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Tracoma: a doença que cega em silêncio e o Brasil não sabe dizer quantas pessoas ainda têm

👁️ Saneamento & Educação

O tracoma é a principal causa infecciosa de cegueira evitável do mundo, e no Brasil atinge quem tem menos água disponível para lavar o rosto. O último levantamento nacional, feito em escolas entre 2002 e 2007, encontrou prevalência acima do limite que a OMS considera eliminação. O processo para provar que o país já superou esse patamar segue em curso desde 2018. Esta reportagem cruza dados de saúde, educação e saneamento para explicar por que essa doença nasce na escola e se resolve na torneira.

Esta reportagem tem cards interativos. Clique neles ao longo do texto para ver os detalhes.

Existem quatro letras que resumem tudo o que se sabe sobre como impedir a cegueira por tracoma: S-A-F-E. Cirurgia, Antibiótico, higiene Facial e melhoria do Environment, do ambiente. Duas dessas quatro letras não têm nada a ver com hospital. Têm a ver com água disponível para uma criança lavar o rosto e com o ambiente em que ela vive. Por isso o tracoma não é apenas uma doença dos olhos: é uma doença de infraestrutura que se manifesta nos olhos, e o Brasil ainda está em processo de provar à OMS que a eliminou.

O que é o tracoma e por que ele cega

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Higiene facial é uma das quatro frentes da estratégia da OMS contra o tracoma e depende de água disponível Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O tracoma é uma infecção ocular crônica causada pela bactéria Chlamydia trachomatis. A Organização Mundial da Saúde o classifica como a principal causa infecciosa de cegueira evitável do planeta. A doença não cega de uma vez: ela cega devagar, ao longo de anos, por reinfecção repetida.

O processo funciona assim: a infecção causa inflamação na parte interna da pálpebra. Uma infecção isolada cicatriza sem maiores danos. Mas quando a mesma pessoa é reinfectada repetidamente (o que é comum em crianças que vivem em ambientes com o mesmo agente circulando), as cicatrizes se acumulam, a pálpebra se deforma e vira para dentro (entrópio), e os cílios passam a raspar direto na córnea a cada piscada (triquíase). É esse atrito constante, ano após ano, que destrói a córnea e leva à cegueira irreversível, geralmente entre os 30 e os 40 anos de idade, embora a infecção tenha começado na infância.

  • No mundo, segundo a OMS, cerca de 190,2 milhões de pessoas vivem em áreas endêmicas sob risco de cegueira por tracoma, e a doença já prejudicou ou tirou a visão de aproximadamente 1,9 milhão de pessoas globalmente;
  • No Brasil, o levantamento nacional mais recente com metodologia publicada (2002 a 2007) encontrou prevalência de 5,1% de tracoma ativo entre escolares, acima do limite de 5% que a OMS considera eliminação como problema de saúde pública;
  • A infecção acomete principalmente crianças em idade escolar; a cegueira, quando ocorre, aparece décadas depois, na vida adulta;
  • O Brasil está em processo de validação da eliminação junto à OMS desde 2018, ainda não concluído em todos os territórios.

Como se transmite e por que é uma doença de água, não de bactéria

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Em muitas comunidades, a pouca água disponível é destinada primeiro para beber e cozinhar. A higiene facial acaba sendo reduzida, criando as condições para que o tracoma continue circulando.

A transmissão do tracoma acontece de três formas: contato direto com secreções oculares de uma pessoa infectada, contato indireto por meio de mãos, toalhas ou roupas compartilhadas, e por moscas que pousam nos olhos de uma pessoa infectada e depois nos olhos de outra.

Repare no padrão comum às três vias: todas dependem da ausência de água para lavar o rosto. Onde há água disponível, o rosto é lavado, as secreções não se acumulam, as moscas não encontram onde pousar, e a cadeia de transmissão se quebra. Onde a água precisa ser economizada para beber e cozinhar, a higiene facial é a primeira coisa que fica para depois, e é exatamente aí que o tracoma se instala.

Ninguém decide não lavar o rosto do filho. A família decide para onde vai a água que tem, e quando a água é pouca, ela vai para beber e cozinhar primeiro. O tracoma não é falta de cuidado: é o resultado matemático de pouca água dividida entre muitas necessidades.

Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)

Por que essa é, também, uma doença de escola

Os inquéritos nacionais de tracoma no Brasil, desde o primeiro grande levantamento em 2002-2007, sempre foram feitos dentro das escolas, examinando alunos da primeira à quarta série do ensino fundamental. Não é coincidência: a escola é onde crianças de uma mesma comunidade passam horas em contato próximo, compartilhando materiais e espaço, e é também o único ponto de acesso sistemático a essa faixa etária para triagem e tratamento em massa.

Isso torna a escola dupla protagonista: é onde a doença mais se espalha entre crianças, e é também o lugar mais eficaz para interrompê-la. Uma escola sem água encanada nos banheiros e nas pias não é apenas um problema de infraestrutura educacional: é, literalmente, um ambiente favorável à circulação do tracoma entre as crianças que ali passam a maior parte do dia.

O critério da OMS para considerar a eliminação do tracoma como problema de saúde pública é técnico e direto: menos de 5% de tracoma inflamatório folicular em crianças de 1 a 9 anos, e menos de um caso de triquíase (a fase que já causa dano físico ao olho) por mil habitantes numa comunidade ou distrito. Ou seja: a própria definição de “eliminado” é medida na infância, porque é ali que a doença nasce.

Por que não existe um mapa de tracoma por capital

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O inquérito nacional priorizou municípios com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)

Antes de seguir, vale explicar uma escolha desta reportagem. Você não vai encontrar aqui um mapa comparando o índice de tracoma nas 27 capitais brasileiras. Não é falta de espaço: é porque esse dado não existe de forma comparável.

O motivo está no desenho do próprio inquérito nacional de 2002-2007, que segue sendo a referência mais sólida disponível. Ele foi construído para examinar municípios com Índice de Desenvolvimento Humano abaixo da média nacional. Capitais de estado costumam concentrar os melhores indicadores de desenvolvimento humano de cada unidade da federação, então o critério de seleção do próprio estudo levou o olhar para o interior, não para as capitais.

O que existe, em vez de um mapa único, é um conjunto de números pontuais e antigos, de metodologias diferentes, para lugares específicos. Um levantamento histórico separado registrou 26,2% de prevalência no Pará, 15,7% no Amazonas e 14,6% em Roraima, mas é estudo de outro período e outra metodologia, sem garantia de que seja comparável ao inquérito nacional. O município de São Paulo mediu taxas que variaram de 2,3 a 16,1 por 100 mil habitantes ao longo dos anos 1990, por vigilância epidemiológica municipal, não por inquérito amostral. Botucatu, no interior paulista, encontrou 11,9% em 1995 e nunca mais fez outro levantamento desde então.

  • São números que não podem ser colocados lado a lado num mesmo mapa sem distorcer a realidade. Métodos diferentes, anos diferentes e populações diferentes (escolares, população geral, um bairro específico) produzem valores que parecem comparáveis, mas não são.

Essa lacuna também é parte do problema que esta reportagem aponta. O Brasil publica todo ano um mapa atualizado de incidência de tuberculose por estado, com metodologia única. Para tracoma, o país não tem o equivalente: a vigilância depende de inquéritos pontuais, feitos uma vez a cada muitos anos, em recortes territoriais que mudam de estudo para estudo. Sem um instrumento de medição comparável ao longo do tempo, fica difícil cobrar metas claras de eliminação.

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Os inquéritos de tracoma são feitos nas escolas, onde a doença mais circula e onde o tratamento mais eficazmente chega às crianças Foto: Raiza Milhomem

Quatro décadas de números e o que eles revelam

Clique em cada card abaixo para ver os detalhes de cada levantamento.

O fato de o processo de validação de eliminação seguir em curso desde 2018, sete anos depois de iniciado e ainda sem certificação concedida, já é, por si só, um indicador: significa que a doença continua presente em escala suficiente para impedir que o Brasil feche essa conta. Não existe, até a publicação desta reportagem, um número nacional atualizado e de fonte primária que substitua o levantamento de 2002-2007. É uma lacuna de dado que esta própria reportagem aponta como problema.

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As populações indígenas concentram historicamente alguns dos maiores índices de tracoma do país, e seguem sendo mapeadas território por território Foto: OPAS/OMS/Karina Zambrana

A estratégia SAFE e por que metade dela é obra pública

A OMS recomenda uma estratégia de quatro frentes, conhecida pelo acrônimo SAFE:

  • S de Surgery (cirurgia): para os casos já graves, de triquíase, que corrige a posição da pálpebra e evita que os cílios continuem lesionando a córnea;
  • A de Antibiotics (antibióticos): tratamento medicamentoso dos casos ativos, disponível gratuitamente no SUS;
  • F de Facial cleanliness (higiene facial): lavagem regular do rosto, especialmente em crianças; depende diretamente de água disponível em casa e na escola;
  • E de Environmental improvement (melhoria ambiental): saneamento básico, controle de moscas, redução do contato entre pessoas e vetores de transmissão.

Metade da estratégia oficial da OMS, o F e o E, não depende de médico, remédio ou hospital. Depende de água encanada, saneamento e infraestrutura. É a mesma lição que já apareceu em outras doenças negligenciadas: o SUS resolve o A e o S, mas o F e o E são tarefa de saneamento, moradia e educação, e sem eles o ciclo se mantém aberto para reinfecção, mesmo depois de tratada uma pessoa.

Perguntas que o MNDN dirige aos gestores

São perguntas de interesse público, dirigidas ao Ministério da Saúde e às secretarias estaduais e municipais de saúde e educação:

  • Qual o cronograma público, com datas, para conclusão do Inquérito Nacional de Validação da Eliminação do Tracoma nas áreas indígenas ainda não mapeadas?
  • Existe algum programa que garanta água encanada e pias funcionais nas escolas públicas dos municípios historicamente identificados com maior prevalência de tracoma?
  • Como as ações de “melhoria ambiental” (o E da estratégia SAFE) estão articuladas com o Programa Brasil Saudável e com investimentos de saneamento?
  • Existe rastreamento ativo e gratuito para triquíase (a fase que já causa dano físico ao olho) nos territórios de maior risco, incluindo cirurgia corretiva disponível pelo SUS?
  • Como os 450 mil brasileiros já com cegueira irreversível por tracoma são acompanhados pelo sistema de saúde e de assistência social?
  • Que garantias existem de que, após uma eventual certificação de eliminação, a vigilância e o investimento em água nas escolas não sejam reduzidos?

A posição do Movimento

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Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas. Foto: Comunicação Nacional

O MNDN reconhece que o Brasil vem avançando de forma consistente no enfrentamento ao tracoma: dos inquéritos regionais isolados dos anos 1980 ao primeiro levantamento nacional em 2002-2007, e deste ao atual processo estruturado de validação junto à OMS, iniciado em 2018 e ainda em curso. É um esforço técnico sério, sustentado ao longo de décadas e de diferentes gestões.

Mas um processo de validação que já dura sete anos, sem número nacional atualizado e público sobre quantos brasileiros vivem com a doença hoje, mostra que o trabalho está longe de terminar, e que falta transparência de dado tanto quanto falta água em algumas escolas. Nossa posição:

  • Água na escola é política de saúde, não só de educação. Enquanto banheiros e pias escolares não tiverem água encanada regular, a metade “F” da estratégia SAFE continua fora do alcance de milhões de crianças;
  • Prioridade territorial clara. Os municípios e territórios indígenas que ainda não participaram dos inquéritos de validação precisam de prazo público e recursos garantidos, não apenas boa vontade técnica;
  • Dado público e atualizado. O Brasil precisa divulgar, com a mesma transparência usada para tuberculose e hanseníase, um número nacional atual de prevalência de tracoma e de pessoas com sequelas, não apenas estatísticas mundiais repetidas em página institucional;
  • Vigilância não pode ter data de validade. A experiência de outras doenças já eliminadas mostra que o vetor e as condições ambientais continuam presentes mesmo depois da certificação, e o mesmo vale para o tracoma;
  • Participação social nas escolas e comunidades afetadas, incluindo populações indígenas, na definição de prioridades de investimento em água e saneamento;
  • Nenhuma doença que cega em silêncio deve permanecer fora do debate público só porque seus efeitos aparecem décadas depois da infecção.

As doenças negligenciadas não começam no consultório nem terminam no medicamento. Elas têm origem nas condições em que as pessoas vivem. Uma criança que não tem água para lavar o rosto na escola pode carregar, sem saber, o início de uma cegueira que só vai aparecer trinta anos depois. Prevenir isso custa uma torneira. Tratar depois custa uma vida inteira de limitação.

João Victor Pacheco Fós Kersul de Carvalho, Presidente do MNDN

O tracoma é, talvez, a mais silenciosa das doenças negligenciadas: ninguém morre dela de forma súbita, ela não aparece em boletins semanais, seus efeitos mais graves só se manifestam décadas depois da infecção original, e o Brasil nem sequer publica, de forma clara, quantas pessoas convivem com ela hoje. É esse silêncio duplo, epidemiológico e estatístico, que a torna perigosa, e é por isso que ela precisa continuar no radar da sociedade civil enquanto o processo de validação de sua eliminação ainda está em curso.

Fontes e referências

  • SciELO / Revista de Saúde Pública. Prevalência de tracoma entre escolares brasileiros, v. 47, n. 3, jun. 2013. Inquérito nacional 2002-2007 em 119.531 alunos de 1.156 municípios; prevalência nacional de 5,1%. scielosp.org.
  • OPAS/OMS. Brasil inicia inquérito para validar eliminação do tracoma, conforme metodologia da OPAS/OMS. Setembro de 2018. Início do processo de validação em Pernambuco. paho.org.
  • ONU NEWS BRASIL. Agência da ONU realiza projeto para eliminação do Tracoma no Brasil. Maio de 2024. Etapa indígena no Distrito Sanitário Especial Indígena Tocantins, 3.123 pessoas examinadas.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Tracoma: página institucional com dados epidemiológicos globais da OMS (190,2 milhões de pessoas em áreas endêmicas; 1,9 milhão de pessoas com prejuízo visual no mundo). gov.br/saude.
  • AS NAÇÕES UNIDAS NO BRASIL. OMS vê queda de 91% no número de pessoas em risco de contrair tracoma. Confirma que o dado de 1,9 milhão de pessoas com perda de visão é estatística global da OMS, não nacional. brasil.un.org.
  • Organização Mundial da Saúde. Estratégia SAFE para eliminação do tracoma e critérios de eliminação como problema de saúde pública (prevalência inferior a 5% em crianças de 1 a 9 anos).
  • Governo Federal. Programa Brasil Saudável, Decreto nº 11.908/2024, que inclui o tracoma entre as doenças a eliminar.
  • COSEMS/SP. Tracoma: educação em saúde, uma experiência exitosa nas ações de vigilância epidemiológica.
  • Esta matéria tem caráter informativo e não substitui avaliação oftalmológica. Se você ou alguém da sua família apresenta irritação ocular persistente, vermelhidão crônica ou sensação de areia nos olhos, procure uma Unidade Básica de Saúde. O diagnóstico e o tratamento são gratuitos pelo SUS.

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