Nesta quinta-feira, a Organização Mundial da Saúde (OMS) validou a eliminação do tracoma como problema de saúde pública em Timor-Leste, país de língua portuguesa que era o último da Região do Sudeste Asiático com suspeita de transmissão endêmica da doença, segundo reportagem da ONU News. É uma conquista concreta contra a principal causa infecciosa de cegueira do planeta. Mas ela também expõe, por contraste, uma pergunta desconfortável para o Brasil: se um país pequeno do Sudeste Asiático consegue provar à OMS que eliminou o tracoma, por que o processo brasileiro, aberto no mesmo período, segue em aberto, sem um número nacional atualizado sobre quantas pessoas ainda têm a doença? A resposta, nos dois países, começa no mesmo lugar: o acesso à água.
O que Timor-Leste conquistou
O tracoma é causado pela bactéria Chlamydia trachomatis e é, segundo a OMS, a principal causa infecciosa de cegueira do mundo. A doença atinge principalmente populações com acesso limitado a saneamento e água potável. Infecções repetidas cicatrizam a parte interna da pálpebra, que se deforma e vira para dentro (a chamada triquíase), fazendo os cílios rasparem direto na córnea a cada piscada, o que pode levar à cegueira irreversível.
Com a validação anunciada esta semana, Timor-Leste se tornou o 33º país do mundo, e o quarto de sua região, a eliminar o tracoma como problema de saúde pública, encerrando a suspeita de transmissão endêmica em toda a Região do Sudeste Asiático da OMS. O processo levou anos: entre 2015 e 2017, equipes de saúde examinaram crianças na Ilha de Ataúro, fizeram triagens em clínicas oftalmológicas e buscas ativas domiciliares sem encontrar casos da doença. Em 2025, um novo levantamento analisou cerca de 5 mil amostras de crianças entre 1 e 5 anos em todos os municípios do país, com resultado negativo para transmissão.
O país demonstrou como a ciência e sistemas de saúde sólidos podem proteger as pessoas da cegueira evitável.
Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS
- Timor-Leste é o 33º país do mundo e o 4º da Região do Sudeste Asiático a eliminar o tracoma como problema de saúde pública, segundo a OMS;
- Mesmo com a conquista, o tracoma continua sendo problema de saúde pública em 39 países e já causou prejuízo visual a cerca de 1,9 milhão de pessoas no mundo;
- Mesmo após a validação, Timor-Leste manterá o monitoramento de casos individuais de triquíase, integrado às plataformas nacionais de vigilância de doenças tropicais negligenciadas;
- A meta da OMS é eliminar o tracoma como problema de saúde pública em todo o mundo até 2030.
Ao longo da última década, países como Camboja, Gana, Laos, México, Marrocos, Nepal e Omã já haviam sido reconhecidos pela OMS como livres do tracoma como problema de saúde pública, segundo reportagem anterior da própria ONU News. Cada um desses processos seguiu o mesmo roteiro: anos de inquéritos epidemiológicos, investimento em água e saneamento, e depois uma auditoria internacional para confirmar o resultado. É esse roteiro que o Brasil também iniciou, em 2018, e ainda não fechou.
Fonte: As Nações Unidas no Brasil, ONU News.
E o Brasil, onde está nesse processo?
O MNDN já mostrou em reportagem anterior que o último levantamento nacional de tracoma no Brasil, com metodologia publicada, é de 2002 a 2007: examinou 119.531 alunos em 2.270 escolas de 1.156 municípios de menor Índice de Desenvolvimento Humano, e encontrou uma prevalência média de 5,1% de tracoma ativo, acima do limite de 5% que a OMS considera eliminação como problema de saúde pública.
O Brasil abriu formalmente seu processo de validação junto à OMS em 2018, seguindo o protocolo do Global Trachoma Mapping Project, o mesmo tipo de metodologia que Timor-Leste acabou de concluir com sucesso. A primeira etapa, em dez unidades não indígenas, alcançou as metas técnicas de certificação. Mas o processo não parou por aí: atualmente, o Ministério da Saúde conduz o inquérito em cinco áreas indígenas localizadas no Maranhão, em Roraima e no Amazonas, território historicamente associado a alguns dos maiores índices de tracoma do país.
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Ainda não revelado. Toque no card acima.
Enquanto o processo timorense foi encerrado com sucesso em poucos anos de inquéritos concentrados (2015-2017 e 2025), o processo brasileiro atravessa oito anos, começou em 2018 e ainda está em curso nas áreas indígenas. Não é só uma questão de tamanho de território: é também um indicador de que a doença persiste em escala suficiente para que o dossiê de validação siga incompleto.
O determinante social que causa o tracoma: a água
A OMS recomenda a estratégia SAFE contra o tracoma: Surgery (cirurgia), Antibiotics (antibióticos), Facial cleanliness (higiene facial) e Environmental improvement (melhoria ambiental e saneamento). Metade dessa estratégia, o F e o E, não depende de médico, remédio ou hospital: depende de água disponível em casa e na escola para lavar o rosto, e de saneamento básico para reduzir a circulação das moscas que também transmitem a bactéria.
É exatamente aí que o Brasil ainda tem uma lacuna estrutural, e ela tem endereço certo no mapa.
- Em 2023, 85,9% dos domicílios brasileiros tinham acesso à rede geral de abastecimento de água como principal fonte, segundo a Pnad Contínua do IBGE, mas esse percentual cai para 32,3% nas áreas rurais;
- A Região Norte tem o pior índice do país: 60,4% dos domicílios ligados à rede geral de água, contra 91,8% no Sudeste;
- O Pará é o estado com o menor percentual de acesso à água encanada do Brasil: 49,6% dos domicílios, segundo o IBGE;
- Cerca de 4,8 milhões de brasileiros ainda vivem em domicílios sem água encanada, e 67% desse total (3,2 milhões de pessoas) está no Nordeste, segundo o Censo Demográfico 2022.
Onde a falta de água pesa mais: territórios indígenas
Se a média nacional já esconde desigualdades regionais grandes, a situação piora quando o recorte é indígena. Segundo análise do Censo Demográfico 2022, quase 40% da população indígena que vive em terras indígenas na Amazônia Legal não tem acesso considerado adequado à água: 27% dependem principalmente de rios, lagos e igarapés, 8,71% usam prioritariamente água da chuva e 1,19% dependem de carros-pipa.
O histórico é ainda mais grave: dados oficiais da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) mostravam que, até 2009, apenas 35,48% das aldeias em terras indígenas e 63,07% da população indígena do país tinham acesso à água tratada. É justamente nesses territórios, no Maranhão, em Roraima e no Amazonas, que o Brasil ainda conduz o inquérito de validação da eliminação do tracoma.
Em 2024, o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Tapajós registrou 1.894 casos de doenças diarreicas agudas por 10 mil habitantes, uma das maiores taxas do país, segundo levantamento da InfoAmazonia. Lideranças locais relatam que a instalação de poços já ajudou a reduzir casos de diarreia e malária em aldeias atendidas. Em fevereiro de 2026, a Justiça Federal determinou que a União fornecesse água potável mensalmente à população do DSEI Tapajós e construísse ou reformasse sistemas de abastecimento. O Ministério da Saúde afirma manter 13 processos licitatórios para instalações na bacia.
Fonte: InfoAmazonia/Conexão Tocantins, com base no Censo Demográfico 2022 e decisão da Justiça Federal de fevereiro de 2026.
Do lado do investimento, o Ministério da Saúde prevê aplicar R$ 10,85 bilhões em saneamento indígena ao longo de 20 anos, com R$ 187 milhões de orçamento previsto para 2026. Entre 2023 e 2025, já foram aplicados R$ 667,3 milhões em saneamento ambiental e infraestrutura nos territórios indígenas do país. É dinheiro real e um cronograma real, mas a distância entre o que já foi investido e os quase 40% da população indígena amazônica ainda sem água adequada mostra o tamanho do caminho que falta.
É fundamental que o Estado compreenda e assuma essa política como uma questão de saúde pública. O acesso à água potável é um direito básico essencial.
Sonia Guajajara, deputada federal e ex-ministra dos Povos Indígenas
Por que isso deveria incomodar o Brasil
A eliminação do tracoma em Timor-Leste não é só uma boa notícia distante: é um espelho. Um país que investiu em água, saneamento e vigilância territorial durante anos conseguiu fechar a conta com a OMS. O Brasil, uma economia muito maior, com um sistema único de saúde reconhecido internacionalmente, iniciou o mesmo processo no mesmo período e ainda não conseguiu concluí-lo, porque a doença persiste justamente nos territórios onde a água ainda não chegou.
Não é falta de tecnologia médica. O antibiótico contra o tracoma é gratuito no SUS. A cirurgia de triquíase está disponível na rede pública. O que falta é a metade “de infraestrutura” da estratégia SAFE, e essa metade não se resolve em um hospital: se resolve com uma torneira que funciona todos os dias, em casa e na escola.
Perguntas que o MNDN dirige ao poder público
- Qual é o cronograma público, com datas, para a conclusão do Inquérito Nacional de Validação da Eliminação do Tracoma nas cinco áreas indígenas do Maranhão, Roraima e Amazonas ainda em análise?
- Existe uma meta explícita para levar água encanada regular às aldeias e escolas dos territórios com maior histórico de tracoma, com prazo e orçamento vinculados ao Programa Brasil Saudável?
- Como o Ministério da Saúde vai equiparar a velocidade da vigilância de água potável em terras indígenas ao ritmo de outros países que já concluíram o mesmo processo de validação junto à OMS?
- Os R$ 10,85 bilhões previstos para saneamento indígena em 20 anos têm cronograma anual público e auditável, ou dependem de renovação orçamentária ano a ano?
- Como a decisão da Justiça Federal sobre o DSEI Tapajós está sendo replicada, ou não, para outros distritos sanitários indígenas com indicadores hídricos igualmente críticos?
A posição do Movimento
O MNDN reconhece o esforço técnico real do Brasil no combate ao tracoma: do primeiro inquérito nacional em 2002-2007 ao atual processo de validação junto à OMS, passando por investimentos crescentes em saneamento indígena. Mas a conquista de Timor-Leste esta semana mostra que esse esforço pode, sim, chegar ao fim, com data e certificação. O que falta ao Brasil não é capacidade técnica: é prioridade orçamentária e velocidade política para levar água aos territórios que a reportagem aponta. Nossa posição:
- Água é a vacina do tracoma. Enquanto Norte e territórios indígenas tiverem os piores índices de água encanada do país, o F e o E da estratégia SAFE continuam fora do alcance de milhões de pessoas;
- Prazo público para os inquéritos indígenas. As cinco áreas ainda em análise no Maranhão, Roraima e Amazonas precisam de data de conclusão divulgada, não apenas “em curso”;
- Investimento auditável ano a ano. Os R$ 10,85 bilhões previstos para saneamento indígena em 20 anos devem ter metas anuais públicas e verificáveis, para que não sejam apenas uma meta de longo prazo sem cobrança de curto prazo;
- Decisões judiciais como piso, não como exceção. O que a Justiça Federal determinou para o DSEI Tapajós deveria ser política de Estado para todos os distritos sanitários indígenas com indicadores hídricos críticos;
- Comparação internacional como cobrança, não como constrangimento. O Brasil pode, e deve, aprender com o roteiro de países que já eliminaram o tracoma, incluindo Timor-Leste, sem tratar essa comparação como ofensa, mas como parâmetro de gestão pública.
Um país pequeno do outro lado do mundo acabou de provar, com dado e auditoria internacional, que eliminou o tracoma. O Brasil tem hospital, tem SUS, tem remédio gratuito. O que falta é levar água aonde a doença ainda mora. Essa não é uma meta técnica distante: é uma decisão orçamentária que pode ser tomada amanhã.
João Victor Pacheco Fós Kersul de Carvalho, Presidente do MNDN
Perguntas frequentes sobre o tracoma e a água
Significa que a OMS validou que o tracoma deixou de ser um problema de saúde pública no país, segundo critérios técnicos que incluem prevalência abaixo de 5% em crianças de 1 a 9 anos e menos de um caso de triquíase por mil habitantes. Isso não significa que a doença desapareceu por completo: o país continuará monitorando e tratando casos individuais.
Porque o processo de validação do Brasil, aberto em 2018, ainda está em curso em cinco áreas indígenas do Maranhão, Roraima e Amazonas, territórios que historicamente concentram os maiores índices de tracoma do país e que também têm os menores índices de acesso à água potável.
O tracoma se transmite por secreções oculares, objetos compartilhados e moscas, e todas essas vias dependem da ausência de água para lavar o rosto regularmente. Duas das quatro frentes da estratégia SAFE da OMS contra a doença (higiene facial e melhoria ambiental) dependem diretamente de água encanada e saneamento básico, não de atendimento médico.
Cerca de 4,8 milhões de pessoas, segundo o Censo Demográfico 2022 do IBGE, das quais 67% (3,2 milhões) estão na Região Nordeste. Entre a população indígena que vive em terras indígenas na Amazônia Legal, quase 40% não tem acesso considerado adequado à água, segundo análise do mesmo Censo.
Fontes e referências
- ONU NEWS BRASIL. Timor-Leste elimina tracoma e fortalece vigilância sanitária. 4 de setembro de 2026. news.un.org.
- MOVIMENTO NACIONAL DAS DOENÇAS NEGLIGENCIADAS (MNDN). Tracoma: a doença que cega em silêncio e o Brasil não sabe dizer quantas pessoas ainda têm. mndnbrasil.org.
- SciELO / Revista de Saúde Pública. Prevalência de tracoma entre escolares brasileiros, v. 47, n. 3, jun. 2013. scielosp.org.
- AGÊNCIA GOV / Ministério da Saúde. Ministério da Saúde realiza processo para comprovar eliminação de doença ocular no país. agenciagov.ebc.com.br.
- IBGE. Em 2023, um em cada três domicílios rurais era abastecido por rede geral de água (Pnad Contínua). agenciadenoticias.ibge.gov.br.
- AGÊNCIA TATU DE JORNALISMO DE DADOS. 67% dos domicílios brasileiros sem água encanada estão na região Nordeste (Censo Demográfico 2022). agenciatatu.com.br.
- CONEXÃO TOCANTINS / InfoAmazonia. Quase 40% dos indígenas em territórios da Amazônia vivem sem acesso adequado à água. conexaoto.com.br.
- TEMPO.COM / InfoAmazonia. Quase 40% dos indígenas em terras da Amazônia vivem sem acesso adequado à água (dados do DSEI Tapajós e decisão judicial). tempo.com.
- SANEAMENTOBASICO.COM.BR. Vulnerabilidade e sustentabilidade: saneamento em áreas indígenas (dados históricos da Funasa, 2009). saneamentobasico.com.br.
Nota de transparência: todos os dados numéricos citados nesta matéria têm fonte verificada indicada acima. O Brasil não publica, até esta reportagem, um número nacional atualizado de prevalência de tracoma que substitua o inquérito de 2002-2007; essa lacuna de dado é tratada como problema de transparência do Estado, não como fracasso do movimento em apurar.