A esquistossomose não se transmite de pessoa para pessoa. Ela se transmite pela água e chega onde o esgoto não chega. Por isso, entender essa doença exige olhar para dois mapas ao mesmo tempo: o das áreas endêmicas e o do saneamento básico. Quando sobrepostos, eles contam a mesma história.
O que é a esquistossomose?
A esquistossomose é uma doença parasitária causada pelo verme Schistosoma mansoni. No Brasil, é conhecida popularmente como xistose, barriga d’água ou doença dos caramujos. Segundo o Ministério da Saúde, ela está diretamente relacionada ao saneamento precário não é uma doença do acaso nem da má sorte, mas do lugar onde a pessoa vive.
Uma informação importante e que reduz estigma: a esquistossomose não passa de pessoa para pessoa. Não há contágio pelo contato com quem está doente, nem por abraço, beijo, uso de talheres ou convivência. Também não existe autoinfecção. A transmissão depende obrigatoriamente da água e de um caramujo.
Como acontece a transmissão?
O ciclo da esquistossomose tem uma lógica simples, e compreendê-la ajuda a entender por que saneamento é a resposta central:
- Uma pessoa infectada elimina os ovos do verme junto com as fezes;
- Sem esgotamento adequado, essas fezes chegam a rios, córregos, lagoas ou valas;
- Em contato com a água, os ovos eclodem e liberam larvas;
- As larvas infectam caramujos de água doce, que são os hospedeiros intermediários;
- Cerca de quatro semanas depois, larvas chamadas cercárias deixam o caramujo e ficam livres na água;
- Outra pessoa entra nessa água e as cercárias penetram pela pele.
O período entre a infecção e os primeiros sintomas costuma ser de duas a seis semanas. Mas, na maior parte dos casos, a doença permanece silenciosa por anos.
Repare no ponto do ciclo em que tudo poderia ser interrompido: quando as fezes humanas encontram a água. É aí que o esgotamento sanitário deixa de ser obra pública e vira política de saúde.
Quem corre mais risco?
Foto: Reprodução/Agência Brasil
Qualquer pessoa, de qualquer idade ou sexo, pode se infectar. Mas o Ministério da Saúde aponta situações que aumentam bastante o risco:
- Morar em região sem saneamento básico ou sem água potável;
- Ter contato com água onde existam caramujos infectados;
- Realizar tarefas domésticas em água contaminada, como lavar roupa;
- Trabalhar em atividades que envolvem contato com a água pesca, agricultura, irrigação.
⚠️ Note o que essa lista descreve: não é comportamento de risco por escolha. É a rotina de quem não tem alternativa. Lavar roupa no rio não é opção quando não há água encanada em casa.
Quais são os sintomas da esquistossomose?
A doença se manifesta em fases, e essa é uma das razões pelas quais ela costuma ser descoberta tarde.
Fase aguda. A maioria das pessoas não sente nada. Quando há sintomas, podem aparecer febre, dor de cabeça, calafrios, suores, fraqueza, falta de apetite, dor muscular, tosse e diarreia um quadro que se confunde facilmente com outras infecções comuns.
Fase crônica. A diarreia se torna mais constante, alternando com prisão de ventre, e pode haver sangue nas fezes. Surgem tonturas, sensação de estômago cheio, coceira anal, palpitações, impotência, emagrecimento e aumento do fígado.
Casos graves. O estado geral piora, com emagrecimento acentuado, fraqueza e aumento do volume do abdômen a chamada barriga d’água, que deu nome popular à doença. Sem tratamento adequado, pode evoluir para aumento do fígado e do baço, hemorragia digestiva, hipertensão portal e pulmonar, e morte.
- Fique atento: se você mora ou morou em área endêmica e tem contato com águas de rios, lagoas ou valas, converse com a equipe da sua Unidade Básica de Saúde sobre o exame mesmo sem sintomas.
Como é o diagnóstico e o tratamento?
O diagnóstico é feito por exame laboratorial de fezes, que identifica os ovos do parasita. O método de referência é o Kato-Katz. O médico também pode pedir exame de anticorpos e, em casos graves, ultrassonografia.
O tratamento dos casos simples é feito com Praziquantel em dose única supervisionada, medicamento distribuído gratuitamente pelo Ministério da Saúde e disponível no SUS. Casos graves podem exigir internação hospitalar e, em algumas situações, procedimento cirúrgico.
Vale reforçar: o tratamento existe, é gratuito e funciona. O problema raramente está no remédio. Está em chegar ao diagnóstico e em voltar para a mesma água depois de curado.
Onde a esquistossomose ocorre no Brasil?
Fonte: Ministério da Saúde/Fiocruz
O Ministério da Saúde estima que cerca de 1,5 milhão de pessoas vivem em áreas sob risco de contrair a doença no país. A esquistossomose está presente de forma mais intensa em 19 unidades federativas.
As áreas de transmissão endêmica compreendem Alagoas, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba, Sergipe, Espírito Santo e Minas Gerais neste último, com predominância no norte e nordeste do estado.
Já em Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, Goiás e no Distrito Federal, a transmissão é focal: acontece em pontos específicos, sem atingir grandes áreas.
Os números do Sistema de Informação do Programa de Controle da Esquistossomose (SISPCE) dão a dimensão do problema. Entre 2009 e 2019, foram realizados cerca de 9,8 milhões de exames na rotina do programa, que detectaram 423.117 casos. A positividade média no período foi de 4,29%, caindo de 5,20% em 2009 para 3,22% em 2019.
- 1,5 milhão de pessoas vivem em áreas de risco no Brasil;
- 19 unidades federativas registram transmissão, sendo 8 com áreas endêmicas;
- 423 mil casos detectados pelo SISPCE entre 2009 e 2019;
- 4,29% foi a positividade média dos exames no período.
O mapa da esquistossomose é o mapa do esgoto
Aqui está o ponto central desta reportagem. Se a transmissão depende de fezes humanas chegando à água, então o indicador que melhor explica a permanência da doença não é clínico é de infraestrutura.
O Censo Demográfico 2022, do IBGE, divulgado em fevereiro de 2024, traz o retrato mais recente do saneamento brasileiro. E ele tem duas faces.
A face que melhorou. A proporção da população vivendo em domicílios ligados à rede de coleta de esgoto chegou a 62,5% em 2022, contra 52,8% em 2010 e 44,4% em 2000. Considerando as formas consideradas adequadas pelo Plano Nacional de Saneamento Básico rede coletora ou fossa séptica , o índice subiu de 59,2% em 2000 para 64,5% em 2010 e 75,7% em 2022. É progresso real, e precisa ser reconhecido.
A face que permanece. Mesmo com esse avanço, 49 milhões de brasileiros 24,3% da população ainda dependiam de soluções precárias de esgotamento sanitário em 2022. Só a fossa rudimentar, popularmente chamada de buraco, era a solução de 19,4% da população. E cerca de 4,8 milhões de pessoas seguiam sem água encanada.
- 49 milhões de pessoas (24,3%) viviam com esgotamento sanitário precário em 2022;
- 19,4% da população usava fossa rudimentar ou buraco como destino do esgoto;
- 4,8 milhões de brasileiros não tinham água encanada;
- 3.505 municípios mais da metade dos 5.570 do país tinham menos da metade da população com coleta de esgoto;
- 82,9% da população (167,5 milhões de pessoas) era abastecida pela rede geral de água.
Compare os dois conjuntos de números. De um lado, 1,5 milhão de pessoas em áreas de risco para esquistossomose. De outro, 49 milhões sem esgotamento adequado. A doença não está distribuída aleatoriamente pelo território: ela se concentra exatamente onde a infraestrutura falta.
Saneamento também tem cor e endereço
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
O Censo 2022 revelou outro dado que o MNDN considera incontornável: o acesso ao esgotamento adequado varia fortemente conforme a cor ou raça da população.
- Pessoas brancas com esgotamento adequado: 83,5%;
- Pessoas pretas: 75%;
- Pessoas pardas: 68,9%;
- Pessoas indígenas: 29,9%.
O IBGE explica que esse padrão está ligado à distribuição regional dos grupos, com presença maior das populações preta, parda e indígena no Norte e Nordeste regiões com menor infraestrutura de saneamento. Mas o instituto observou também que, nos vinte municípios mais populosos do país, a população branca tem mais acesso a água e esgoto do que as demais.
Ou seja: a desigualdade não é só entre regiões. Ela existe dentro da mesma cidade, entre bairros vizinhos.
Quando dizemos que as doenças negligenciadas são socialmente determinadas, não estamos usando uma expressão abstrata. Estamos dizendo que é possível prever quem vai adoecer olhando o mapa do saneamento, o mapa da renda e o mapa da cor da pele. E que isso é uma escolha coletiva, não um destino.
— Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)
A meta de 2030 e o programa Brasil Saudável
Em fevereiro de 2024, por decreto presidencial, o Brasil lançou o Brasil Saudável programa que reúne 14 ministérios com o objetivo de eliminar ou reduzir 14 doenças e infecções socialmente determinadas. O país foi o primeiro do mundo a adotar uma política governamental com esse recorte.
A esquistossomose está entre as doenças que o Brasil se comprometeu a eliminar como problema de saúde pública até 2030, ao lado de malária, doença de Chagas, tracoma, filariose linfática, oncocercose e geo-helmintíases. A meta se alinha aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e às diretrizes da OMS e da OPAS.
O programa nasceu do Comitê Interministerial para a Eliminação da Tuberculose e Outras Doenças Determinadas Socialmente (CIEDDS). Entre 2017 e 2021, essas doenças foram responsáveis por mais de 59 mil mortes no Brasil.
O desenho do Brasil Saudável reconhece algo que o movimento social defende há anos: envolver 14 ministérios, e não apenas a Saúde, é admitir que essas doenças não se resolvem dentro do consultório.
Linha do tempo: saneamento e esquistossomose no Brasil
- 2000 O ponto de partida Apenas 44,4% da população vivia em domicílios ligados à rede de coleta de esgoto. Considerando também as fossas sépticas, o esgotamento adequado alcançava 59,2% dos brasileiros.
- 2010 Avanço parcial A coleta de esgoto chegou a 52,8% da população e o esgotamento adequado a 64,5%. No mesmo período, a positividade dos exames de esquistossomose no SISPCE era de 5,20% (dado de 2009).
- 2009–2019 Uma década de vigilância O Programa de Controle da Esquistossomose realizou cerca de 9,8 milhões de exames e detectou 423.117 casos. A positividade caiu para 3,22% em 2019, mas o programa passou a enfrentar dificuldades de execução em vários estados.
- 2022 O retrato do Censo A coleta de esgoto alcançou 62,5% da população e o esgotamento adequado, 75,7%. Ainda assim, 49 milhões de pessoas seguiam com soluções precárias e 3.505 municípios tinham menos da metade da população atendida por coleta.
- 2024 O compromisso O Brasil lança o programa Brasil Saudável, com 14 ministérios, assumindo a meta de eliminar a esquistossomose como problema de saúde pública até 2030.
- 2026–2030 O prazo em curso Restam quatro anos para a meta. O desafio não é descobrir o tratamento, que já existe e é gratuito, mas garantir que a água que as pessoas usam deixe de carregar a doença.
Como se prevenir
No plano individual, a orientação do Ministério da Saúde é evitar contato com águas onde possam existir caramujos infectados. Mas o MNDN faz questão de contextualizar essa recomendação: ela só é aplicável para quem tem escolha.
Para uma família que não tem água encanada, “evite o contato com a água do rio” não é uma orientação de saúde é uma impossibilidade prática. Por isso a prevenção real tem três camadas:
- Estrutural: saneamento básico, água tratada, coleta e tratamento de esgoto, moradia digna;
- Programática: busca ativa de casos, exames de rotina em áreas endêmicas, tratamento oportuno, vigilância dos criadouros de caramujos;
- Educativa: educação popular em saúde, informação acessível, combate ao estigma, participação das comunidades nas decisões.
As três precisam funcionar juntas. Tratar sem sanear devolve a pessoa curada à mesma água. Sanear sem buscar casos deixa a doença silenciosa avançar para as formas graves.
O que o MNDN defende
Foto: Comunicação Nacional do MNDN
Para o Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas, os dados do Censo 2022 e os números da esquistossomose contam a mesma história por dois ângulos diferentes. Nossa posição:
- Integrar as políticas. Metas de eliminação de doenças e metas de universalização do saneamento precisam conversar. Hoje, frequentemente correm em paralelo, em ministérios e orçamentos separados;
- Fortalecer o Programa de Controle da Esquistossomose. Sem busca ativa e exames de rotina, os casos só aparecem quando já são graves;
- Valorizar quem está na ponta. Agentes Comunitários de Saúde e Agentes de Combate às Endemias são quem conhece os territórios, identifica riscos e alcança as famílias;
- Priorizar por vulnerabilidade. Investimento em saneamento precisa chegar primeiro onde o Censo mostrou os piores indicadores, e não onde é politicamente mais fácil;
- Garantir participação social. As comunidades afetadas devem participar das decisões sobre onde e como investir elas sabem onde está o problema.
As doenças negligenciadas não começam no consultório nem terminam no medicamento. Elas têm origem nas condições em que as pessoas vivem. Quando falamos em eliminar essas doenças, estamos falando de saneamento básico, água tratada, coleta de lixo, tratamento de esgoto, moradia digna, educação em saúde e redução das desigualdades.
João Victor Pacheco Fos Kersul de Carvalho, Presidente do MNDN
A meta de 2030 está a quatro anos. O Brasil tem o diagnóstico, tem o medicamento, tem o SUS e tem um programa interministerial. O que falta é fazer o cano chegar e chegar primeiro onde a ausência dele adoece.
Fontes e referências
- Ministério da Saúde. Esquistossomose página oficial com situação epidemiológica, sintomas, diagnóstico e tratamento. Dados do SISPCE 2009–2019. Disponível em gov.br/saude.
- IBGE. Censo Demográfico 2022: Características dos domicílios Resultados do universo. Divulgado em 23 de fevereiro de 2024. Disponível na Agência IBGE Notícias.
- Ministério da Saúde. Vigilância da esquistossomose mansoni: diretrizes técnicas. Brasília, 2024.
- Governo Federal. Programa Brasil Saudável Decreto de 7 de fevereiro de 2024. Comitê Interministerial para a Eliminação da Tuberculose e Outras Doenças Determinadas Socialmente (CIEDDS).
- Plano Nacional de Saneamento Básico (PLANSAB) critérios de adequação do esgotamento sanitário.
- Organização Mundial da Saúde. Roteiro para doenças tropicais negligenciadas 2021–2030.
- Esta matéria tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Se você mora em área endêmica ou tem sintomas, procure uma Unidade Básica de Saúde. O exame e o tratamento são gratuitos pelo SUS.