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Violência contra a Mulher em Pernambuco: os Dados por Trás do Diálogo do MNDN

🌸 Participação Social & Violência contra a Mulher

Pernambuco registrou uma média de 137,3 casos de violência contra a mulher por dia nos dois primeiros meses de 2026. Foi nesse cenário que o Grupo Saúde promoveu um diálogo sobre o tema com a psicóloga do TJPE Dra. Paula, contando com a participação de Maurineia, coordenadora estadual do MNDN em Pernambuco.

Esta reportagem tem cards interativos e três gráficos de dados. Toque neles ao longo do texto para ver mais.

Uma roda de conversa não muda uma estatística sozinha. Mas é dentro de espaços como o Grupo Saúde, em Pernambuco, que a informação técnica sobre a Lei Maria da Penha e a rede de proteção à mulher chega a quem mais precisa dela, muitas vezes antes mesmo de uma denúncia ser feita. O grupo recebeu a psicóloga Dra. Paula, do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), para tratar de direitos das mulheres, leis de proteção e serviços disponíveis na rede de atendimento. A atividade também contou com Maurineia, coordenadora estadual do MNDN em Pernambuco, reforçando a participação social como ferramenta de enfrentamento à violência. A seguir, os dados que dão dimensão ao problema, no Brasil, em Pernambuco, e na conexão pouco discutida entre violência de gênero e doenças negligenciadas.

Participantes do Grupo Saúde reunidos em atividade sobre violência contra a mulher em Pernambuco
Participantes do Grupo Saúde durante a atividade de conscientização sobre violência contra a mulher, com a presença da psicóloga do TJPE, Dra. Paula, e da coordenadora estadual do MNDN em Pernambuco, Maurineia Roseno de Vasconcelos. Foto: acervo MNDN.

O diálogo: direitos, leis de proteção e rede de atendimento

Durante o encontro, a psicóloga do TJPE conduziu uma conversa sobre os direitos das mulheres, as leis de proteção existentes e os serviços disponíveis na rede de atendimento, desde canais de denúncia até medidas protetivas de urgência. No Judiciário de Pernambuco, esse tipo de atividade de conscientização costuma estar ligado à Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar, estrutura do TJPE responsável por articular varas especializadas, equipes multidisciplinares de psicologia e serviço social, e ações educativas nas comunidades.

A Lei nº 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha, define violência doméstica e familiar contra a mulher como qualquer ação ou omissão baseada no gênero que cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico, além de dano moral ou patrimonial. A lei reconhece cinco formas de violência, física, psicológica, sexual, patrimonial e moral, e prevê medidas protetivas de urgência, que podem incluir afastamento do agressor do lar e proibição de aproximação da vítima.

Fonte: Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha), citada pelo Ministério das Mulheres e por reportagens do Diário de Pernambuco sobre o tema.

Um dos registros da atividade mostra exatamente esse espírito reforçando que a pauta da violência contra a mulher já foi incorporada ao trabalho de base do MNDN em Pernambuco.

Vídeo: Grupo Saúde Clementino

Registro em vídeo .

Vídeo: registro da atividade do Grupo Saúde, Pernambuco. Acervo MNDN.

Quem conduziu a atividade: a Dra. Paula e a rede de psicologia judicial

Ter uma psicóloga do TJPE à frente da conversa não é um detalhe qualquer. Em varas de violência doméstica pelo país, é justamente esse profissional quem lida diariamente com a parte da violência que não aparece em nenhuma estatística de segurança pública: o medo de romper o ciclo, a dependência emocional ou financeira do agressor, e o impacto psicológico que fica mesmo depois de uma medida protetiva concedida. Levar esse olhar técnico para dentro de um grupo comunitário como o Grupo Saúde aproxima a linguagem do Judiciário da realidade de quem vive a violência, ou de quem convive com alguém que vive.

Psicóloga Dra. Paula, do TJPE, ministrando a atividade sobre violência contra a mulher para o Grupo Saúde
A psicóloga Dra. Paula, do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), ministrando a atividade sobre direitos das mulheres, leis de proteção e rede de atendimento para o Grupo Saúde. Foto: acervo MNDN.

Violência contra a mulher: os números do Brasil em 2026

O tema tratado no Grupo Saúde não é um problema pontual, é uma das poucas estatísticas de violência que segue batendo recorde mesmo enquanto a criminalidade geral do país recua. O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2026 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mostra o retrato mais recente.

  • 1.571 feminicídios foram registrados no Brasil em 2025, recorde da série histórica iniciada em 2015 e quarto ano seguido de alta, um crescimento de 4% em relação a 2024;
  • as vítimas foram, em sua maioria, mulheres negras (65,1%), entre 25 e 44 anos (56,5%), mortas dentro de casa (62,5%) por parceiros ou ex-parceiros (60,9%);
  • enquanto isso, as Mortes Violentas Intencionais em geral caíram 8,2% no país, evidência de que a queda da violência não chega igualmente a todos os grupos;
  • apenas 44,4% dos homicídios de mulheres registrados no Brasil em 2025 foram classificados pela polícia como feminicídio, com variação enorme entre estados (de 15,8% no Ceará a cerca de 70% no Acre, Distrito Federal e Sergipe), um problema de padronização que distorce comparações entre estados.

Tipos de violência denunciados ao Ligue 180 em 2025

Do total de 155.111 denúncias recebidas pela Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180) em 2025, esta é a proporção por tipo de violência relatada.

Violência psicológica: 49,9%. Violência física: 15,3%. Violência patrimonial: 5,4%. Violência sexual: 3,0%. Sequestro/cárcere privado: 0,4%.

Fonte: Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, Ministério das Mulheres (dados de 2025, divulgados em abril de 2026).

👆 Toque aqui para ver o que a OMS chamou de “crise de direitos humanos mais negligenciada do mundo”.

Ainda não revelado. Toque no card acima.

Os números do Ligue 180 também mostram onde a violência mais acontece: quase 70% dos casos ocorreram em ambiente doméstico, 40,76% na própria residência da vítima, 28,58% em casa compartilhada com o agressor e 5,39% na casa do agressor. E 66,3% das denúncias partiram da própria vítima, o que a coordenação do serviço interpreta como sinal de confiança crescente no canal, não apenas de aumento da violência em si.

Pernambuco: mais de 130 casos por dia

Pernambuco, estado onde a atividade do Grupo Saúde aconteceu, tem seus próprios números, acompanhados mês a mês pela Secretaria de Defesa Social (SDS-PE).

  • nos dois primeiros meses de 2026, o estado registrou 8.103 casos entre feminicídios, mortes intencionais e violência doméstica contra a mulher, uma média de 137,3 casos por dia;
  • foram 18 feminicídios só em janeiro e fevereiro de 2026 (10 e 8, respectivamente), quase um assassinato a cada três dias;
  • em 2025, Pernambuco somou 82 feminicídios entre janeiro e novembro, superando os 76 registrados em todo o ano de 2024, alta de 20,5%;
  • até outubro de 2025, o estado contabilizou 34.679 vítimas de violência doméstica;
  • entre 2024 e 2025, a Patrulha Maria da Penha de Pernambuco realizou 63.084 diligências e acompanhou 14.672 mulheres com medidas protetivas de urgência; somente em 2025, 3.802 mulheres ingressaram no programa, com 20.725 atendimentos.

Feminicídios consumados em Pernambuco

Comparação entre o total de feminicídios de 2024 (ano completo) e o acumulado de 2025 até novembro, os únicos recortes com dado oficial confirmado até o fechamento desta matéria.

2024 (ano completo): 76 feminicídios. 2025 (janeiro a novembro): 82 feminicídios.

Fontes: Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS-PE), via Diário de Pernambuco (25/11/2025 e 19/03/2026).

A delegada Bruna Falcão, do Departamento de Polícia da Mulher de Pernambuco, chamou atenção para um dado que costuma passar despercebido: entre 80% e 85% das mulheres mortas por razões de gênero no estado nunca haviam registrado ocorrência prévia contra o agressor. É exatamente essa lacuna, entre o medo de denunciar e o momento em que a violência se torna fatal, que atividades como a do Grupo Saúde tentam reduzir, levando informação sobre a rede de proteção antes que a situação chegue ao limite.

Uma denúncia que nunca foi feita não aparece em nenhuma estatística, mas é exatamente essa ausência que mata. Informação é a primeira barreira de proteção.

Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)
Viatura ou equipe da Patrulha Maria da Penha em atendimento em Pernambuco
A atuação da Patrulha Maria da Penha foi intensificada em Pernambuco, ampliando o apoio às mulheres vítimas de violência em todas as regiões do Estado

Por que essa participação importa: quem é Maurineia Roseno de Vasconcelos

Um dado técnico sobre a Lei Maria da Penha só vira proteção real quando alguém o carrega para dentro de um grupo de convivência, de uma roda de conversa, de um espaço onde pessoas já confiam umas nas outras. É esse o papel que a participação social cumpre, e é esse o papel que Maurineia Roseno de Vasconcelos, coordenadora estadual do Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN) em Pernambuco, exerce ao levar o movimento para dentro de atividades como a do Grupo Saúde. Os números de Pernambuco mostrados acima não são abstratos para quem, como ela, atua diretamente no território onde esses casos acontecem.

Maurineia Roseno de Vasconcelos, coordenadora estadual do MNDN em Pernambuco
Maurineia Roseno de Vasconcelos, moradora da Região Metropolitana do Recife e coordenadora estadual do Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN) em Pernambuco. Foto: acervo MNDN.

Maurineia mora na Região Metropolitana do Recife e é a coordenadora estadual do MNDN em Pernambuco, ponto de contato do movimento no estado para pautas que vão das doenças tropicais negligenciadas à participação em fóruns e atividades de saúde coletiva, como a que reuniu o Grupo Saúde. É esse tipo de presença, de alguém do território, com rosto e nome conhecidos pela comunidade, que diferencia uma campanha de conscientização de cima para baixo de um trabalho de base que efetivamente chega a quem precisa da informação.

Porque coordenadoras estaduais como Maurineia não atuam isoladas em uma única pauta. Na prática, a mesma rede de confiança comunitária que ajuda a levar informação sobre hanseníase, esquistossomose ou doença de Chagas para dentro de um bairro é a rede que também consegue levar informação sobre a Lei Maria da Penha, sobre o Ligue 180 e sobre medidas protetivas. Participação social não se divide por doença ou por pauta: ela se constrói, se mantém e se reforça a cada atividade, seja qual for o tema do dia.

Fonte: coordenação estadual do MNDN em Pernambuco.

O que mudou: pela primeira vez em 20 anos, uma queda

Nem tudo nos números é só recorde de alta. A 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do Instituto DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal, entrevistou 21.641 mulheres em todo o país entre maio e julho de 2025, a maior amostra da série histórica iniciada em 2005, ano em que a pesquisa serviu de base para a formulação da própria Lei Maria da Penha.

  • 3,7 milhões de brasileiras declararam ter sofrido violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores à pesquisa de 2025;
  • esse percentual caiu de 7% (2023) para 4% (2025), a primeira queda estatisticamente significativa da série desde que a pergunta passou a ser feita;
  • mesmo com a queda recente, a proporção de mulheres que relatam ter sofrido violência em algum momento da vida saltou de 17% em 2005 para 30% em 2023, o que pode refletir tanto aumento real quanto maior disposição para relatar;
  • o dado mais alarmante da edição de 2025 não é a frequência, mas o contexto: em 71% dos casos, a agressão aconteceu na presença de outras pessoas, na maioria, filhos e filhas das próprias vítimas; e quase 60% das mulheres agredidas enfrentam episódios recorrentes, com a última agressão há menos de seis meses.

Mulheres que declararam violência doméstica nos últimos 12 meses

Percentual de entrevistadas que relataram ter sofrido violência doméstica ou familiar no ano anterior à pesquisa, a primeira queda registrada na série histórica do DataSenado.

2023: 7% das mulheres entrevistadas. 2025: 4% das mulheres entrevistadas.

Fonte: Instituto DataSenado / Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), Senado Federal, Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, 11ª edição (2025).

A explicação para a queda recente não é simples, e a própria coordenação da pesquisa evita comemorar cedo demais: parte da redução pode refletir avanço real das políticas de prevenção, mas parte também pode estar associada a mudanças na forma de perguntar e a maior cautela das entrevistadas em relatar violência recente por telefone. De qualquer forma, o dado de que 71% das agressões acontecem diante de outras pessoas, sobretudo crianças, reforça um ponto que o MNDN já defende em outras pautas de saúde: violência, assim como doença negligenciada, raramente fica contida em quem a sofre diretamente; ela se propaga para dentro da família e da comunidade.

O custo econômico, além do custo humano

Violência contra a mulher também tem preço, e ele aparece na economia como um todo, não só no orçamento de saúde ou segurança pública. Um estudo da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) quantificou esse impacto ao longo de uma década.

  • em dez anos, a violência contra a mulher produziu um impacto negativo estimado em R$ 214,42 bilhões no PIB brasileiro (em cenário mais extremo, a perda pode ultrapassar R$ 300 bilhões);
  • o fenômeno é associado ao fechamento de 1,96 milhão de postos de trabalho no período, com perda de R$ 91,44 bilhões em salários e R$ 16,44 bilhões em arrecadação tributária;
  • cerca de 12,5% das trabalhadoras brasileiras, o equivalente a 3,3 milhões de mulheres, relataram algum tipo de violência doméstica nos últimos 12 meses, e 25% delas faltaram ao trabalho pelo menos uma vez por causa disso;
  • estudos anteriores, como o do Banco Mundial, já apontavam que a violência doméstica custa cerca de R$ 1 bilhão por ano ao Brasil apenas em impactos diretos no mercado de trabalho.

A economista-chefe da Fiemg responsável pelo levantamento, Daniela Britto, reforça que mesmo esses números são subestimados, porque grande parte das mulheres em situação de violência não chega a registrar boletim de ocorrência, o mesmo problema de subnotificação que atravessa toda esta matéria, da saúde à segurança pública.

A rede de proteção que ainda está sendo construída em Pernambuco

Enquanto os números de violência crescem, a estrutura de acolhimento também está em obra, literalmente. Em janeiro de 2025, o Governo de Pernambuco assinou um repasse de R$ 19,2 milhões, via Caixa Econômica Federal, para construir a primeira Casa da Mulher Brasileira do estado, no Recife. Outras duas unidades, em Caruaru e Petrolina, regiões apontadas pelo próprio governo estadual como as de maior índice de violência doméstica fora da capital, também estão previstas, parte de um plano nacional que prevê 40 novas Casas da Mulher Brasileira em todo o país.

A Casa da Mulher Brasileira reúne, num só endereço, os principais serviços que uma mulher em situação de violência precisa acessar: acolhimento e triagem, apoio psicossocial, delegacia especializada, juizado, Ministério Público, Defensoria Pública e ações de promoção de autonomia econômica. O modelo também prevê brinquedoteca para as crianças que acompanham as mães, alojamento temporário e transporte, quando necessário, uma tentativa de reduzir a “rota crítica” que hoje obriga a mulher a percorrer vários endereços diferentes para buscar proteção.

Fonte: Ministério das Mulheres, citado pelo Diário de Pernambuco (10/01/2025).

No Judiciário, a Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do TJPE, presidida pela desembargadora Daisy Andrade, tem sido a instância responsável por articular varas especializadas, equipes multidisciplinares e ações educativas como a que reuniu o Grupo Saúde. Em fevereiro de 2026, o tema ganhou também um capítulo nacional: os presidentes da República, do Senado, da Câmara dos Deputados e do Supremo Tribunal Federal assinaram, em cerimônia conjunta no Palácio do Planalto, o Pacto Nacional Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio, reunindo os três Poderes em um compromisso formal de ação integrada entre União, estados e municípios.

É dentro dessa rede em construção, parte já funcionando, parte ainda em obra, que atividades de base como a do Grupo Saúde cumprem um papel que nenhuma Casa da Mulher Brasileira, sozinha, consegue cumprir: chegar antes, em espaços comunitários, com informação que pode evitar que uma mulher chegue à rede de proteção tarde demais.

O elo com as doenças negligenciadas: por que o MNDN participa desse debate

Pode parecer, à primeira vista, que violência contra a mulher e doenças tropicais negligenciadas são pautas distantes. Não são. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Ocidental Africana de Saúde documentam que mulheres e meninas são desproporcionalmente afetadas pelas doenças negligenciadas justamente por causa de papéis de gênero, menor autonomia financeira, que limita o acesso a cuidados de saúde, e maior exposição ao estigma e à discriminação associados a essas doenças. A esquistossomose genital, por exemplo, é uma manifestação da doença com alta chance de ser mal diagnosticada ou subestimada em mulheres.

Há ainda a questão do cuidado. Segundo relatório da OMS de 2024, mulheres compõem 67% da força de trabalho global em saúde e cuidados, mas realizam 76% de todo o trabalho de cuidado não remunerado no mundo, cuidar de crianças, idosos e familiares doentes, incluindo pessoas convivendo com doenças negligenciadas. Essa sobrecarga de cuidado, somada a relações domésticas marcadas por violência, cria um ciclo em que a mulher tem menos tempo, menos autonomia financeira e menos liberdade de movimento para buscar diagnóstico e tratamento, para si mesma ou para quem ela cuida.

Desde 2011, a notificação de violência doméstica e familiar em serviços de saúde públicos e privados é compulsória no Brasil, registrada no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) do Ministério da Saúde. Em 2014, a Portaria nº 1.271 tornou a notificação imediata, em até 24 horas, para casos de violência sexual. Isso coloca a violência contra a mulher na mesma categoria de vigilância epidemiológica das doenças negligenciadas: um agravo que só existe nas estatísticas oficiais quando o profissional de saúde o registra. E, como nas doenças negligenciadas, a subnotificação é grave: estima-se que ocorram 822 mil casos de estupro por ano no Brasil, mas apenas 4,2% chegam a ser identificados pelo sistema de saúde.

Fontes: Lei nº 12.845/2013 e Portaria nº 1.271/2014 (Ministério da Saúde); estudo publicado no Boletim GHC sobre notificação de violência via SINAN.

É por isso que o MNDN, movimento nascido para cobrar visibilidade e dados sobre doenças que o Estado historicamente deixa de medir, também se soma a diálogos sobre violência de gênero: os dois problemas compartilham o mesmo sintoma estrutural, o que não é medido nem debatido publicamente tende a ser tratado como menos urgente pelo poder público, mesmo matando ou adoecendo milhares de pessoas todos os anos.

Perguntas que o MNDN dirige ao poder público

  • Existe, no Portal da Transparência de Pernambuco, um painel público que discrimine, por município, quanto foi de fato executado (e não apenas orçado) nos programas de enfrentamento à violência contra a mulher, como a Patrulha Maria da Penha e as Casas da Mulher?
  • Por que o Brasil ainda não conseguiu padronizar a classificação de feminicídio entre os estados, a ponto de a mesma morte violenta de uma mulher poder ser registrada como feminicídio em um estado e como homicídio comum em outro?
  • Existe integração de dados entre a Secretaria de Defesa Social, o TJPE e a Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco, de forma que uma mulher notificada por violência no SUS também seja identificada pela rede de proteção judicial, e vice-versa?
  • Quantas mulheres atendidas pela rede de proteção contra violência em Pernambuco recebem também rastreio ou orientação sobre outros agravos de saúde associados à vulnerabilidade social, incluindo doenças negligenciadas?
  • Qual o investimento real em capacitação de profissionais de saúde da atenção básica para a notificação compulsória de violência no SINAN, e por que a subnotificação de casos de violência sexual segue tão alta?

A posição do Movimento

Logo do Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas
As perguntas acima são formuladas pelo MNDN no exercício do controle social previsto na Lei nº 8.142/1990. Arte: MNDN

Iniciativas como a Patrulha Maria da Penha e o Ligue 180 são conquistas reais, o crescimento de 45% nos atendimentos e de 17,4% nas denúncias em 2025 indica que mais mulheres estão confiando na rede de proteção. Mas confiança crescente no canal de denúncia não substitui prevenção: enquanto o feminicídio bate recorde pelo quarto ano seguido no Brasil, e enquanto 8 em cada 10 mulheres mortas por razões de gênero em Pernambuco nunca haviam denunciado antes, fica claro que a informação ainda não chega a tempo para todo mundo. Nossa posição:

  • Participação social permanente: atividades como a do Grupo Saúde, com participação de lideranças como a coordenadora estadual do MNDN em Pernambuco, devem ser incentivadas e multiplicadas em espaços comunitários e de saúde;
  • Integração de dados entre saúde, justiça e segurança pública: uma mulher notificada por violência em uma unidade de saúde não pode “desaparecer” do radar da rede de proteção judicial;
  • Padronização nacional da classificação de feminicídio: a variação de até 54 pontos percentuais entre estados na classificação de mortes violentas de mulheres compromete o planejamento de políticas públicas;
  • Reconhecimento da sobrecarga de cuidado como fator de vulnerabilidade: políticas de enfrentamento à violência precisam dialogar com políticas de valorização do trabalho de cuidado, historicamente exercido por mulheres;
  • Transparência orçamentária real: painéis públicos que mostrem quanto foi efetivamente executado, e não apenas planejado, em programas de proteção à mulher.

Doença negligenciada e violência contra a mulher compartilham o mesmo diagnóstico: o que o Estado não mede direito, ele também não enfrenta direito. Participação social, como a de Maurineia em Pernambuco, é o que força esse dado a existir.

João Victor Pacheco Fós Kersul de Carvalho, Presidente do MNDN

Perguntas frequentes sobre violência contra a mulher

Uma mulher em situação de violência em Pernambuco pode ligar para o 180 (Central de Atendimento à Mulher, gratuita e nacional), para o 190 (emergências policiais), para o 181 ou 0800.081.5001 (Disque Denúncia anônimo), ou para a Ouvidoria Estadual da Mulher pelo 0800.281.8187. Também é possível procurar diretamente uma Delegacia da Mulher ou uma Casa da Mulher Brasileira.

Feminicídio é o assassinato de uma mulher motivado por razões de gênero, geralmente por parceiro, ex-parceiro ou familiar, no contexto de violência doméstica ou de menosprezo à condição de mulher. Nem toda morte violenta de uma mulher é classificada dessa forma pelas polícias, o que gera a variação entre estados mostrada nesta matéria: em alguns lugares, mais de 2 em cada 3 mortes violentas de mulheres recebem essa classificação; em outros, menos de 2 em cada 10.

Porque cada fonte mede uma etapa diferente do problema: o Ligue 180 registra denúncias e pedidos de informação recebidos por telefone, WhatsApp e e-mail; a Secretaria de Defesa Social registra boletins de ocorrência policial; e o SINAN, do Ministério da Saúde, registra os casos notificados por profissionais de saúde. Como a subnotificação é alta em todas as três portas de entrada, nenhum número isolado captura o tamanho real do problema, por isso o MNDN sempre cruza mais de uma fonte oficial.

Mulheres e meninas são desproporcionalmente afetadas por doenças tropicais negligenciadas devido a papéis de gênero, menor autonomia financeira e maior exposição ao estigma, segundo documentos da OMS. Além disso, mulheres realizam a maior parte do trabalho de cuidado não remunerado com familiares doentes, o que, somado a relações domésticas violentas, reduz ainda mais o tempo e a autonomia para buscar diagnóstico e tratamento, tanto para doenças negligenciadas quanto para a própria situação de violência.

Sim, e é um custo alto. Um estudo da Fiemg estima que, em dez anos, a violência contra a mulher gerou impacto negativo de R$ 214,42 bilhões no PIB brasileiro, associado ao fechamento de 1,96 milhão de postos de trabalho. Cerca de 12,5% das trabalhadoras brasileiras relataram algum tipo de violência doméstica nos últimos 12 meses, e um quarto delas faltou ao trabalho por causa disso pelo menos uma vez.

É um equipamento público que reúne, num só endereço, delegacia especializada, juizado, Ministério Público, Defensoria Pública, apoio psicossocial e ações de autonomia econômica para mulheres em situação de violência. Pernambuco terá três unidades, em Recife, Caruaru e Petrolina, parte de um plano nacional de 40 novas Casas da Mulher Brasileira. A construção da unidade do Recife foi viabilizada por um repasse de R$ 19,2 milhões assinado em janeiro de 2025.

Fontes e referências

  • FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA (FBSP). 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026. 23 jul. 2026. opovo.com.br.
  • O POVO. Ceará teve maior taxa de homicídios femininos do Brasil em 2025, revela Anuário. 23 jul. 2026. opovo.com.br.
  • MINISTÉRIO DAS MULHERES. Ligue 180 supera 1 milhão de atendimentos a mulheres vítimas de violência em 2025. Divulgado em 14 abr. 2026. sbtnews.sbt.com.br.
  • JORNAL DE BRASÍLIA. Ligue 180 registra aumento de 45% nos atendimentos em 2025. 15 abr. 2026. jornaldebrasilia.com.br.
  • ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Relatório sobre violência contra mulheres 2000-2023, divulgado em 19 nov. 2025. oimparcial.com.br.
  • DIÁRIO DE PERNAMBUCO. Violência contra mulher cai 1,3% em Pernambuco em agosto, diz governo. 5 set. 2025. diariodepernambuco.com.br.
  • DIÁRIO DE PERNAMBUCO. Pernambuco tem média de 137 casos por dia de violência contra a mulher em 2026. 19 mar. 2026. diariodepernambuco.com.br.
  • DIÁRIO DE PERNAMBUCO. Pernambuco registra mais de 34 mil casos de violência contra a mulher em 2025. 25 nov. 2025. diariodepernambuco.com.br.
  • TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE PERNAMBUCO (TJPE). TJPE encerra a Semana da Justiça pela Paz em Casa reforçando o combate à violência contra a mulher. portal.tjpe.jus.br.
  • WEST AFRICAN HEALTH ORGANISATION (WAHO). Comunicado sobre Dia Mundial das Doenças Tropicais Negligenciadas: mulheres e meninas. 29 jan. 2023. wahooas.org.
  • ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Fair share for health and care: gender and the undervaluation of health and care work. Citado por Portal Afya, 22 mar. 2024. portal.afya.com.br.
  • Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha); Lei nº 12.845/2013 e Portaria nº 1.271/2014 (notificação compulsória de violência no SUS), legislação federal, Ministério da Saúde.
  • GHC (Grupo Hospitalar Conceição). Boletim sobre notificação de violência contra a mulher via SINAN. ghc.com.br.
  • INSTITUTO DATASENADO / OBSERVATÓRIO DA MULHER CONTRA A VIOLÊNCIA (OMV), SENADO FEDERAL. 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher. 27 nov. 2025. senado.leg.br.
  • AGÊNCIA SENADO. Desarmamento, acolhimento e penas: Senado tem novos projetos de proteção à mulher. 25 jul. 2025. senado.leg.br.
  • FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DE MINAS GERAIS (FIEMG). Impactos Econômicos da Violência contra a Mulher. Citado por Acionista.com.br. acionista.com.br.
  • DIÁRIO DE PERNAMBUCO. Estado vai construir a primeira Casa da Mulher Brasileira no Recife. 10 jan. 2025. diariodepernambuco.com.br.
  • AGÊNCIA GOV. Ministério das Mulheres assina acordo de cooperação para construção de três unidades da Casa da Mulher Brasileira em Pernambuco. 23 fev. 2024. agenciagov.ebc.com.br.
  • MOVIMENTO ECONÔMICO. Raquel Lyra e ministra assinam instalação de três unidades da Casa da Mulher Brasileira, com declaração da desembargadora Daisy Andrade, coordenadora Estadual da Mulher do TJPE. movimentoeconomico.com.br.
  • O POVO. Um pacto para combater o feminicídio (Pacto Nacional Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio, fev. 2026). opovo.com.br.

Nota de transparência: os dados de Pernambuco desta matéria vêm de reportagens do Diário de Pernambuco que citam a Secretaria de Defesa Social (SDS-PE) como fonte primária; não foi possível, até o fechamento desta matéria, acessar diretamente o painel público da SDS-PE com a série histórica completa por município, uma lacuna de transparência que o MNDN cobra no texto acima. Os detalhes específicos da atividade do Grupo Saúde relatados nesta matéria (presença da Dra. Paula e de Maurineia) foram informados diretamente pela coordenação do MNDN em Pernambuco.

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