Uma mulher é assassinada por razões de gênero a cada 5 horas e 33 minutos no Brasil. O número parece abstrato até ganhar mapa: em alguns estados, a taxa de feminicídio por habitante é o triplo da média nacional; em outros, o número absoluto de casos supera o de vários países inteiros. O Brasil viveu, entre janeiro e março de 2026, o trimestre mais letal para mulheres desde que o crime passou a ser tipificado, em 2015. Ao mesmo tempo, o país segue sem conseguir garantir que 95% dos municípios pequenos tenham sequer uma delegacia especializada. A seguir, o retrato completo, estado por estado, e por que o MNDN, um movimento de doenças negligenciadas, decidiu levar esse tema para dentro do seu trabalho de base.
O retrato nacional: o Brasil bateu recorde de feminicídios em 2025
O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2026 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mostra um Brasil em contradição: pela primeira vez desde 2012, a taxa geral de mortes violentas intencionais caiu abaixo de 20 por 100 mil habitantes. Mas o feminicídio andou na direção oposta.
- o Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, segundo o relatório “Retrato dos Feminicídios no Brasil” do FBSP, alta de 4,7% sobre 2024 e o maior número desde que o crime foi tipificado, em março de 2015;
- desde 2015, ao menos 13.703 mulheres já foram assassinadas por sua condição de gênero no país;
- a série histórica não para de crescer: 449 casos em 2015, 929 em 2016, 1.229 em 2018, 1.354 em 2020, 1.475 em 2023, até chegar aos 1.568 de 2025;
- enquanto isso, as mortes violentas intencionais em geral caíram 8,2% em 2025 e os homicídios dolosos recuaram 10%, prova de que a queda da violência no país não alcança as mulheres da mesma forma.
O primeiro trimestre de 2026 sugere que a tendência não deu sinais de reversão. O Ministério da Justiça e Segurança Pública, por meio do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), contabilizou 399 mulheres assassinadas por razão de gênero entre janeiro e março de 2026, alta de 7,5% sobre o mesmo período de 2025. É o trimestre inicial mais violento para mulheres desde o começo do monitoramento, em 2015, quando o número era de 125 vítimas no mesmo intervalo.
Reportagens sobre o Anuário 2026 do FBSP citam tanto 1.568 quanto 1.571 feminicídios em 2025. A diferença não é erro: o Anuário consolida boletins de ocorrência coletados diretamente junto às Polícias Civis estaduais ao longo do ano seguinte à publicação, enquanto o relatório “Retrato dos Feminicídios no Brasil”, divulgado em março de 2026 para o Dia Internacional da Mulher, usa um corte de dados um pouco anterior. A classificação de um crime como feminicídio também pode mudar durante a investigação, o que altera pequenas margens entre publicações do mesmo ano. Nesta matéria, usamos 1.568 como referência principal, por vir do relatório mais recente e específico sobre o tema.
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), 2026.
O mapa: onde a violência mais mata, estado por estado
Números nacionais escondem uma geografia muito desigual. São Paulo concentra o maior número absoluto de casos do país, simplesmente por ter a maior população; mas os estados com as maiores taxas de feminicídio, isto é, o risco proporcional para cada mulher, ficam no Norte e no Centro-Oeste. Explore o mapa abaixo: toque em qualquer estado para ver os feminicídios registrados no primeiro trimestre de 2026, o período mais recente com dado completo para todas as 27 unidades da federação.
Reparou no contraste entre o mapa colorido por número de casos e a legenda de taxas? O Acre teve a maior taxa de feminicídio do país em 2025 (3,2 por 100 mil mulheres) mas nenhum caso registrado no primeiro trimestre de 2026, enquanto São Paulo, com taxa proporcionalmente mais baixa, soma sozinho 86 casos só nesses três meses. É a diferença entre risco individual e volume populacional, e as duas leituras importam: a taxa mostra onde uma mulher corre mais perigo; o número absoluto mostra onde a rede de proteção precisa de mais recursos.
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Quem são as vítimas, quem são os agressores
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública também traça um perfil consistente ao longo dos anos: a violência letal de gênero no Brasil não afeta todas as mulheres da mesma forma, e não vem de estranhos.
- 62,6% das vítimas de feminicídio entre 2021 e 2024 eram mulheres negras, contra 36,8% brancas; indígenas e amarelas somam 0,3% cada;
- a faixa etária mais atingida é a de 30 a 39 anos (28,3%), seguida de 40 a 49 anos (21,7%) e 18 a 24 anos (15,5%), mulheres em plena idade produtiva e reprodutiva, muitas vezes responsáveis pelo sustento da família;
- 148 mulheres foram assassinadas mesmo estando amparadas por uma Medida Protetiva de Urgência (MPU) vigente no momento do crime, prova de que a medida, sozinha, nem sempre é suficiente sem monitoramento ativo.
Somados, companheiros e ex-companheiros respondem por 80,7% dos feminicídios no país. Isso reforça o que a Lei Maria da Penha já reconhecia em 2006: a maior ameaça à vida de uma mulher brasileira, na maioria dos casos, mora dentro da própria casa ou já morou nela.
Mais de 1 milhão de atendimentos, mas a queda que ninguém quer comemorar cedo demais
Nem toda notícia de 2025 foi só recorde de alta. A Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180), do Ministério das Mulheres, registrou 1.088.900 atendimentos em 2025, alta de 45% sobre 2024, e 155.111 denúncias de violência, alta de 17,4%, uma média de 425 denúncias por dia. No primeiro trimestre de 2026, o ritmo seguiu acelerado: 301.044 atendimentos (+14%) e 45.735 denúncias (+23%) sobre o mesmo período de 2025.
Ao mesmo tempo, a 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do Instituto DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal, trouxe um dado raro: pela primeira vez em 20 anos de pesquisa, o percentual de mulheres que declararam ter sofrido violência doméstica nos últimos 12 meses caiu, de 7% em 2023 para 4% em 2025, o equivalente a 3,7 milhões de brasileiras.
Essas duas estatísticas medem coisas diferentes. A pesquisa do DataSenado mede a prevalência declarada: quantas mulheres, entrevistadas por telefone, relatam ter sofrido algum tipo de violência doméstica no último ano, incluindo formas não letais como violência psicológica ou patrimonial. Já o feminicídio é o desfecho mais grave e irreversível, medido pelas polícias estaduais. É possível que a violência não letal esteja, de fato, começando a ceder graças a políticas de prevenção, enquanto os casos mais graves, que já vinham de um histórico de escalada, ainda não refletem essa melhora. O coordenador do Instituto DataSenado evita comemorar cedo demais e destaca que parte da queda também pode refletir mudanças na metodologia da pesquisa.
Fonte: Instituto DataSenado / Observatório da Mulher contra a Violência, Senado Federal (2025); Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2026).
Um dado da pesquisa do Senado chama atenção: em 71% dos casos de violência relatados, a agressão aconteceu na presença de outras pessoas, na maioria, filhos e filhas das próprias vítimas. E quase 60% das mulheres agredidas enfrentam episódios recorrentes, com a última agressão há menos de seis meses. Violência doméstica raramente é um evento isolado: ela se repete e se propaga para dentro da família.
A geografia da desigualdade: onde a rede de proteção não chega
Talvez o dado mais importante do relatório “Retrato dos Feminicídios no Brasil” não seja sobre quem morre, mas sobre onde. Metade dos feminicídios do país em 2024 aconteceu em cidades de até 100 mil habitantes, municípios que reúnem apenas 41% da população feminina brasileira. A taxa nessas cidades pequenas (1,7 morte por 100 mil mulheres) supera a de cidades médias (1,2) e grandes (1,1). E cidades com até 20 mil habitantes, sozinhas, concentraram 19,6% dos feminicídios do país, apesar de abrigarem só 14,6% da população feminina.
A desigualdade se repete em outros serviços: apenas 3% dos municípios pequenos têm casa-abrigo, contra 40% das cidades médias e 73% das grandes. No total, só 27,1% das cidades pequenas contam com pelo menos um serviço especializado de atendimento à mulher. Em nível nacional, um levantamento do Poder360 baseado em dados do Ministério das Mulheres, atualizado até novembro de 2025, contabilizou 706 Delegacias da Mulher em funcionamento no país inteiro, menos de uma para cada 100 mil habitantes, concentradas principalmente no Sudeste (254 unidades), seguido por Nordeste (195) e Sul (115).
A violência não escolhe cidade grande ou pequena para acontecer. Mas a estrutura para enfrentá-la, sim, escolhe: ela está onde já há orçamento e visibilidade, não onde a mulher mais precisa dela.
Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)
O que o governo federal está fazendo
Em fevereiro de 2026, os presidentes da República, do Senado, da Câmara dos Deputados e do Supremo Tribunal Federal assinaram, em cerimônia conjunta no Palácio do Planalto, o Pacto Nacional Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio, reunindo os três Poderes em um compromisso formal de ações integradas de prevenção, proteção às vítimas, responsabilização dos agressores e garantia de direitos entre União, estados e municípios.
À frente da pasta responsável por essas políticas está a ministra das Mulheres Márcia Lopes, que assumiu o cargo em maio de 2025 no lugar de Cida Gonçalves. Sob sua gestão, o Ministério informou que o país conta, em fevereiro de 2026, com 11 Casas da Mulher Brasileira em funcionamento, com mais 6 unidades previstas até o fim do ano, incluindo novas sedes em Macapá (AP) e Aracaju (SE). Desde 2023, foram lançados 19 serviços especializados, entre eles 15 Centros de Referência da Mulher Brasileira, com R$ 47 milhões investidos em 2025 e R$ 373 milhões desde o início do programa.
Em março de 2026, o Ministério das Mulheres anunciou uma lavanderia coletiva em Mossoró (RN) e a expansão de “cuidotecas”, espaços que oferecem atividades lúdicas e recreativas para crianças enquanto seus responsáveis, majoritariamente mulheres, estudam, se qualificam ou trabalham, com previsão de mais 20 unidades até o fim de 2026. A iniciativa reconhece publicamente algo que pesquisas de gênero já apontam há anos: a sobrecarga do trabalho de cuidado não remunerado, feito majoritariamente por mulheres, é ela própria uma barreira à autonomia e, em situações de violência doméstica, à capacidade de romper o ciclo.
Fonte: Ministério das Mulheres, citado pelo Jornal de Brasília (25/02/2026).
O custo econômico, além do custo humano
Violência contra a mulher também tem preço, e ele aparece na economia como um todo. Um estudo da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) estima que, em dez anos, a violência contra a mulher produziu um impacto negativo de R$ 214,42 bilhões no PIB brasileiro, associado ao fechamento de 1,96 milhão de postos de trabalho, perda de R$ 91,44 bilhões em salários e R$ 16,44 bilhões em arrecadação tributária. Cerca de 12,5% das trabalhadoras brasileiras, o equivalente a 3,3 milhões de mulheres, relataram algum tipo de violência doméstica nos últimos 12 meses, e um quarto delas faltou ao trabalho por causa disso pelo menos uma vez.
O elo com as doenças negligenciadas: por que o MNDN traz esse tema
À primeira vista, violência contra a mulher e doenças tropicais negligenciadas parecem pautas distantes. Mas quem olha o mapa de feminicídios ao lado do mapa histórico das doenças negligenciadas que o MNDN já cobriu, esquistossomose e geo-helmintíases concentradas no Maranhão, malária e arboviroses avançando pela Amazônia, leishmaniose se urbanizando em cidades do Nordeste, percebe que são, com frequência, os mesmos territórios: regiões onde o Estado brasileiro historicamente investe menos em saúde, em segurança pública e em dados confiáveis.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Ocidental Africana de Saúde documentam que mulheres e meninas são desproporcionalmente afetadas pelas doenças negligenciadas por causa de papéis de gênero, menor autonomia financeira, que limita o acesso a cuidados de saúde, e maior exposição ao estigma e à discriminação associados a essas doenças. A esquistossomose genital, por exemplo, é uma manifestação da doença com alta chance de ser mal diagnosticada ou subestimada em mulheres.
- segundo relatório da OMS de 2024, mulheres compõem 67% da força de trabalho global em saúde e cuidados, mas realizam 76% de todo o trabalho de cuidado não remunerado no mundo, incluindo o cuidado de familiares com doenças negligenciadas;
- no Brasil, a notificação de violência doméstica em serviços de saúde é compulsória desde 2011, registrada no mesmo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) que recebe as notificações de boa parte das doenças negligenciadas, e sofre do mesmo problema estrutural: estima-se que ocorram 822 mil casos de estupro por ano no Brasil, mas apenas 4,2% chegam a ser identificados pelo sistema de saúde;
- o próprio Ministério das Mulheres reconheceu, ao lançar lavanderias coletivas e “cuidotecas” em 2026, que a sobrecarga do trabalho de cuidado não remunerado, historicamente exercido por mulheres, é uma barreira concreta à autonomia, a mesma barreira que o MNDN aponta quando mulheres deixam de buscar diagnóstico e tratamento para doenças negligenciadas por falta de tempo ou de liberdade de movimento.
Essa sobreposição não é coincidência. Quando uma mulher vive em situação de violência doméstica, sua capacidade de buscar atendimento de saúde, seja para si mesma, seja para um filho com esquistossomose ou um idoso com sequelas de hanseníase sob seus cuidados, fica diretamente comprometida pelo controle exercido pelo agressor sobre o tempo, o dinheiro e a liberdade de ir e vir. E, nos municípios pequenos do interior do Norte e do Nordeste, onde a rede de proteção contra violência é mais escassa, a rede de vigilância epidemiológica de doenças negligenciadas costuma ser igualmente frágil, o mesmo problema de subnotificação, os mesmos vazios de dado público, atravessando as duas pautas.
O Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) é o mesmo sistema do Ministério da Saúde que recebe, entre outras, as notificações de violência doméstica e de diversas doenças negligenciadas de notificação compulsória. Capacitar profissionais de saúde da atenção básica para notificar corretamente, investir em conectividade e informatização das unidades de saúde do interior, e integrar esses dados com outras bases (segurança pública, assistência social) fortaleceria simultaneamente a vigilância de ambas as pautas, sem exigir dois sistemas paralelos. É por isso que o MNDN defende esse tipo de investimento como pauta transversal, não como concorrência de prioridades entre movimentos sociais.
Fonte: Lei nº 12.845/2013 e Portaria nº 1.271/2014 (Ministério da Saúde); análise MNDN.
Participação social: por que o MNDN levanta essa pauta
O Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas nasceu para cobrar dados, visibilidade e políticas públicas para enfermidades que o Estado brasileiro historicamente deixa de medir e de tratar como prioridade. Ao longo de sua atuação, o movimento aprendeu que essas mesmas ferramentas, participação social, controle social previsto na Lei nº 8.142/1990, cobrança de dados públicos, pressão por integração entre sistemas de informação, servem para qualquer pauta que o poder público negligencia. Violência contra a mulher é uma delas.
Foi esse raciocínio que levou o MNDN a participar, em Pernambuco, de um diálogo sobre violência contra a mulher promovido pelo Grupo Saúde, com a psicóloga do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), Dra. Paula, e a coordenadora estadual do MNDN no estado, Maurineia Roseno de Vasconcelos, moradora da Região Metropolitana do Recife. A atividade tratou de direitos das mulheres, leis de proteção e serviços disponíveis na rede de atendimento, exatamente o tipo de informação que, segundo os dados desta matéria, ainda não chega a tempo para a maioria das mulheres brasileiras, sobretudo as que vivem fora dos grandes centros.
O caso do Grupo Saúde em Pernambuco mostra, em escala local, exatamente o problema que esta matéria mapeia em escala nacional: 706 delegacias da mulher para um país inteiro, apenas 5% dos municípios pequenos com serviço especializado, e 71% das agressões acontecendo na frente de outras pessoas sem que ninguém interviesse a tempo. Coordenadoras estaduais do MNDN, como Maurineia em Pernambuco, atuam justamente nesse espaço que falta: o de levar informação técnica sobre direitos e rede de proteção para dentro de grupos comunitários já existentes, antes que a situação chegue ao limite. O MNDN defende que esse modelo, replicado por suas coordenações em outros estados, pode ajudar a reduzir a distância entre a lei que existe no papel e a informação que chega a quem precisa dela.
Fonte: coordenação nacional do MNDN.
Um movimento que nasceu para cobrar visibilidade sobre doenças negligenciadas não pode fechar os olhos para outra forma de negligência que mata mais que várias dessas doenças somadas. Participação social não escolhe pauta, ela mede o tamanho da omissão do Estado, seja qual for o tema.
Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)
Perguntas que o MNDN dirige ao poder público
- Existe um painel público único, atualizado em tempo real, que reúna os dados de feminicídio de todas as Secretarias Estaduais de Segurança Pública, evitando a defasagem e as divergências metodológicas entre diferentes levantamentos?
- Por que, passados mais de dez anos da tipificação do feminicídio, o Brasil ainda não conseguiu padronizar nacionalmente os critérios de classificação entre estados, a ponto de estados como o Ceará classificarem como feminicídio menos de 16% das mortes violentas de mulheres?
- Qual o cronograma concreto, com datas e municípios definidos, para que os 95% dos municípios pequenos hoje sem Delegacia da Mulher passem a contar com algum serviço especializado de atendimento?
- Como o Ministério da Saúde pretende reduzir a subnotificação de violência sexual no SINAN, hoje estimada em apenas 4,2% dos casos reais identificados pelo sistema de saúde, e essa mesma estratégia poderia ser usada para melhorar a notificação de doenças negligenciadas?
- Quantas das 148 mulheres assassinadas em 2024 mesmo com Medida Protetiva de Urgência vigente tiveram falhas identificadas no monitoramento da medida, e o que foi feito a partir dessas investigações?
- O Pacto Nacional Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio, assinado em fevereiro de 2026, terá indicadores públicos de acompanhamento, com metas e prazos, ou permanecerá como compromisso simbólico entre os três Poderes?
A posição do Movimento
O Pacto Nacional Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio e a expansão das Casas da Mulher Brasileira são conquistas reais, e o crescimento de 45% nos atendimentos do Ligue 180 mostra que mais mulheres confiam na rede de proteção quando ela existe. Mas confiança no canal de denúncia não substitui presença territorial: enquanto o feminicídio bate recorde pelo quarto ano seguido no Brasil, e enquanto 95% dos municípios pequenos seguem sem nenhuma Delegacia da Mulher, fica claro que a lei avançou mais rápido do que a estrutura para aplicá-la. Nossa posição:
- Participação social como política permanente: coordenações estaduais do MNDN devem levar informação sobre direitos e rede de proteção para dentro de grupos comunitários e unidades de saúde, como já faz a coordenação de Pernambuco;
- Integração de dados entre saúde, justiça e segurança pública: uma mulher notificada por violência no SUS não pode “desaparecer” do radar da rede de proteção judicial, e o mesmo vale para o cruzamento com dados de doenças negligenciadas em regiões de sobreposição de vulnerabilidades;
- Padronização nacional da classificação de feminicídio: a variação de mais de 50 pontos percentuais entre estados na classificação de mortes violentas de mulheres compromete o planejamento de políticas públicas em todo o país;
- Prioridade orçamentária para municípios pequenos: onde metade dos feminicídios acontece e onde apenas 27,1% das cidades têm algum serviço especializado;
- Reconhecimento da sobrecarga de cuidado como fator de vulnerabilidade compartilhado entre a pauta da violência de gênero e a pauta das doenças negligenciadas, com políticas de cuidado (como as cuidotecas) tratadas como infraestrutura de saúde pública, não como benefício acessório;
- Transparência orçamentária real em todos os programas de proteção à mulher, com painéis públicos que mostrem o que foi efetivamente executado, não apenas planejado.
Doença negligenciada e violência contra a mulher compartilham o mesmo diagnóstico: o que o Estado brasileiro não mede direito, ele também não enfrenta direito. Cada coordenadora estadual do MNDN que leva esse tema para dentro do seu território, como Maurineia fez em Pernambuco, é uma peça a mais nesse enfrentamento.
João Victor Pacheco Fós Kersul de Carvalho, Presidente do MNDN
Perguntas frequentes sobre violência contra a mulher no Brasil
Em 2025, os três estados com as maiores taxas de feminicídio proporcionais à população feminina foram Acre (3,2 por 100 mil mulheres), Rondônia (2,9) e Mato Grosso do Sul (2,7). É importante não confundir taxa com número absoluto: São Paulo tem o maior número de casos do país, mas uma taxa proporcionalmente mais baixa por ter a maior população.
O canal nacional gratuito é o 180 (Central de Atendimento à Mulher), disponível 24 horas por telefone, WhatsApp e e-mail. Em emergências, o 190 aciona a polícia imediatamente. Também é possível procurar uma Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) ou, onde houver, uma Casa da Mulher Brasileira, que reúne delegacia, apoio psicossocial, Ministério Público e Defensoria Pública em um só endereço.
Foram 1.568 feminicídios em 2025, segundo o relatório “Retrato dos Feminicídios no Brasil” do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o maior número da série histórica iniciada em 2015. Isso representa uma alta de 4,7% sobre os 1.492 casos registrados em 2024.
Companheiros são responsáveis por 59,4% dos feminicídios e ex-companheiros por outros 21,3%, somando 80,7% dos casos entre 2021 e 2024. Outros familiares respondem por 10,2%, enquanto desconhecidos e outros conhecidos somam os 9,1% restantes.
Porque a rede de proteção especializada é muito mais escassa neles: apenas 5% dos municípios com até 100 mil habitantes têm Delegacia da Mulher e apenas 3% têm casa-abrigo, contra 98% e 73%, respectivamente, nos municípios com mais de 500 mil habitantes. Mesmo assim, metade dos feminicídios do país acontece nessas cidades pequenas, que reúnem apenas 41% da população feminina brasileira.
Mulheres e meninas são desproporcionalmente afetadas por doenças tropicais negligenciadas devido a papéis de gênero, menor autonomia financeira e maior exposição ao estigma, segundo documentos da OMS. Elas também realizam a maior parte do trabalho de cuidado não remunerado com familiares doentes, e essas mesmas regiões do país com maior carência de rede de proteção contra violência costumam ter também maior carência de vigilância epidemiológica de doenças negligenciadas.
Fontes e referências
- FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA (FBSP). 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026. 23 jul. 2026.
- FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA (FBSP). Retrato dos Feminicídios no Brasil. Nota técnica, mar. 2026, via Instituto Patrícia Galvão / Dados e Fontes. agenciapatriciagalvao.org.br.
- JB (JORNAL DO BRASIL). Brasil tem menor taxa de mortes violentas intencionais desde 2012. 24 jul. 2026. jb.com.br.
- A PÚBLICA. As duas faces das mortes violentas no Brasil: feminicídios e ações policiais. 23 jul. 2026. apublica.org.
- CNN BRASIL. Brasil tem 1º trimestre mais letal da história para mulheres em 2026. 6 maio 2026. cnnbrasil.com.br.
- TMC. Brasil registra 399 feminicídios em 3 meses e bate recorde histórico do trimestre. 5 maio 2026. tmc.com.br.
- IBDFAM. Brasil registra aumento de feminicídios no primeiro trimestre de 2026. 6 maio 2026. ibdfam.org.br.
- MINISTÉRIO DAS MULHERES / Instituto DataSenado, Observatório da Mulher contra a Violência, Senado Federal. 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher. 27 nov. 2025. senado.leg.br.
- SBT NEWS. Ligue 180 supera 1 milhão de atendimentos a mulheres vítimas de violência em 2025. 14 abr. 2026. sbtnews.sbt.com.br.
- PODER360. Brasil tem menos de 1 delegacia da mulher para cada 100 mil habitantes. Dados do Ministério das Mulheres e Ligue 180, atualizados até nov. 2025. poder360.com.br.
- BEM PARANÁ (Folhapress). Metade dos feminicídios ocorre em cidades com até 100 mil habitantes, onde só 5% têm delegacia da mulher. 4 mar. 2026. bemparana.com.br.
- JORNAL DE BRASÍLIA. Governo inaugura duas novas Casas da Mulher Brasileira em março. 25 fev. 2026. jornaldebrasilia.com.br.
- O POVO. Um pacto para combater o feminicídio (Pacto Nacional Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio, fev. 2026). opovo.com.br.
- FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DE MINAS GERAIS (FIEMG). Impactos Econômicos da Violência contra a Mulher. Citado por Acionista.com.br. acionista.com.br.
- WEST AFRICAN HEALTH ORGANISATION (WAHO). Comunicado sobre Dia Mundial das Doenças Tropicais Negligenciadas: mulheres e meninas. 29 jan. 2023. wahooas.org.
- ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Fair share for health and care: gender and the undervaluation of health and care work. Citado por Portal Afya, 22 mar. 2024. portal.afya.com.br.
- Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha); Lei nº 12.845/2013 e Portaria nº 1.271/2014 (notificação compulsória de violência no SUS); Lei nº 8.142/1990 (participação e controle social no SUS): legislação federal.
- Contorno cartográfico do mapa interativo: mapa-brasil-svg, de Luis Dalmolin, licença MIT. github.com/luisdalmolin/mapa-brasil-svg.
Nota de transparência: os dados do mapa interativo referem-se ao 1º trimestre de 2026 (jan.–mar.), o período mais recente com número completo e comparável para todas as 27 unidades da federação, compilados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (Sinesp) e divulgados por CNN Brasil, TMC e IBDFAM a partir da mesma base de dados; a soma dos 27 estados bate exatamente com o total nacional de 399 casos divulgado nessas reportagens. Onde disponível, complementamos com o número de feminicídios de todo o ano de 2025 ou com a taxa por 100 mil mulheres, sempre identificando a fonte específica no próprio mapa.