Mortes caíram de 56 para 39 entre 2024 e 2025, uma redução de 30%, junto com queda de 30,7% nos casos da forma mais grave;
- 99% dos casos brasileiros continuam concentrados na região amazônica;
- Mais de 33,7 mil pessoas já foram tratadas com tafenoquina até junho de 2026. O Brasil foi o primeiro país do mundo a incorporar o medicamento de dose única ao sistema público;
- Meta de eliminação até 2035, com marco intermediário de menos de 14 mil casos até 2030, segundo o Plano Nacional de Eliminação da Malária.
O desmatamento cai, mas a paisagem do risco já está feita
Aqui o MNDN precisa reconhecer um avanço real e concreto. A taxa consolidada de desmatamento da Amazônia Legal em 2025 foi de 5.731 km², uma redução de 12,07% em relação a 2024 e o menor valor em mais de uma década. Oito dos nove estados da Amazônia Legal reduziram o desmatamento. Isso é resultado de política pública, fiscalização e monitoramento por satélite, e precisa ser dito com todas as letras.
Mas há dois “poréns” que a matéria de saúde não pode ignorar. O primeiro: Mato Grosso foi o único estado da Amazônia Legal a registrar aumento, de 26,73% entre 2024 e 2025. O MNDN é sediado em Mato Grosso e já vinha alertando, em cobertura anterior, para a combinação entre pressão ambiental e doenças negligenciadas no estado. Os dados do INPE agora dão nome ao alerta.
O segundo “porém” é mais difícil de encarar: a floresta que caiu nos últimos vinte anos não volta com a queda da taxa atual. Os estudos do Acre mostram que o risco de leishmaniose se associa ao tempo de ocupação, não ao desmate recente. Reduzir o corte hoje não desfaz a paisagem de risco criada ontem. Só a restauração faz isso.
Não é a árvore que cai hoje que adoece a comunidade amanhã. É a árvore que caiu há vinte anos e nunca voltou. Política de saúde que só olha a taxa anual de desmatamento está olhando para o lugar errado do gráfico.
Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)
Restaurar como política de saúde, e com a comunidade no comando
A parte mais relevante desta reportagem talvez não esteja nos resultados já publicados, e sim no que vem depois. Laporta iniciou uma nova etapa do trabalho: restaurar áreas degradadas com espécies nativas amazônicas e medir, ao longo do tempo, o que acontece com os indicadores de saúde. O primeiro passo foi digitalizar imagens do local e simular, a partir de modelos parametrizados, a evolução dos casos de malária após um processo de restauração. E os moradores ficarão responsáveis pelo plantio.
Ou seja: um estudo de intervenção ambiental desenhado como experimento de saúde pública, com participação comunitária na execução. A mensagem do pesquisador é resumida em duas palavras: “precisamos restaurar”.
Para o MNDN, esse desenho importa por uma razão específica. Ele trata a comunidade como executora, não como objeto de pesquisa. É o oposto do modelo em que pesquisadores chegam, coletam, publicam e vão embora, deixando o território exatamente como encontraram. Se o experimento funcionar, o Brasil terá evidência empírica de que restauração florestal é intervenção sanitária mensurável, e isso muda o argumento orçamentário.
👆 Toque aqui para ver por que a restauração precisa passar de 70% para reduzir o risco, e o que isso significa na prática.
Ainda não revelado. Toque no card acima.
A conta global: o dinheiro está indo embora
Enquanto a ciência brasileira produz evidência de altíssima qualidade sobre o vínculo entre floresta e doença, o financiamento internacional para doenças negligenciadas está em rota contrária. Os números da Organização Mundial da Saúde são diretos.
- 1,4 bilhão de pessoas precisavam de intervenção contra pelo menos uma doença tropical negligenciada ao fim de 2024, uma redução de 36% em relação a 2010;
- Cerca de 1 bilhão de pessoas são afetadas por DTNs no mundo, em um grupo de mais de 21 condições que inclui leishmaniose, Chagas, dengue e chikungunya;
- Queda de 41% na ajuda internacional destinada a DTNs entre 2018 e 2023. O financiamento encolheu justamente quando as metas de eliminação se aproximam;
- 58 países já eliminaram ao menos uma DTN até o início de 2026, rumo à meta da OMS de 100 países até 2030;
- US$ 25 de retorno econômico para cada US$ 1 investido em quimioterapia preventiva, segundo estimativa da própria OMS, e ainda assim a área segue entre as mais subfinanciadas da saúde global.
O Brasil tem se movido nesse cenário: obteve a certificação de eliminação da filariose linfática em setembro de 2024 e da transmissão vertical do HIV em dezembro de 2025, e mantém o programa Brasil Saudável, que reúne 11 doenças e cinco infecções de transmissão vertical com metas para 2030. Malária, Chagas e leishmanioses estão nessa lista. O que os estudos do Acre acrescentam é uma advertência: essas metas não serão alcançadas apenas com medicamento e diagnóstico, se a paisagem que produz a exposição continuar sendo produzida.
Perguntas que o MNDN dirige ao poder público
- A ficha de investigação epidemiológica de leishmaniose tegumentar passará a registrar o histórico de uso da terra e o tempo de ocupação da área, já que a evidência científica aponta essa variável como determinante da abundância do vetor?
- O protocolo de vigilância da doença de Chagas na Amazônia será revisto para incluir o monitoramento de palmeiras peridomiciliares, uma vez que a evidência mostra risco elevado sem qualquer colonização domiciliar do vetor?
- Qual é a distância de referência adotada pelo Ministério da Saúde entre domicílio e vegetação de palmeiras para fins de vigilância? E, se não existe, quando existirá?
- Os R$ 12 milhões repassados a 155 municípios prioritários para o controle da doença de Chagas contemplam ações integradas com órgãos ambientais, ou seguem restritos à captura de vetores e resposta a focos?
- O Comitê Técnico Interinstitucional de Uma Só Saúde, criado pelo Decreto nº 12.007/2024, tem previsão de pautar formalmente a restauração florestal como medida de controle vetorial, com indicadores de saúde monitorados?
- Considerando que Mato Grosso foi o único estado da Amazônia Legal com aumento de desmatamento em 2025, existe plano específico de vigilância reforçada de doenças vetoriais nos municípios mato-grossenses onde a supressão de vegetação cresceu?
A posição do Movimento
O Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas reconhece avanços que não são retóricos. A malária no menor patamar em quase cinquenta anos, a incorporação pioneira da tafenoquina, a queda de 12% no desmatamento amazônico, a certificação de eliminação da filariose linfática: tudo isso é trabalho acumulado de pesquisadores, profissionais do SUS, agentes comunitários e gestores. Precisa ser reconhecido, e é.
Mas reconhecer o avanço não é aceitar o limite dele. O que estes três estudos mostram é que o Brasil está tratando bem a doença e continua produzindo, no território, a condição que a gera. Nossa posição:
- Indicador ambiental na ficha epidemiológica: cobertura florestal, tempo de ocupação e distância a vegetação de palmeiras precisam virar variáveis de notificação, não curiosidade acadêmica;
- Restauração como política de saúde: se a evidência aponta que a recuperação da floresta acima de 70% reduz o risco de malária, a restauração precisa entrar no orçamento da saúde, e não apenas no do meio ambiente;
- Uma Só Saúde com dente: o Decreto nº 12.007/2024 criou a estrutura; falta transformá-la em decisão vinculante com metas e prazos. Comitê que não delibera é sala de reunião, não política pública;
- Vigilância que reconheça a transmissão oral: com quase 85% dos casos agudos de Chagas ocorrendo por alimento contaminado, a vigilância sanitária de polpa de açaí e frutos de palmeira precisa ter a mesma prioridade que a borrifação;
- Comunidade como sujeito, não como amostra: o modelo do estudo do Acre, em que moradores executam o plantio, é o padrão que queremos ver replicado em todo projeto financiado com dinheiro público;
- Atenção especial a Mato Grosso: o único estado amazônico com alta no desmatamento precisa de vigilância reforçada de leishmaniose, malária e Chagas, agora e não depois do primeiro surto;
- Financiamento estável e nacional: com a ajuda internacional para DTNs em queda de 41%, o Brasil não pode terceirizar a sustentação de seus programas de eliminação.
Durante décadas nos disseram que doença negligenciada é problema de pobreza. É, mas não só. É também problema de paisagem. Uma palmeira a trinta e três metros de uma casa não é paisagem bonita nem paisagem feia: é fator de risco mensurável. O SUS já sabe tratar essas doenças. Falta o Estado brasileiro aceitar que também é preciso parar de produzi-las.
João Victor Pacheco Fós Kersul de Carvalho, Presidente do MNDN
Perguntas frequentes sobre desmatamento e doenças negligenciadas
Ele não causa diretamente as doenças, que são provocadas por parasitas específicos. O que o desmatamento faz é alterar a distribuição dos vetores e aproximar as pessoas dos ciclos silvestres de transmissão. Nos estudos feitos no Acre, paisagens mais desmatadas apresentaram maior probabilidade de barbeiros infectados por Trypanosoma cruzi, e a abundância de mosquitos-palha cresceu com o tempo de ocupação humana da área. No caso da malária, o maior risco apareceu em paisagens com cerca de 50% de cobertura florestal remanescente.
Porque a paisagem intermediária oferece as duas coisas de que o mosquito precisa ao mesmo tempo: ambiente adequado para reprodução e presença humana próxima. Na floresta contínua há menos gente; na área completamente arrasada, o ambiente fica inóspito para o vetor. O estudo publicado em 2025 mostrou ainda que a restauração da cobertura florestal acima de 70% reduz o risco.
Na Amazônia, a via predominante é a oral: entre 2013 e 2023, aproximadamente 84,68% dos casos agudos notificados no país ocorreram pelo consumo de alimentos ou bebidas contaminados pelo parasita, geralmente polpa de frutos de palmeira. A transmissão vetorial clássica, pelas fezes do barbeiro em contato com pele ferida ou mucosa, é menos frequente na região. O tratamento é feito principalmente com benznidazol, disponível no SUS.
Sim. A taxa consolidada do PRODES/INPE para a Amazônia Legal em 2025 foi de 5.731 km², redução de 12,07% em relação a 2024 e o menor valor em mais de uma década. Oito dos nove estados amazônicos reduziram o desmatamento; Mato Grosso foi o único a registrar aumento, de 26,73%. A queda da taxa atual, porém, não desfaz a paisagem de risco já formada nas décadas anteriores. Por isso a restauração é apontada como medida complementar necessária.
Fontes e referências
- CONSTANTINO, Luciana. Desmatamento aumenta risco de leishmaniose e doença de Chagas na Amazônia, aponta estudo. Agência FAPESP, 2026. agencia.fapesp.br. Reportagem original que deu origem a esta republicação.
- LAPORTA, G. Z.; RAMOS, L. J.; SANTANA, C. M.; ABREU, W. U.; ILACQUA, R. C. et al. Deforestation and human proximity influence Trypanosoma cruzi infection in palm-dwelling triatomines. PLOS ONE, v. 21, n. 5, e0349311, 2026. journals.plos.org.
- LAPORTA, G. Z. et al. Human occupation, not forest structure, determines sand fly abundance in the Amazon. Parasites & Vectors, 2026. DOI 10.1186/s13071-026-07409-x. link.springer.com. Artigo sob acesso restrito: os achados citados nesta reportagem foram obtidos da cobertura da Agência FAPESP.
- CONSTANTINO, Luciana. Risco de malária na Amazônia é maior em regiões parcialmente degradadas. Agência FAPESP, 20 ago. 2025, sobre o estudo publicado na revista Acta Tropica. agencia.fapesp.br.
- MINISTÉRIO DA SAÚDE. Malária: com medicamento inovador, Brasil registra menor número de casos em quase 50 anos. 17 ago. 2026. gov.br/saude.
- MINISTÉRIO DA SAÚDE / AGÊNCIA GOV. Saúde anuncia R$ 12 milhões para o enfrentamento da Doença de Chagas. 14 abr. 2026. agenciagov.ebc.com.br.
- MINISTÉRIO DA SAÚDE. Saúde lança painéis para monitorar Leishmanioses no Brasil. set. 2024. gov.br/saude.
- INPE. Sistema do INPE aponta 5.731 km² de desmatamento na Amazônia em 2025: taxa consolidada do PRODES. 18 ago. 2026. gov.br/inpe.
- INPE. Nota técnica: Estimativa de desmatamento na Amazônia Legal para 2025 é de 5.796 km². out. 2025. data.inpe.br.
- INPE. Nota técnica: taxa consolidada de desmatamento da Amazônia Legal em 2024 (6.518 km²), com série estadual. data.inpe.br.
- INPE. Nota técnica: taxa consolidada de desmatamento da Amazônia Legal em 2022 (11.594 km²), com série estadual desde 2021. gov.br/inpe.
- MMA / INPE. Apresentação PRODES 2022/2023: série histórica da Amazônia Legal (2019 a 2023). mai. 2024. gov.br/inpe.
- ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. World Neglected Tropical Diseases Day 2026: brief outline. who.int.
- Incidência de casos de leishmaniose tegumentar no Brasil no período de 2020 a 2024: estudo epidemiológico retrospectivo com dados do SINAN. acervomais.com.br.
- CONSELHO FEDERAL DE FARMÁCIA. Farmacêuticos analisam epidemiologia da doença de Chagas aguda no Brasil: análise de 2.603 casos notificados entre 2013 e 2023 no SINAN. site.cff.org.br.
Nota de transparência: todos os números citados têm fonte verificada indicada acima. Três ressalvas de rigor: (1) o valor de desmatamento do Acre em 2025 (325 km²) provém da estimativa do PRODES divulgada em outubro de 2025, e não da taxa consolidada estadual, ainda não republicada com esse recorte, os valores de 2021 a 2024 são consolidados; (2) a nota do Ministério da Saúde de 17/08/2026 apresenta, no corpo do texto, a redução das mortes por malária de 56 para 39, enquanto a citação do ministro no mesmo material menciona 39 internações, e adotamos os números do corpo do texto; (3) os dados de Chagas de 2025 (627 casos agudos e 8.106 crônicos) são preliminares, conforme informado pelo próprio Ministério da Saúde; (4) os achados do estudo publicado na Parasites & Vectors sobre a abundância de mosquitos-palha são reproduzidos a partir da reportagem da Agência FAPESP, porque o texto integral do artigo está sob acesso restrito, e não foi possível conferi-los no resumo original; (5) os percentuais de transmissão oral e de concentração de casos de Chagas no Norte (84,68% e 95,24%) provêm de divulgação do Conselho Federal de Farmácia sobre um levantamento de dados do SINAN, e não do estudo original nem de boletim oficial; (6) o total de 71.942 casos de leishmaniose tegumentar entre 2020 e 2024 provém de artigo em periódico científico de circulação nacional, e não de publicação oficial do Ministério da Saúde. Não foi possível localizar publicamente uma série histórica desagregada de leishmaniose tegumentar por município do Acre com atualização até 2025; essa é uma lacuna de transparência que o MNDN registra e cobra.