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Desmatamento na Amazônia aumenta risco de Chagas e leishmaniose

🌳 Desmatamento & Doenças Negligenciadas

Três estudos feitos em um assentamento rural de Cruzeiro do Sul (AC) mostram que a floresta derrubada não leva embora a doença. Ela reorganiza a doença em volta da casa das pessoas. Em uma palmeira a 33 metros de um domicílio, os pesquisadores encontraram um barbeiro que havia se alimentado de sangue humano. Enquanto isso, o desmatamento na Amazônia Legal caiu para 5.731 km² em 2025, o menor valor em 11 anos. Mas Mato Grosso foi o único estado a subir.

Esta reportagem tem cards interativos e três gráficos de dados oficiais. Toque neles ao longo do texto para ver mais.

Reportagem original: Luciana Constantino / Agência FAPESP. Esta é uma republicação com créditos, ampliada com apuração própria do MNDN, dados oficiais do Ministério da Saúde, do INPE e da Organização Mundial da Saúde.

Trinta e três metros. É essa a distância entre uma casa de assentamento rural no Acre e a palmeira onde pesquisadores capturaram uma ninfa de barbeiro que já havia se alimentado de sangue humano. Ninguém precisou de um inseto morando dentro da parede para que o risco chegasse. Bastou que a floresta recuasse até a porta. É esse o achado que amarra três estudos publicados por um mesmo grupo científico sobre o município de Cruzeiro do Sul, no Vale do Juruá, e que reposiciona o desmatamento não como um problema ambiental que também afeta a saúde, mas como um determinante direto de três doenças negligenciadas ao mesmo tempo: leishmaniose, doença de Chagas e malária.

Assentamento rural em Cruzeiro do Sul, no Vale do Juruá, Acre, com área desmatada ao lado de remanescente de floresta amazônica
Os levantamentos de campo foram feitos em 20 pontos de um assentamento rural em Cruzeiro do Sul, segundo maior município do Acre, em 2022 e 2024. A região enfrenta pressão constante de desmatamento. foto: Francisco Leitão

O que a ciência foi medir em Cruzeiro do Sul

A investigação é liderada pelo biólogo Gabriel Laporta, do Centro Universitário Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), com financiamento da FAPESP e do programa Amazônia+10. O grupo escolheu um assentamento rural no segundo maior município do Acre, território sob pressão constante de desmatamento, e o transformou em laboratório a céu aberto. Não é modelagem de gabinete: é coleta de campo, em pontos amostrais que vão da floresta íntegra à área completamente derrubada.

  • 20 unidades de paisagem amostradas em Cruzeiro do Sul (AC) nos anos de 2022 e 2024, nos estudos de leishmaniose e de doença de Chagas;
  • 40 pontos de coleta no estudo anterior, sobre malária, publicado em 2025 na revista Acta Tropica;
  • Imagens de drone e satélite de alta resolução foram usadas para medir distâncias e composição do uso da terra em cada ponto;
  • Ensaios moleculares identificaram a infecção dos insetos pelos parasitas, e a análise de repasto sanguíneo revelou de quem cada inseto havia se alimentado;
  • Três doenças negligenciadas foram avaliadas sob o mesmo gradiente de perda florestal: leishmaniose cutânea, doença de Chagas e malária.

Porque ele responde a uma pergunta que a vigilância brasileira raramente consegue responder: onde, exatamente, dentro de um território, o risco se concentra. A vigilância epidemiológica trabalha com o município como unidade, mas dentro de um mesmo município há paisagens completamente diferentes. Um estudo que mede a distância entre uma palmeira e uma casa produz um indicador que um gestor municipal pode efetivamente usar para priorizar visita domiciliar, borrifação e busca ativa. É o oposto da estatística que só serve para relatório.

Fonte: Laporta et al., PLOS ONE, 2026; Agência FAPESP.

Leishmaniose: o que pesa não é a floresta, é o tempo de ocupação

O primeiro resultado contrariou a expectativa dos próprios pesquisadores. Os achados deste estudo, publicado na revista Parasites & Vectors, são apresentados aqui conforme descritos na reportagem da Agência FAPESP, já que o texto integral do artigo está sob acesso restrito. A hipótese natural seria encontrar mais mosquitos-palha (os flebotomíneos que transmitem o protozoário Leishmania) nas áreas de mata fechada, mais úmidas e sombreadas. Não foi o que os dados mostraram. A abundância dos vetores se associou mais fortemente ao tempo decorrido desde o desmatamento e a ocupação humana do que à cobertura florestal remanescente. Ou seja: o mosquito-palha se estabelece no ambiente modificado e permanece ali por anos, e sua população cresce gradualmente à medida que o assentamento se consolida e a atividade humana persiste. A espécie dominante encontrada foi Nyssomyia antunesi. Todos esses achados são relatados pela Agência FAPESP com base em entrevista com o autor correspondente do artigo, o biólogo Gabriel Laporta.

A consequência prática é direta: um assentamento antigo pode ser mais perigoso que uma frente de desmatamento recente. E as ações de controle vetorial precisam levar em conta o histórico de uso da terra, informação que, hoje, não entra na ficha de investigação epidemiológica de leishmaniose no Brasil.

Mosquito-palha, inseto flebotomíneo transmissor da leishmaniose, vetor do protozoário Leishmania na Amazônia
O mosquito-palha transmite o protozoário do gênero Leishmania. No assentamento estudado no Acre, a espécie dominante foi a Nyssomyia antunesi, e sua abundância cresceu conforme aumentava o tempo de ocupação humana da área.
  • 71.942 casos de leishmaniose tegumentar teriam sido notificados no Brasil entre 2020 e 2024, com maior concentração nas regiões Norte e Nordeste, segundo estudo epidemiológico retrospectivo com dados do SINAN publicado na Revista Eletrônica Acervo Científico. O dado não consta de boletim epidemiológico oficial do Ministério da Saúde;
  • Cerca de 13 mil casos de leishmaniose tegumentar foram registrados só em 2023, de acordo com o Ministério da Saúde, que naquele ano lançou painéis de monitoramento das leishmanioses;
  • A região Norte lidera a incidência nacional, com Pará e Amazonas entre as áreas mais afetadas;
  • 3 casos por 10 mil habitantes é a taxa média anual de incidência de leishmaniose cutânea em Cruzeiro do Sul, abaixo da observada em áreas mais desmatadas do próprio Acre, e concentrada em homens jovens da zona rural;
  • Cerca de 2 mil casos anuais de leishmaniose visceral, a forma grave e potencialmente fatal, são notificados no país, com surtos localizados sobretudo no Norte e no Nordeste.

👆 Toque aqui para ver o dado que muda a lógica do controle vetorial da leishmaniose no Brasil.

Ainda não revelado. Toque no card acima.

Chagas: o barbeiro não precisa entrar em casa

O segundo estudo, publicado na PLOS ONE, desmonta um pressuposto que organiza a política brasileira de controle da doença de Chagas há décadas. A vigilância clássica se estrutura em torno da domiciliação do vetor: o barbeiro que coloniza frestas de parede, entulhos e móveis parados. A lógica é: se não há colonização domiciliar, o risco é baixo. Os dados do Acre mostram que essa lógica não se sustenta na Amazônia.

Os pesquisadores selecionaram, em cada ponto de amostragem, uma palmeira do gênero Attalea próxima a uma residência habitada, coletaram os triatomíneos e testaram sua infecção. Modelos bayesianos mostraram que a probabilidade de infecção por Trypanosoma cruzi, o parasita da doença de Chagas, foi maior nas paisagens mais desmatadas, e que esse efeito era modulado pela distância entre a palmeira e a casa: quanto menor a distância, maior a chance de encontrar o inseto infectado. O parasita aparentado Trypanosoma rangeli, que não causa doença em humanos, não apresentou associação com a cobertura florestal, o que reforça que o padrão encontrado é específico e não um artefato do desenho do estudo.

A análise de repasto sanguíneo revelou alimentação frequente em hospedeiros silvestres, sobretudo marsupiais. E, em uma ninfa coletada a apenas 33 metros de um domicílio, foi detectado sangue humano. O ciclo silvestre não precisou se mudar para dentro da casa. A casa é que chegou perto dele.

Palmeira do gênero Attalea próxima a uma casa em área rural da Amazônia, habitat de triatomíneos transmissores da doença de Chagas
Os barbeiros se abrigam nas dobras da base das folhas de palmeiras do gênero Attalea e se alimentam do sangue de animais silvestres. Quanto menor a distância entre a palmeira e a casa, maior a chance de encontrar o inseto infectado pelo parasita. Foto: wikipedia
  • 3.750 óbitos por doença de Chagas foram registrados no Brasil em 2024, com maior concentração no Sudeste, reflexo de infecções contraídas há décadas;
  • 520 casos agudos em 2024, principalmente no Norte, com destaque para o Pará;
  • 627 casos agudos em 2025 (dados preliminares), sendo 97% deles na região Norte, além de 8.106 casos crônicos concentrados em Minas Gerais, Bahia e Goiás;
  • 84,68% das infecções agudas notificadas entre 2013 e 2023 teriam ocorrido por transmissão oral, superando a transmissão vetorial clássica, com 95,24% dos casos na região Norte, segundo levantamento de 2.603 notificações do SINAN divulgado pelo Conselho Federal de Farmácia. Outros estudos com recortes distintos apontam percentuais próximos, entre 83% e 88%;
  • R$ 12 milhões foram anunciados pelo Ministério da Saúde em abril de 2026 para vigilância e controle da doença em 155 municípios prioritários de 17 estados.

Justamente por isso. O triatomíneo infectado que vive na copa da palmeira não precisa picar ninguém para transmitir o parasita: basta que ele, ou suas fezes, acabe dentro do tanque de processamento de açaí, bacaba ou outro fruto de palmeira colhido naquela mesma vegetação. O parasita sobrevive na polpa e infecta quem consome. Por isso os surtos amazônicos de Chagas aguda são familiares e coletivos, atingem várias pessoas da mesma casa de uma vez, e têm sazonalidade ligada à safra dos frutos.

Isso conecta diretamente os dois achados: a mesma palmeira que aproxima o vetor da casa é a palmeira de onde sai o alimento. O desmatamento no entorno concentra as duas coisas no mesmo ponto.

Fonte: Guia de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde; Laporta et al., PLOS ONE, 2026; estudos epidemiológicos com dados do SINAN/DATASUS.

Malária: o risco mora no meio do caminho

O terceiro trabalho do grupo, publicado em 2025 na revista Acta Tropica, encontrou um padrão que parece contraintuitivo mas explica muita coisa: o maior risco de malária não está na floresta íntegra nem na área totalmente arrasada. Está no meio, em paisagens com aproximadamente 50% de cobertura florestal remanescente, fragmentada, junto a moradias e assentamentos. Ali o mosquito Anopheles do subgênero Nyssorhynchus encontra ao mesmo tempo criadouro adequado e hospedeiro humano disponível.

Nos dois extremos, o risco cai. Na área completamente desmatada, o ambiente se torna inóspito para o vetor. E aqui está o ponto que interessa à política pública: quando a floresta é restaurada acima de 70% de cobertura, a ameaça também recua. A restauração, portanto, não é apenas mitigação climática: é medida de controle vetorial.

Agente de saúde realiza teste rápido de malária em comunidade da Amazônia brasileira
O Brasil registrou 118.037 casos autóctones de malária em 2025, o menor número desde 1978, e foi o primeiro país do mundo a incorporar a tafenoquina ao tratamento no sistema público de saúde. Ainda assim, 99% dos casos seguem concentrados na Amazônia. Foto: Prefeitura de Manaus
  • 118.037 casos autóctones de malária foram registrados no Brasil em 2025: 15% menos que em 2024 e o menor número desde 1978;
  • Mortes caíram de 56 para 39 entre 2024 e 2025, uma redução de 30%, junto com queda de 30,7% nos casos da forma mais grave;
  • 99% dos casos brasileiros continuam concentrados na região amazônica;
  • Mais de 33,7 mil pessoas já foram tratadas com tafenoquina até junho de 2026. O Brasil foi o primeiro país do mundo a incorporar o medicamento de dose única ao sistema público;
  • Meta de eliminação até 2035, com marco intermediário de menos de 14 mil casos até 2030, segundo o Plano Nacional de Eliminação da Malária.

Malária no Brasil: casos autóctones por ano

A curva desce, e desce de verdade. A pergunta que os estudos do Acre colocam é se ela continuará descendo quando a paisagem que produz o risco já estiver formada.

Casos autóctones de malária no Brasil: 2023: 140.264; 2024: 138.493; 2025: 118.037.

Fonte: Ministério da Saúde, dados divulgados em agosto de 2026 e em abril de 2025.

O desmatamento cai, mas a paisagem do risco já está feita

Aqui o MNDN precisa reconhecer um avanço real e concreto. A taxa consolidada de desmatamento da Amazônia Legal em 2025 foi de 5.731 km², uma redução de 12,07% em relação a 2024 e o menor valor em mais de uma década. Oito dos nove estados da Amazônia Legal reduziram o desmatamento. Isso é resultado de política pública, fiscalização e monitoramento por satélite, e precisa ser dito com todas as letras.

Mas há dois “poréns” que a matéria de saúde não pode ignorar. O primeiro: Mato Grosso foi o único estado da Amazônia Legal a registrar aumento, de 26,73% entre 2024 e 2025. O MNDN é sediado em Mato Grosso e já vinha alertando, em cobertura anterior, para a combinação entre pressão ambiental e doenças negligenciadas no estado. Os dados do INPE agora dão nome ao alerta.

O segundo “porém” é mais difícil de encarar: a floresta que caiu nos últimos vinte anos não volta com a queda da taxa atual. Os estudos do Acre mostram que o risco de leishmaniose se associa ao tempo de ocupação, não ao desmate recente. Reduzir o corte hoje não desfaz a paisagem de risco criada ontem. Só a restauração faz isso.

Vista aérea de área desmatada na Amazônia ao lado de remanescente de floresta, com padrão de ocupação em espinha de peixe
A taxa consolidada de desmatamento da Amazônia Legal em 2025 foi de 5.731 km², a menor em mais de uma década. Mato Grosso foi o único dos nove estados a registrar aumento, de 26,73%. Foto: Edison Veiga Role De Milão -BBC News Brasil

Desmatamento na Amazônia Legal (km²/ano)

Taxas consolidadas do PRODES/INPE, período de agosto a julho de cada ano.

Desmatamento na Amazônia Legal em km²: 2019: 10.129; 2020: 10.851; 2021: 13.038; 2022: 11.594; 2023: 9.064; 2024: 6.518; 2025: 5.731.

Fontes: INPE/PRODES, notas técnicas das taxas consolidadas de 2022, 2023, 2024 e divulgação da taxa consolidada de 2025 (18/08/2026).

Acre: o estado onde os estudos foram feitos (km²/ano)

O Acre reduziu o desmatamento de forma consistente e expressiva. Ainda assim, somando apenas estes cinco anos, o estado perdeu cerca de 3.100 km² de floresta, e o efeito sobre a paisagem de risco é cumulativo: não se desfaz com a queda da taxa do ano seguinte.

Desmatamento no Acre em km²: 2021: 889; 2022: 840; 2023: 601; 2024: 449; 2025: 325 (estimativa).

Fontes: INPE/PRODES, notas técnicas consolidadas 2022, 2023 e 2024; para 2025, nota técnica de estimativa (out/2025), valor sujeito a revisão na consolidação estadual.

Não é a árvore que cai hoje que adoece a comunidade amanhã. É a árvore que caiu há vinte anos e nunca voltou. Política de saúde que só olha a taxa anual de desmatamento está olhando para o lugar errado do gráfico.

Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)

Restaurar como política de saúde, e com a comunidade no comando

A parte mais relevante desta reportagem talvez não esteja nos resultados já publicados, e sim no que vem depois. Laporta iniciou uma nova etapa do trabalho: restaurar áreas degradadas com espécies nativas amazônicas e medir, ao longo do tempo, o que acontece com os indicadores de saúde. O primeiro passo foi digitalizar imagens do local e simular, a partir de modelos parametrizados, a evolução dos casos de malária após um processo de restauração. E os moradores ficarão responsáveis pelo plantio.

Ou seja: um estudo de intervenção ambiental desenhado como experimento de saúde pública, com participação comunitária na execução. A mensagem do pesquisador é resumida em duas palavras: “precisamos restaurar”.

Para o MNDN, esse desenho importa por uma razão específica. Ele trata a comunidade como executora, não como objeto de pesquisa. É o oposto do modelo em que pesquisadores chegam, coletam, publicam e vão embora, deixando o território exatamente como encontraram. Se o experimento funcionar, o Brasil terá evidência empírica de que restauração florestal é intervenção sanitária mensurável, e isso muda o argumento orçamentário.

Moradores de comunidade rural amazônica plantando mudas de espécies nativas em área degradada
A nova etapa da pesquisa vai restaurar áreas degradadas com espécies nativas amazônicas e medir, ao longo do tempo, o que acontece com os indicadores de saúde. O plantio ficará a cargo dos próprios moradores. Foto: Prefeitura de Manaus

👆 Toque aqui para ver por que a restauração precisa passar de 70% para reduzir o risco, e o que isso significa na prática.

Ainda não revelado. Toque no card acima.

A conta global: o dinheiro está indo embora

Enquanto a ciência brasileira produz evidência de altíssima qualidade sobre o vínculo entre floresta e doença, o financiamento internacional para doenças negligenciadas está em rota contrária. Os números da Organização Mundial da Saúde são diretos.

  • 1,4 bilhão de pessoas precisavam de intervenção contra pelo menos uma doença tropical negligenciada ao fim de 2024, uma redução de 36% em relação a 2010;
  • Cerca de 1 bilhão de pessoas são afetadas por DTNs no mundo, em um grupo de mais de 21 condições que inclui leishmaniose, Chagas, dengue e chikungunya;
  • Queda de 41% na ajuda internacional destinada a DTNs entre 2018 e 2023. O financiamento encolheu justamente quando as metas de eliminação se aproximam;
  • 58 países já eliminaram ao menos uma DTN até o início de 2026, rumo à meta da OMS de 100 países até 2030;
  • US$ 25 de retorno econômico para cada US$ 1 investido em quimioterapia preventiva, segundo estimativa da própria OMS, e ainda assim a área segue entre as mais subfinanciadas da saúde global.

O Brasil tem se movido nesse cenário: obteve a certificação de eliminação da filariose linfática em setembro de 2024 e da transmissão vertical do HIV em dezembro de 2025, e mantém o programa Brasil Saudável, que reúne 11 doenças e cinco infecções de transmissão vertical com metas para 2030. Malária, Chagas e leishmanioses estão nessa lista. O que os estudos do Acre acrescentam é uma advertência: essas metas não serão alcançadas apenas com medicamento e diagnóstico, se a paisagem que produz a exposição continuar sendo produzida.

Perguntas que o MNDN dirige ao poder público

  • A ficha de investigação epidemiológica de leishmaniose tegumentar passará a registrar o histórico de uso da terra e o tempo de ocupação da área, já que a evidência científica aponta essa variável como determinante da abundância do vetor?
  • O protocolo de vigilância da doença de Chagas na Amazônia será revisto para incluir o monitoramento de palmeiras peridomiciliares, uma vez que a evidência mostra risco elevado sem qualquer colonização domiciliar do vetor?
  • Qual é a distância de referência adotada pelo Ministério da Saúde entre domicílio e vegetação de palmeiras para fins de vigilância? E, se não existe, quando existirá?
  • Os R$ 12 milhões repassados a 155 municípios prioritários para o controle da doença de Chagas contemplam ações integradas com órgãos ambientais, ou seguem restritos à captura de vetores e resposta a focos?
  • O Comitê Técnico Interinstitucional de Uma Só Saúde, criado pelo Decreto nº 12.007/2024, tem previsão de pautar formalmente a restauração florestal como medida de controle vetorial, com indicadores de saúde monitorados?
  • Considerando que Mato Grosso foi o único estado da Amazônia Legal com aumento de desmatamento em 2025, existe plano específico de vigilância reforçada de doenças vetoriais nos municípios mato-grossenses onde a supressão de vegetação cresceu?

A posição do Movimento

Logo do Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas
As perguntas acima são formuladas pelo MNDN no exercício do controle social previsto na Lei nº 8.142/1990. Arte: MNDN

O Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas reconhece avanços que não são retóricos. A malária no menor patamar em quase cinquenta anos, a incorporação pioneira da tafenoquina, a queda de 12% no desmatamento amazônico, a certificação de eliminação da filariose linfática: tudo isso é trabalho acumulado de pesquisadores, profissionais do SUS, agentes comunitários e gestores. Precisa ser reconhecido, e é.

Mas reconhecer o avanço não é aceitar o limite dele. O que estes três estudos mostram é que o Brasil está tratando bem a doença e continua produzindo, no território, a condição que a gera. Nossa posição:

  • Indicador ambiental na ficha epidemiológica: cobertura florestal, tempo de ocupação e distância a vegetação de palmeiras precisam virar variáveis de notificação, não curiosidade acadêmica;
  • Restauração como política de saúde: se a evidência aponta que a recuperação da floresta acima de 70% reduz o risco de malária, a restauração precisa entrar no orçamento da saúde, e não apenas no do meio ambiente;
  • Uma Só Saúde com dente: o Decreto nº 12.007/2024 criou a estrutura; falta transformá-la em decisão vinculante com metas e prazos. Comitê que não delibera é sala de reunião, não política pública;
  • Vigilância que reconheça a transmissão oral: com quase 85% dos casos agudos de Chagas ocorrendo por alimento contaminado, a vigilância sanitária de polpa de açaí e frutos de palmeira precisa ter a mesma prioridade que a borrifação;
  • Comunidade como sujeito, não como amostra: o modelo do estudo do Acre, em que moradores executam o plantio, é o padrão que queremos ver replicado em todo projeto financiado com dinheiro público;
  • Atenção especial a Mato Grosso: o único estado amazônico com alta no desmatamento precisa de vigilância reforçada de leishmaniose, malária e Chagas, agora e não depois do primeiro surto;
  • Financiamento estável e nacional: com a ajuda internacional para DTNs em queda de 41%, o Brasil não pode terceirizar a sustentação de seus programas de eliminação.

Durante décadas nos disseram que doença negligenciada é problema de pobreza. É, mas não só. É também problema de paisagem. Uma palmeira a trinta e três metros de uma casa não é paisagem bonita nem paisagem feia: é fator de risco mensurável. O SUS já sabe tratar essas doenças. Falta o Estado brasileiro aceitar que também é preciso parar de produzi-las.

João Victor Pacheco Fós Kersul de Carvalho, Presidente do MNDN

Perguntas frequentes sobre desmatamento e doenças negligenciadas

Ele não causa diretamente as doenças, que são provocadas por parasitas específicos. O que o desmatamento faz é alterar a distribuição dos vetores e aproximar as pessoas dos ciclos silvestres de transmissão. Nos estudos feitos no Acre, paisagens mais desmatadas apresentaram maior probabilidade de barbeiros infectados por Trypanosoma cruzi, e a abundância de mosquitos-palha cresceu com o tempo de ocupação humana da área. No caso da malária, o maior risco apareceu em paisagens com cerca de 50% de cobertura florestal remanescente.

Porque a paisagem intermediária oferece as duas coisas de que o mosquito precisa ao mesmo tempo: ambiente adequado para reprodução e presença humana próxima. Na floresta contínua há menos gente; na área completamente arrasada, o ambiente fica inóspito para o vetor. O estudo publicado em 2025 mostrou ainda que a restauração da cobertura florestal acima de 70% reduz o risco.

Na Amazônia, a via predominante é a oral: entre 2013 e 2023, aproximadamente 84,68% dos casos agudos notificados no país ocorreram pelo consumo de alimentos ou bebidas contaminados pelo parasita, geralmente polpa de frutos de palmeira. A transmissão vetorial clássica, pelas fezes do barbeiro em contato com pele ferida ou mucosa, é menos frequente na região. O tratamento é feito principalmente com benznidazol, disponível no SUS.

Sim. A taxa consolidada do PRODES/INPE para a Amazônia Legal em 2025 foi de 5.731 km², redução de 12,07% em relação a 2024 e o menor valor em mais de uma década. Oito dos nove estados amazônicos reduziram o desmatamento; Mato Grosso foi o único a registrar aumento, de 26,73%. A queda da taxa atual, porém, não desfaz a paisagem de risco já formada nas décadas anteriores. Por isso a restauração é apontada como medida complementar necessária.

Fontes e referências

  • CONSTANTINO, Luciana. Desmatamento aumenta risco de leishmaniose e doença de Chagas na Amazônia, aponta estudo. Agência FAPESP, 2026. agencia.fapesp.br. Reportagem original que deu origem a esta republicação.
  • LAPORTA, G. Z.; RAMOS, L. J.; SANTANA, C. M.; ABREU, W. U.; ILACQUA, R. C. et al. Deforestation and human proximity influence Trypanosoma cruzi infection in palm-dwelling triatomines. PLOS ONE, v. 21, n. 5, e0349311, 2026. journals.plos.org.
  • LAPORTA, G. Z. et al. Human occupation, not forest structure, determines sand fly abundance in the Amazon. Parasites & Vectors, 2026. DOI 10.1186/s13071-026-07409-x. link.springer.com. Artigo sob acesso restrito: os achados citados nesta reportagem foram obtidos da cobertura da Agência FAPESP.
  • CONSTANTINO, Luciana. Risco de malária na Amazônia é maior em regiões parcialmente degradadas. Agência FAPESP, 20 ago. 2025, sobre o estudo publicado na revista Acta Tropica. agencia.fapesp.br.
  • MINISTÉRIO DA SAÚDE. Malária: com medicamento inovador, Brasil registra menor número de casos em quase 50 anos. 17 ago. 2026. gov.br/saude.
  • MINISTÉRIO DA SAÚDE / AGÊNCIA GOV. Saúde anuncia R$ 12 milhões para o enfrentamento da Doença de Chagas. 14 abr. 2026. agenciagov.ebc.com.br.
  • MINISTÉRIO DA SAÚDE. Saúde lança painéis para monitorar Leishmanioses no Brasil. set. 2024. gov.br/saude.
  • INPE. Sistema do INPE aponta 5.731 km² de desmatamento na Amazônia em 2025: taxa consolidada do PRODES. 18 ago. 2026. gov.br/inpe.
  • INPE. Nota técnica: Estimativa de desmatamento na Amazônia Legal para 2025 é de 5.796 km². out. 2025. data.inpe.br.
  • INPE. Nota técnica: taxa consolidada de desmatamento da Amazônia Legal em 2024 (6.518 km²), com série estadual. data.inpe.br.
  • INPE. Nota técnica: taxa consolidada de desmatamento da Amazônia Legal em 2022 (11.594 km²), com série estadual desde 2021. gov.br/inpe.
  • MMA / INPE. Apresentação PRODES 2022/2023: série histórica da Amazônia Legal (2019 a 2023). mai. 2024. gov.br/inpe.
  • ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. World Neglected Tropical Diseases Day 2026: brief outline. who.int.
  • Incidência de casos de leishmaniose tegumentar no Brasil no período de 2020 a 2024: estudo epidemiológico retrospectivo com dados do SINAN. acervomais.com.br.
  • CONSELHO FEDERAL DE FARMÁCIA. Farmacêuticos analisam epidemiologia da doença de Chagas aguda no Brasil: análise de 2.603 casos notificados entre 2013 e 2023 no SINAN. site.cff.org.br.

Nota de transparência: todos os números citados têm fonte verificada indicada acima. Três ressalvas de rigor: (1) o valor de desmatamento do Acre em 2025 (325 km²) provém da estimativa do PRODES divulgada em outubro de 2025, e não da taxa consolidada estadual, ainda não republicada com esse recorte, os valores de 2021 a 2024 são consolidados; (2) a nota do Ministério da Saúde de 17/08/2026 apresenta, no corpo do texto, a redução das mortes por malária de 56 para 39, enquanto a citação do ministro no mesmo material menciona 39 internações, e adotamos os números do corpo do texto; (3) os dados de Chagas de 2025 (627 casos agudos e 8.106 crônicos) são preliminares, conforme informado pelo próprio Ministério da Saúde; (4) os achados do estudo publicado na Parasites & Vectors sobre a abundância de mosquitos-palha são reproduzidos a partir da reportagem da Agência FAPESP, porque o texto integral do artigo está sob acesso restrito, e não foi possível conferi-los no resumo original; (5) os percentuais de transmissão oral e de concentração de casos de Chagas no Norte (84,68% e 95,24%) provêm de divulgação do Conselho Federal de Farmácia sobre um levantamento de dados do SINAN, e não do estudo original nem de boletim oficial; (6) o total de 71.942 casos de leishmaniose tegumentar entre 2020 e 2024 provém de artigo em periódico científico de circulação nacional, e não de publicação oficial do Ministério da Saúde. Não foi possível localizar publicamente uma série histórica desagregada de leishmaniose tegumentar por município do Acre com atualização até 2025; essa é uma lacuna de transparência que o MNDN registra e cobra.

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