Existem duas malárias no Brasil, e elas quase não se parecem. Uma vive na Amazônia, é endêmica, tem sistema de vigilância dedicado havia décadas, e sua letalidade é baixa porque o profissional de saúde reconhece o sintoma na hora. A outra aparece fora do mapa esperado, pega o médico de surpresa, demora a ser diagnosticada, e mata numa proporção que os próprios números do Ministério da Saúde classificam como alarmante. Entender essa diferença é entender por que a malária continua sendo, ao mesmo tempo, uma doença em queda e uma doença negligenciada.
O que é a malária e como ela se transmite
A malária é uma doença infecciosa causada por parasitas do gênero Plasmodium, transmitida pela picada da fêmea do mosquito Anopheles, que se reproduz em água parada. No Brasil, a espécie mais comum é o Plasmodium vivax, responsável por 80,3% dos casos em 2024. É considerada uma forma menos letal que o Plasmodium falciparum, mas ainda assim capaz de matar quando o tratamento não chega a tempo.
Os números de 2024: avanço real, mas desigual
- 138.493 casos registrados em 2024, número ligeiramente inferior a 2023;
- 43 óbitos em 2024, contra 63 em 2023, uma queda de 27%;
- 99% dos casos concentrados na Região Amazônica, nos estados do Acre, Amazonas, Amapá, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins;
- Os municípios com transmissão ativa caíram de 321 em 2016 para 211 em 2024;
- Queda de 27,5% nos casos em área de garimpo e 11% em área de assentamento, dois dos cinco tipos de área de vigilância especial que o Ministério da Saúde monitora separadamente, justamente porque a malária é reconhecida oficialmente como doença determinada socialmente.
No primeiro trimestre de 2025, essa tendência de queda se confirmou: 25.473 casos, uma redução de 26,8% em relação ao mesmo período de 2024. São números reais, de fonte oficial, e merecem ser reconhecidos como avanço.
O dado que muda a leitura de tudo
Agora o contraponto, e ele é o centro desta reportagem. Segundo dados preliminares divulgados pelo próprio Ministério da Saúde para o Dia Mundial da Malária de 2025, a letalidade da doença na região extra-amazônica chega a 1,87%, o que representa 51,1 vezes a letalidade registrada na região amazônica, onde a doença é endêmica.
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Ainda não revelado. Toque no card acima.
O próprio Ministério da Saúde explica o motivo: os óbitos na região extra-amazônica ocorrem, na maior parte, em pessoas infectadas em outros países ou em estados da região amazônica, que não recebem diagnóstico e tratamento oportunos, por causa da dificuldade de suspeição de uma doença que não é frequente naquela área do país, somada à desinformação de viajantes sobre os riscos.
Um médico do Sudeste raramente vê um caso de malária na carreira inteira. Quando vê, muitas vezes é tarde: os sintomas iniciais, febre, calafrio, dor de cabeça, se confundem facilmente com dengue ou gripe. A doença não fica mais agressiva fora da Amazônia. O sistema de saúde é que fica mais devagar para reconhecê-la.
Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)
O que os estudos confirmam sobre isso
Essa não é uma observação isolada desta reportagem. Um levantamento publicado no Malaria Journal, analisando o período de 2007 a 2014, já identificava mais de 6 mil casos de malária fora da Amazônia legal, e apontava que a demora no diagnóstico e no tratamento explicaria o maior número de casos severos e mortes nessa região. A pesquisadora responsável observou algo importante: a região extra-amazônica abriga 87% da população brasileira, e reúne, mesmo assim, os três elementos necessários para a transmissão: o mosquito do gênero Anopheles, o parasita e o hospedeiro humano.
Um segundo estudo, publicado no Journal of Management & Primary Health Care, caracterizou o perfil de quem adoece de malária fora da Amazônia entre 2012 e 2017: 79% homens, a maioria entre 20 e 39 anos, 46,6% de raça não branca, concentrados na região Sudeste, com sintomas surgindo principalmente entre dezembro e março.
Por que a árvore derrubada, e não a árvore em pé, cria o problema
Existe uma pergunta que parece óbvia, mas cuja resposta é contraintuitiva: o mosquito da malária vive na árvore? A resposta curta é não, e entender o porquê explica exatamente como o desmatamento aumenta a doença.
Dois estudos liderados pela Faculdade de Saúde Pública da USP, publicados nas revistas científicas PLOS One e Scientific Reports, mapearam esse mecanismo com precisão. A pesquisa identificou que as mudanças causadas pelo homem na vegetação amazônica reduziram a biodiversidade geral de mosquitos, e essa perda de diversidade favoreceu especificamente o Anopheles darlingi, hoje o principal transmissor da malária na região.
Na borda da floresta, não dentro dela. Segundo a reportagem do portal ((o))eco sobre a pesquisa, a paisagem desmatada cria clareiras com reservatórios de água expostos à luz solar direta, ambiente ideal para o Anopheles darlingi. Dentro da mata fechada, a água costuma ficar sombreada, o que não favorece essa espécie.
O próprio estudo classificou os tipos de paisagem: ambientes florestais fragmentados, com casas precárias próximas, funcionam como fonte do mosquito. Já floresta contínua e preservada, ou área completamente desmatada, funcionam como sumidouro, ou seja, não sustentam a mesma proliferação.
CHAVES, L. S. M. Doutorado, Faculdade de Saúde Pública da USP, publicado na PLOS One, 2021. LAPORTA, G. Z. Estudo publicado na Scientific Reports, 2021.
Ou seja, o pior cenário não é a floresta intacta, nem a terra completamente sem árvore alguma. É o meio do caminho: mata rasgada em pedaços, com bordas expostas ao sol e gente morando perto. É exatamente a paisagem que o garimpo ilegal produz.
📊 O ponto de virada, segundo a ciência: a pesquisa de Gabriel Laporta, publicada na Scientific Reports, identificou que o maior risco de malária ocorre quando o desmatamento acumulado atinge cerca de 50% da cobertura florestal de uma área. Nem intacta, nem arrasada: é a metade destruída que mais adoece.
Isso muda a forma de ler o garimpo ilegal. Ele não é perigoso só pelo mercúrio que contamina o rio ou pela violência contra os povos indígenas, que já seriam motivos suficientes. Ele é perigoso porque a própria paisagem que deixa para trás, mata rasgada, clareira ensolarada, poça parada, é literalmente a receita para multiplicar o mosquito que transmite a malária.
Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)
A conexão direta com o garimpo ilegal
Dentro da própria Amazônia, existe uma variável que explica boa parte do comportamento recente da doença, e ela tem nome: garimpo ilegal.
- Na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, os casos de malária caíram para 404 em 2012, após ações bem-sucedidas de controle, e voltaram a subir progressivamente conforme o garimpo se expandiu, chegando a mais de 14 mil em 2020;
- Segundo o MapBiomas Brasil, a presença de garimpo ilegal no território Yanomami cresceu 3.350% entre 2016 e 2020;
- Em 2023, o território já somava mais de 25 mil casos notificados até outubro daquele ano;
- Em terras indígenas dos povos Kayapó e Munduruku, no Pará, a área ocupada por garimpo cresceu cerca de 495% entre 2010 e 2020, segundo estudo publicado na revista da Escola de Enfermagem da UFRGS.
O mecanismo é direto: as cavas de água parada deixadas pela extração ilegal de ouro funcionam como criadouro perfeito para o Anopheles. Pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz, em parceria com a Universidade Federal de Roraima, confirmaram essa correlação em estudo publicado, apontando que o aumento nos casos passou a atingir majoritariamente os indígenas, sobretudo o povo Yanomami.
A resposta emergencial e seus resultados
Em janeiro de 2023, diante do cenário de crise humanitária na Terra Yanomami, marcado por desnutrição, mortalidade infantil e fechamento de serviços de saúde, o governo federal mobilizou um Centro de Operações de Emergência (COE). O investimento na reestruturação chegou a mais de R$ 220 milhões, valor 122% superior ao do ano anterior.
- A letalidade por malária entre os Yanomami caiu 35% após a ampliação da assistência;
- As mortes por infecções respiratórias caíram 53% no mesmo período;
- Os óbitos por desnutrição caíram 68% no primeiro semestre de 2024, em comparação ao mesmo período do ano anterior;
- Sete aldeias que tinham seus polos de saúde fechados tiveram os serviços reabertos até abril de 2024.
Um pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz descreveu o que aconteceu nos anos de maior crise, de forma direta: pessoas morriam de malária por Plasmodium vivax, um parasita de baixa letalidade, porque estavam desnutridas, sem assistência, e a doença evoluía sem tratamento. A frase que resume o problema, segundo o próprio pesquisador, não é sobre falta de conhecimento técnico. É sobre decisão política.
A novidade no tratamento: tafenoquina
É um medicamento de dose única, indicado para a cura da malária causada por Plasmodium vivax, que representa mais de 80% dos casos no Brasil. Diferente dos tratamentos anteriores, que exigiam várias doses ao longo de dias, a dose única reduz a chance de abandono do tratamento, um dos fatores que sustenta a persistência da doença em áreas de difícil acesso.
Já implementada em 49 municípios de seis estados (Amazonas, Roraima, Pará, Rondônia, Amapá e Acre) e em nove Distritos Sanitários Especiais Indígenas. Uma versão pediátrica está em avaliação pela Conitec.
Perguntas que o MNDN dirige aos gestores
- Que sistema específico de vigilância está sendo implementado nos estados de transmissão esporádica fora da Amazônia, anunciado pelo próprio Ministério da Saúde, e qual o cronograma público de implantação?
- Como os serviços de saúde de estados não endêmicos estão sendo capacitados para reconhecer sintomas de malária em viajantes e pessoas vindas de área endêmica?
- Qual o plano de combate ao garimpo ilegal em terras indígenas articulado diretamente com as metas de redução de malária, e não apenas com fiscalização ambiental isolada?
- Os R$ 220 milhões investidos na Terra Yanomami em 2023 têm continuidade orçamentária garantida para os próximos anos, ou dependem de renovação política a cada ciclo?
- Qual o prazo para a incorporação da versão pediátrica da tafenoquina, hoje em avaliação pela Conitec?
A posição do Movimento
O MNDN reconhece avanços reais no combate à malária: queda de 27% nos óbitos em 2024, chegada da tafenoquina como tratamento de dose única, e uma resposta emergencial na Terra Yanomami que já reduziu a letalidade em 35%. São resultados concretos, obtidos com investimento e decisão política visíveis.
Mas persistem duas fraturas que o próprio Ministério da Saúde reconhece publicamente: a letalidade 51 vezes maior fora da Amazônia, e a correlação direta entre garimpo ilegal e explosão de casos em territórios indígenas. Nossa posição:
- Vigilância ativa em áreas não endêmicas, com protocolo claro de suspeição em viajantes e capacitação continuada de profissionais de saúde fora da Amazônia;
- Combate ao garimpo ilegal como política de saúde pública, não apenas como pauta ambiental isolada, já que a correlação entre as duas coisas está comprovada por estudos do próprio Instituto Oswaldo Cruz;
- Continuidade orçamentária garantida para a resposta emergencial em territórios indígenas, que não pode depender de renovação política a cada governo;
- Ampliação acelerada da tafenoquina, incluindo a versão pediátrica, para todos os municípios endêmicos, não apenas os 49 já contemplados;
- Participação das comunidades indígenas na definição das prioridades de resposta em seus próprios territórios.
As doenças negligenciadas não começam no consultório nem terminam no medicamento. Elas têm origem nas condições em que as pessoas vivem. A malária no Brasil prova isso de duas formas distintas: na Amazônia, ela cresce onde a floresta é destruída para extrair ouro ilegalmente. Fora dela, ela mata porque o sistema de saúde não foi treinado para reconhecê-la a tempo.
João Victor Pacheco Fos Kersul de Carvalho, Presidente do MNDN
O Brasil tem meta oficial de reduzir os casos autóctones para menos de 112.561 por ano. É uma meta alcançável, com as ferramentas que o país já possui. Mas alcançá-la significa fazer duas coisas ao mesmo tempo: proteger a floresta de quem a destrói para extrair ouro, e treinar quem, do outro lado do país, nunca imaginaria que aquele paciente com febre poderia ter malária.
Fontes e referências
- BRASIL. Ministério da Saúde. Brasil reduz 26% dos casos de malária no primeiro trimestre de 2025. Abril de 2025. gov.br/saude.
- BRASIL. Ministério da Saúde / Biblioteca Virtual em Saúde. A Malária Termina Conosco: reinvestir, reimaginar, reforçar. Dia Mundial da Malária, 25 de abril de 2025. Fonte do dado de letalidade extra-amazônica 51,1 vezes maior.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico, Volume 55, nº 14. Dados do Sivep-Malária/SVSA/MS, 2023-2024.
- CHAVES, L. S. M. et al. Estudo de doutorado, Faculdade de Saúde Pública da USP, publicado na revista PLOS One, 2021, sobre efeito do desmatamento na comunidade de mosquitos Anopheles na Amazônia.
- LAPORTA, G. Z. Estudo publicado na revista Scientific Reports, 2021, sobre o percentual de desmatamento acumulado associado ao maior risco de malária em paisagens rurais.
- ((o))eco. Pesquisa relaciona altos índices de malária com o desmatamento na Amazônia.
- Jornal da USP. Desmatamento modifica dinâmica de transmissão e impulsiona malária na Amazônia.
- Instituto Oswaldo Cruz / Fiocruz. Aumento dos casos de malária tem correlação direta com o garimpo ilegal, em parceria com a Universidade Federal de Roraima.
- Instituto Oswaldo Cruz / Fiocruz. Estudo aponta impacto de ações contra malária na Terra Yanomami.
- Agência Gov. Nova estrutura e mais profissionais reduzem óbitos por desnutrição e malária entre os Yanomami.
- VIRGINIO, F. et al. Estudo publicado no Malaria Journal sobre casos de malária fora da Amazônia, 2007-2014, via Agência FAPESP.
- Caracterização dos casos de malária na região extra-amazônica brasileira entre 2012 e 2017. Journal of Management & Primary Health Care.
- SciELO / Revista Gaúcha de Enfermagem, UFRGS. Incidence of malaria among indigenous people associated with the presence of artisanal mining.
- Fundação Conrado Wessel. Dados do MapBiomas Brasil sobre crescimento do garimpo em terra Yanomami.
- Esta matéria tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Se você teve febre após viajar para área endêmica de malária, mesmo fora da temporada, procure atendimento médico e informe o histórico de viagem. O diagnóstico e o tratamento são gratuitos pelo SUS.