MOVIMENTO NACIONAL DAS DOENÇAS NEGLIGENCIADAS — JUSTIÇA SOCIAL E SAÚDE PARA TODOS
🛒
← Voltar para o início Tuberculose no Brasil: mortes no maior nível em 26 anos
📅 | 📂 🔬 Saúde Pública | ✍️

Tuberculose no Brasil: mortes no maior nível em 26 anos

🔬 Saúde pública

O Brasil registrou mais de 6 mil mortes por tuberculose em 2023 — patamar que não era visto desde 1999. A proporção de cura caiu de 74,2% para 66%. E entre pessoas em situação de rua, apenas 29,2% se curam.

A tuberculose tem cura. O diagnóstico é gratuito, o tratamento é gratuito, e ambos existem no SUS há décadas. Ainda assim, o Brasil viu as mortes por tuberculose voltarem ao patamar de 1999 e a proporção de cura despencar oito pontos em quatro anos. Esta reportagem mostra o que os números do Ministério da Saúde revelam — e por que eles falam menos de bactéria do que de moradia, renda e cor da pele.

Vala de esgoto a céu aberto passando entre casas de uma comunidade
Diagnóstico e tratamento da tuberculose são gratuitos e universais no SUS

O que é a tuberculose?

A tuberculose é uma doença infecciosa causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis, também chamada de bacilo de Koch. Atinge principalmente os pulmões, mas pode acometer ossos, rins, gânglios e o sistema nervoso — nesses casos, é chamada de tuberculose extrapulmonar.

É uma doença antiga, tratável e curável. E, ainda assim, segundo o relatório global da OMS, em 2023 a tuberculose provavelmente voltou a ser a principal causa de morte por um único agente infeccioso no mundo, superando a covid-19. Naquele ano, estimou-se que 10,8 milhões de pessoas adoeceram e 1,25 milhão morreram pela doença.

O Brasil e o Peru são os únicos países das Américas que constam nas listas de países de alta carga da OMS. Mas apenas o Brasil está em duas dessas listas: a de alta carga de tuberculose e a de alta carga de coinfecção tuberculose-HIV.

Como a tuberculose se transmite

A transmissão é pelo ar. Quando uma pessoa com tuberculose pulmonar ativa tosse, fala ou espirra, elimina partículas com o bacilo, que podem ser inaladas por quem está próximo.

Isso explica por que ambientes fechados, mal ventilados e superlotados são os que mais favorecem a doença — e por que ela se concentra onde a moradia é precária.

Uma informação importante contra o estigma: não se pega tuberculose por compartilhar copos, talheres, roupas ou toalhas. E, depois de iniciado o tratamento correto, a pessoa deixa de transmitir em poucas semanas.

Nem todo mundo que se infecta adoece. Estima-se que cerca de um quarto da população mundial esteja infectada pelo bacilo, mas a maioria não desenvolve a forma ativa da doença — permanece com o que se chama de infecção latente. O risco de a infecção latente virar tuberculose ativa é maior nos dois primeiros anos, e é maior entre pessoas vivendo com HIV, pessoas desnutridas, com diabetes, tabagistas e que consomem álcool.

Sintomas: quando procurar ajuda

Vala de esgoto a céu aberto passando entre casas de uma comunidade
O tratamento dura seis meses e é gratuito no SUS. Foto: Custódio Coimbra

O sintoma clássico é tosse por três semanas ou mais. Junto dela podem aparecer febre, principalmente no fim da tarde, suor noturno, cansaço, falta de apetite, emagrecimento e dor no peito.

Uma orientação do Ministério da Saúde que vale destacar: para pessoas em situação de maior vulnerabilidade — indígenas, pessoas privadas de liberdade, pessoas vivendo com HIV, pessoas em situação de rua, imigrantes e profissionais de saúde — recomenda-se investigar tuberculose diante de tosse de qualquer duração, sem esperar as três semanas.

Diagnóstico e tratamento

O método preferencial de diagnóstico no Brasil é o Teste Rápido Molecular para Tuberculose (TRM-TB), que além de detectar a doença já identifica resistência à rifampicina. Também são usadas a baciloscopia de escarro e a cultura.

Houve avanço real aqui: entre 2021 e 2024, o número de testes rápidos moleculares realizados no país cresceu 60,7%, passando de 407.513 para 654.824 testes.

O tratamento dura seis meses e é gratuito no SUS. E aqui está uma das razões pelas quais o tratamento é abandonado: a melhora clínica costuma vir já no primeiro mês. A pessoa se sente bem e para de tomar o remédio — o que pode gerar resistência bacteriana e transformar um caso simples em um caso grave.

  • Se você tem tosse há três semanas ou mais, procure uma Unidade Básica de Saúde e peça o exame. Não custa nada e não exige encaminhamento. Se você é de alguma população prioritária, procure com tosse de qualquer duração.

Os números do Brasil em 2024

Os dados a seguir são do Boletim Epidemiológico de Tuberculose 2025, do Ministério da Saúde, com dados extraídos em fevereiro de 2025.

  • 84.308 casos novos de tuberculose em 2024;
  • Coeficiente de incidência de 39,7 casos por 100 mil habitantes;
  • 6.025 óbitos em 2023, com coeficiente de 2,85 por 100 mil habitantes;
  • Aumento de 21% no número de casos novos no período pós-pandemia (2020 a 2024);
  • Aumento de 31,9% no número total de óbitos entre 2020 e 2023;
  • 1.047 casos novos de tuberculose drogarresistente em 2024.

Há um dado nesse conjunto que merece parar para ler duas vezes. O boletim registra que a mortalidade por tuberculose ultrapassou, pela primeira vez em 26 anos, a marca de mais de 6 mil óbitos anuais. É um patamar que não era observado desde 1999.

O mapa da tuberculose — clique no seu estado

Crianças brincando descalças em terreno de terra batida
A cura está caindo — e esse é o dado mais preocupante

A tuberculose não se distribui igualmente pelo território. Clique em qualquer estado para ver os indicadores que o Ministério da Saúde destacou nominalmente no boletim de 2025.

Tuberculose no Brasil, estado por estado

Cada quadrado é uma unidade da federação. A cor indica o coeficiente de incidência em 2024 (casos por 100 mil habitantes). Cinza significa que o dado estadual não foi consultado para esta reportagem.

Selecione um estado

Boletim Epidemiológico de Tuberculose 2025

Toque ou clique em qualquer quadrado para ver os indicadores daquele estado.

Fonte: Ministério da Saúde, Boletim Epidemiológico de Tuberculose 2025 (Número Especial, março de 2025), com dados do Sinan, do SIM e do Site-TB. Incidência referente a 2024; mortalidade, cura e interrupção referentes a 2023. Dados preliminares, sujeitos a alteração. Os indicadores completos das 27 unidades da federação estão nas tabelas do apêndice do boletim oficial.

A cura está caindo — e esse é o dado mais preocupante

Entre todos os números do boletim, este é o que mais deveria acender alerta.

A proporção de cura dos casos novos de tuberculose pulmonar confirmados por critério laboratorial caiu de 74,2% em 2019 para 66,0% em 2023. No mesmo período, a interrupção do tratamento subiu de 14,0% para 15,3% — o valor mais alto da série histórica.

E há um terceiro número que compromete a leitura de todos os outros: em 2023, 11,7% dos casos tiveram encerramento desconhecido — pessoas transferidas ou não avaliadas. Ou seja, em um a cada oito casos, o sistema simplesmente perdeu a pessoa de vista.

As maiores proporções de interrupção do tratamento foram registradas em Rondônia (28,8%), Rio Grande do Sul (19,1%), Santa Catarina (18,4%) e Amazonas (18,4%). Em Rondônia, quase três em cada dez pessoas que começaram o tratamento não o terminaram.

Uma pessoa que abandona o tratamento não é uma pessoa negligente. Na maioria das vezes, é alguém que precisou escolher entre a consulta e o dia de trabalho, que não tinha passagem de ônibus, que não tem endereço fixo para receber a equipe, ou que se sentiu melhor e ninguém explicou direito por que precisava continuar.

— Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)

Quem adoece de tuberculose no Brasil

Vala de esgoto a céu aberto passando entre casas de uma comunidade
ETuberculose é a segunda doença infecciosa que mais mata no Brasil. Foto: Envato Elements

O perfil das pessoas diagnosticadas diz muito sobre a natureza da doença.

  • 68,2% são homens (57.506 dos 84.308 casos de 2024);
  • 65,8% se declaram pretas ou pardas — proporção que subiu de 57,1% em 2013 para 65,8% em 2024;
  • Os maiores coeficientes de incidência estão na faixa de 20 a 34 anos, ou seja, na população economicamente ativa;
  • 4,1% dos casos ocorreram em crianças e adolescentes de até 15 anos.

O próprio Ministério da Saúde é explícito sobre o significado desse dado. O boletim afirma que a relação entre tuberculose e pobreza é bidirecional: a pobreza se associa a condições precárias de saúde, e essas condições, por sua vez, perpetuam a pobreza. E acrescenta que populações pretas e pardas enfrentam historicamente menor escolaridade, menor renda e acesso limitado aos serviços de saúde — daí a maior prevalência.

O documento conclui pela necessidade de fortalecer políticas de proteção social e de enfrentamento à discriminação e ao racismo, que agravam as desigualdades no acesso à saúde. Não é interpretação do MNDN. Está no boletim oficial.

As populações que a doença encontra primeiro

Aqui os números deixam de ser estatística e viram retrato social. O boletim compara o risco de adoecer por tuberculose de cada grupo em relação à população geral:

  • Pessoas em situação de rua: risco 54 vezes maior. Representaram 3,6% dos casos novos em 2024;
  • Pessoas privadas de liberdade: risco 26 vezes maior. Foram 8,1% dos casos novos;
  • Pessoas vivendo com HIV ou aids: risco 23 vezes maior. Concentraram 11,4% dos casos;
  • Imigrantes: risco 5,8 vezes maior. Representaram 0,6% dos casos;
  • Indígenas: risco 1,7 vez maior. Foram 1% dos casos novos.

Repare no caso das pessoas privadas de liberdade. Elas são cerca de 0,4% da população brasileira, mas responderam por 8,2% dos casos novos de tuberculose notificados em 2024 — 7.015 casos. O Ministério da Saúde atribui isso a celas mal ventiladas, pouca iluminação solar e dificuldade de conseguir atendimento de saúde.

E o boletim faz uma observação que costuma passar despercebida: as transferências entre prisões, as altas taxas de reencarceramento e a circulação constante de profissionais de saúde, segurança, educação e familiares também representam risco para as comunidades fora das prisões. A tuberculose não fica atrás das grades.

O número mais grave desta reportagem

Entre as pessoas em situação de rua diagnosticadas com tuberculose em 2023:

  • Apenas 29,2% se curaram (857 pessoas);
  • 40,8% interromperam o tratamento (1.197 pessoas);
  • 15,2% morreram (447 pessoas).

Menos de um terço de cura, numa doença curável, com remédio gratuito disponível em todo o país. Mais gente abandonando o tratamento do que se curando.

Em 2024, foram registrados 3.042 casos novos de tuberculose em pessoas em situação de rua — o maior número desde 2015. O boletim pondera que esse crescimento pode refletir tanto maior acesso ao diagnóstico quanto o próprio aumento da população em situação de rua no Brasil.

Os outros grupos também tiveram queda na cura em 2023: pessoas privadas de liberdade (71,6%), indígenas (66,1%), imigrantes (55,6%) e até profissionais de saúde (77,4%, contra 84,3% em 2021).

Quando 40,8% das pessoas em situação de rua interrompem o tratamento, o problema não está nelas. Está num modelo de cuidado que exige endereço fixo, documento, horário comercial e deslocamento — coisas que a rua não oferece. O tratamento é gratuito, mas chegar até ele não é.

— Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)

Adoecer de tuberculose empobrece

Vala de esgoto a céu aberto passando entre casas de uma comunidade
pobreza produz tuberculose

Este é um dos dados mais reveladores e menos divulgados do boletim.

A primeira pesquisa nacional de custos catastróficos de pessoas com tuberculose no Brasil, realizada pela Universidade Federal do Espírito Santo entre 2019 e 2021 com apoio do Ministério da Saúde, mostrou que 48% das pessoas tiveram custos iguais ou superiores a 20% de sua renda familiar anual durante o episódio da doença.

Quase metade. E não se trata do remédio, que é gratuito: são transporte, alimentação, exames complementares, dias de trabalho perdidos, renda que deixou de entrar.

Ou seja: a pobreza produz tuberculose, e a tuberculose aprofunda a pobreza. É o ciclo que o próprio Ministério da Saúde descreve como bidirecional — agora com número.

A segunda edição dessa pesquisa começou em 2024, com término previsto para 2026.

A boa notícia: proteção social funciona

Se a tuberculose é socialmente determinada, então política social é política de saúde. E há evidência para isso.

O boletim cita estudos que identificaram associação do Programa Bolsa Família com o aumento na proporção de cura da doença e com a redução da mortalidade e da incidência por tuberculose. E registra que a associação foi particularmente mais expressiva entre pessoas em extrema pobreza e entre grupos étnico-raciais historicamente mais vulnerabilizados, como indígenas e negros.

Há ainda uma projeção que merece destaque: estudos indicam que a ampliação da cobertura da proteção social poderia resultar em redução anual de 9% na incidência de tuberculose, chegando a uma diminuição acumulada de 76,1% até 2035.

  • Leia esse número de novo: ampliar proteção social pode reduzir em até 76,1% a incidência de tuberculose até 2035. Nenhum medicamento novo promete tanto. E a tecnologia já existe — chama-se transferência de renda.

Tuberculose resistente: quando o tratamento falha

A tuberculose drogarresistente ocorre quando a bactéria deixa de responder aos medicamentos principais. É mais cara, mais longa e mais letal.

Entre 2015 e 2024 foram notificados 20.628 casos novos de tuberculose drogarresistente no país, sendo 1.047 em 2024. Todas as unidades da federação registraram ao menos um caso.

A concentração é urbana e conhecida: entre 2020 e 2024, os municípios com mais casos foram Rio de Janeiro (651), Manaus (397), São Paulo (394), Belém (245) e Porto Alegre (176).

E o desfecho piorou: a interrupção do tratamento da tuberculose resistente atingiu 26,3% em 2022, o maior valor da série histórica.

Há avanço a registrar: o SUS incorporou a pretomanida, que reduziu o tempo de tratamento da forma resistente de 18 para 6 meses. É uma mudança grande na vida de quem precisa.

Prevenção: o tratamento que evita a doença

Vala de esgoto a céu aberto passando entre casas de uma comunidade
vacina BCG, aplicada em recém-nascidos, continua sendo essencial contra as formas graves

Existe uma estratégia que quase ninguém conhece fora da área da saúde: o Tratamento Preventivo da Tuberculose (TPT), oferecido a quem tem infecção latente — está infectado, mas ainda não adoeceu.

Em 2024, 56.079 pessoas iniciaram o TPT. Metade delas (50,5%) por serem contatos de casos de tuberculose, e 20,9% por viverem com HIV ou aids.

O esquema mais moderno, chamado 3HP, é tomado uma vez por semana durante três meses. Seu uso cresceu 189,3% entre 2022 e 2024, e ele apresenta a maior taxa de conclusão entre todos os esquemas: 79,7%.

A investigação de contatos é a peça-chave dessa política. A meta nacional é avaliar 70% dos contatos de casos novos confirmados. Em 2023, o Brasil avaliou 68,6% — perto, mas ainda abaixo.

E a vacina BCG, aplicada em recém-nascidos, continua sendo essencial contra as formas graves da doença na infância. A cobertura ao nascer subiu de 84,3% em 2023 para 92,3% em 2024.

Linha do tempo: como chegamos até aqui

  • 2017 — O plano nacional O Brasil lança o Plano Nacional pelo Fim da Tuberculose como Problema de Saúde Pública, com quatro fases de execução até 2035.
  • 2019 — O melhor momento recente A proporção de cura de tuberculose pulmonar confirmada laboratorialmente atinge 74,2%, o melhor patamar do período analisado.
  • 2020 — A pandemia interrompe A detecção de casos despenca com o impacto da covid-19 na rede de atenção. A incidência cai a 33,3 por 100 mil — não por controle da doença, mas por falta de diagnóstico.
  • 2021 a 2023 — A recuperação e o custo dela A detecção se recupera e a incidência sobe para 40,1 por 100 mil em 2023, patamar não visto em mais de 12 anos. Mas os óbitos crescem 31,9% entre 2020 e 2023 e ultrapassam 6 mil ao ano.
  • 2023 — Nasce o CIEDDS O Decreto nº 11.494 cria o Comitê Interministerial para a Eliminação da Tuberculose e de Outras Doenças Determinadas Socialmente.
  • 2024 — Brasil Saudável O Decreto nº 11.908 institui o programa Brasil Saudável, com 14 ministérios. O Brasil se torna o primeiro país do mundo com política governamental para eliminar a tuberculose e outras doenças socialmente determinadas, antecipando em cinco anos a meta original.
  • 2024 — O reforço orçamentário Portarias ministeriais aprovam incremento de R$ 100 milhões para ações de vigilância, prevenção e controle. Ficam habilitados 916 municípios, 24 secretarias estaduais e o Distrito Federal.
  • 2026 a 2030 — O prazo Restam quatro anos para a meta de eliminar a tuberculose como problema de saúde pública. A cura precisa subir de 66% para 77,5% até 2027, conforme o planejamento do próprio Ministério da Saúde.

Perguntas que o MNDN dirige aos gestores

São perguntas de interesse público, dirigidas ao Ministério da Saúde e aos gestores estaduais e municipais:

  • Que ações concretas estão previstas para reverter a queda da proporção de cura, que caiu de 74,2% em 2019 para 66,0% em 2023, e alcançar a meta de 77,5% até 2027?
  • Quais medidas específicas estão sendo adotadas para as pessoas em situação de rua, cuja cura foi de apenas 29,2% e cuja interrupção de tratamento chegou a 40,8%?
  • Como está sendo enfrentado o índice de 11,7% de casos com encerramento desconhecido, que compromete a leitura de todos os demais indicadores?
  • Que apoio está previsto para Rondônia, onde 28,8% das pessoas interrompem o tratamento?
  • Os R$ 100 milhões de incremento chegaram aos 916 municípios habilitados? Há relatório público de execução?
  • Diante da evidência de que a proteção social pode reduzir a incidência em até 76,1% até 2035, como Saúde e Assistência Social estão articuladas no território para garantir renda, transporte e alimentação a quem está em tratamento?
  • Como as pessoas afetadas pela tuberculose participam da formulação e da avaliação dessas políticas?

A posição do Movimento

Vala de esgoto a céu aberto passando entre casas de uma comunidade
reconhecer avanço não é aceitar que as mortes voltem ao nível de 1999

O MNDN reconhece os avanços, e eles são reais: ampliação do teste rápido molecular, redução do tratamento da forma resistente de 18 para 6 meses, crescimento de 189% no uso do esquema preventivo 3HP, cobertura de BCG em 92,3%, e uma política interministerial pioneira no mundo. O Brasil não está parado.

Mas reconhecer avanço não é aceitar que as mortes voltem ao nível de 1999. Nossa posição:

  • Cuidado que vai até a pessoa. Enquanto o modelo exigir endereço fixo e horário comercial, a população em situação de rua vai continuar com 29,2% de cura. Consultório na rua, busca ativa e tratamento diretamente observado precisam ser regra, não exceção;
  • Proteção social como parte do tratamento. Vale-transporte, cesta básica e transferência de renda têm efeito comprovado sobre a cura. Devem ser prescritos junto com o remédio;
  • Enfrentar o racismo no acesso à saúde. O próprio boletim aponta isso. 65,8% dos casos em pessoas pretas e pardas não é coincidência estatística;
  • Prioridade absoluta ao sistema prisional. Ambiente que produz doença e a devolve para a comunidade externa;
  • Fortalecer Agentes Comunitários de Saúde e Agentes de Combate às Endemias, que são quem consegue chegar às famílias e sustentar o tratamento até o fim;
  • Participação social real na definição e na avaliação das políticas, com assento para pessoas afetadas.

As doenças negligenciadas não começam no consultório nem terminam no medicamento. Elas têm origem nas condições em que as pessoas vivem. Quando falamos em eliminar essas doenças, estamos falando de saneamento básico, água tratada, coleta de lixo, tratamento de esgoto, moradia digna, educação em saúde e redução das desigualdades.

— João Victor Pacheco Fos Kersul de Carvalho, Presidente do MNDN

A tuberculose tem cura há mais de setenta anos. O que mata não é a bactéria: é a distância entre o remédio e a pessoa. Faltam quatro anos para 2030, e essa distância se mede em passagem de ônibus, em endereço, em dia de trabalho perdido e em cor da pele.

Fontes e referências

  • BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Boletim Epidemiológico de Tuberculose 2025. Número Especial, março de 2025. Brasília: MS, 2025. Acesse o boletim completo.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Populações em situação de vulnerabilidade — Tuberculose. gov.br/saude.
  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. Global Tuberculosis Report 2024. Genebra: WHO, 2024.
  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. The End TB Strategy. Genebra: WHO, 2014.
  • GUIDONI, L. M. et al. Pesquisa nacional de custos catastróficos de pessoas com tuberculose no Brasil. Universidade Federal do Espírito Santo, 2021.
  • CARTER, D. J. et al. The impact of social protection and poverty elimination on global tuberculosis incidence. 2018.
  • BRASIL. Decreto nº 11.908, de 2024 — institui o Programa Brasil Saudável. E Decreto nº 11.494, de 2023 — institui o CIEDDS.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil, 2019.
  • Esta matéria tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Se você tem tosse há três semanas ou mais, procure uma Unidade Básica de Saúde. O exame e o tratamento são gratuitos pelo SUS. Todos os dados citados são preliminares e sujeitos a alteração, conforme indicado pelo próprio Ministério da Saúde.

🔴 Quer saber mais sobre doenças negligenciadas?

Participe do nosso movimento e receba informações sobre mutirões e campanhas.

Quero participar →