Um aquecimento de dois graus na superfície de um oceano do outro lado do mundo pode parecer distante da vida de quem mora em Cuiabá, em Recife ou em Porto Alegre. Não é. Esse aquecimento tem nome, tem previsão, tem data de pico marcada, e a Organização Pan-Americana da Saúde publicou, em documento técnico de 41 páginas, exatamente o que ele significa para a saúde das Américas: mais dengue em determinados cenários, mais malária, mais internação por problema respiratório, mais gente morrendo de calor, mais doença de água contaminada. Esta reportagem explica, do começo, o que é o El Niño, por que ele acontece, o que ele faz com o clima do Brasil, e por que ele é, acima de tudo, um problema de saúde pública que vai bater com mais força exatamente em quem já é deixado por último.
Primeiro, o básico: o que é o El Niño?
O El Niño é um fenômeno natural, e é importante começar por aí. Ele não foi inventado pelo aquecimento global, não é novidade, e acontece em ciclos há milhares de anos. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o El Niño representa o aquecimento anormal das águas superficiais e sub-superficiais do Oceano Pacífico Equatorial.
O nome vem dos pescadores do Peru e do Equador. Eles notavam, todos os anos por volta do Natal, a chegada de águas mais quentes na costa. Chamaram de Corriente de El Niño, em referência ao Menino Jesus. O que hoje chamamos de fenômeno El Niño é a versão intensificada e irregular desse aquecimento, que ocorre em média a cada três a sete anos e tem consequências no clima do planeta inteiro.
Passo 1 — Os ventos enfraquecem. Em condições normais do Oceano Pacífico, os ventos alísios sopram de leste para oeste ao longo do Equador, empurrando as águas quentes da superfície da América do Sul em direção à Ásia. Para repor essa água, água mais fria sobe das profundezas, num processo chamado ressurgência.
Passo 2 — A água quente volta. Durante o El Niño, esses ventos alísios enfraquecem, resultando em temperaturas da superfície do mar acima da média no Pacífico central e oriental, e em mudanças significativas nos padrões de circulação atmosférica, segundo a definição oficial da própria OPAS.
Passo 3 — A atmosfera reage. Água quente evapora mais. Mais evaporação significa mais nuvem e mais chuva formando-se sobre uma região que antes era seca, e menos chuva onde antes chovia.
Passo 4 — O efeito chega aqui. Historicamente, as condições de El Niño têm sido associadas a clima mais seco em partes da América Central, do Caribe, do norte da América do Sul — incluindo o norte do Brasil — enquanto condições mais úmidas costumam ocorrer em partes da costa do Pacífico sul-americano e no sul do Brasil, além de Paraguai e Argentina.
INPE — “O que é El Niño e La Niña?”; OPAS/OMS — Public Health Situation Analysis: El Niño in the Americas, 2026-2027, p. 3.
O ponto que precisa ficar claro: o El Niño em si é natural. O que não é natural é o cenário em que ele está chegando. Ele agora acontece sobre um planeta já aquecido, sobre um Brasil com desmatamento acumulado, com déficit de saneamento e com vigilância epidemiológica desigual. O fenômeno é o gatilho. A vulnerabilidade é nossa.
Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)
Os números do El Niño 2026–2027
Não se trata de previsão vaga. O Painel El Niño 2026-2027, iniciativa conjunta do Governo Federal que reúne INPE, INMET, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil e Defesa Civil Nacional, divulgou seu primeiro boletim mensal com números concretos. E a própria OPAS, no documento oficial publicado em 24 de junho de 2026, confirma os mesmos parâmetros.
- Segundo a análise da OPAS, havia em maio de 2026 82% de probabilidade de o El Niño se desenvolver entre maio e julho de 2026, e 96% de probabilidade de persistir durante o inverno do Hemisfério Norte de 2026-2027 — dados do Centro de Previsão Climática da NOAA;
- Em maio de 2026, as anomalias semanais de temperatura na região Niño 3.4 já haviam superado o limiar de El Niño, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa (IRI);
- Projeções do Copernicus Climate Change Service (C3S) indicavam, na mesma época, que mais de 50% dos modelos climáticos projetavam anomalias acima de 2,5 °C até o fim de 2026;
- Episódios de El Niño e La Niña costumam se desenvolver entre abril e junho, atingir o pico entre novembro e fevereiro, e persistir geralmente entre 9 e 12 meses;
- O impacto mais significativo sobre a saúde é historicamente observado no ano seguinte ao início do evento — ou seja, o pior já não é 2026, é 2027.
👆 Toque aqui para entender por que a comparação histórica assusta os pesquisadores.
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O Brasil partido ao meio: o que esperar em cada região
Aqui está a característica mais importante do El Niño para quem faz saúde pública no Brasil: ele não faz a mesma coisa no país inteiro. Ele produz dois desastres opostos e simultâneos. Quem se preparar apenas para um vai ser pego pelo outro.
As projeções abaixo seguem as análises do Cemaden e o Painel El Niño 2026-2027, e reproduzem o comportamento observado em episódios anteriores classificados como Super El Niño.
- 🌵 Norte e parte do Centro-Oeste: redução das chuvas e aumento das temperaturas elevam o risco de secas prolongadas. Preocupação com a geração de energia nas bacias dos rios Xingu, Madeira e Tocantins-Araguaia, além de piora na qualidade da água;
- 🔥 Amazônia e Pantanal: calor intenso somado à seca aumenta o risco de incêndios florestais, cenário agravado pelo uso criminoso do fogo. O Pantanal permanece em alerta máximo devido ao tempo seco;
- 🌧️ Região Sul: entre setembro e dezembro, chuvas mais volumosas e persistentes, com aumento do risco de enchentes, enxurradas e deslizamentos no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná. Porto Alegre segue em atenção máxima por causa da recuperação da infraestrutura após 2024;
- 🌡️ Sudeste e Centro-Oeste: ondas de calor mais frequentes, acompanhadas de baixa umidade do ar;
- 🪸 Litoral: Maracajaú (RN) e a Baía de Todos-os-Santos (BA) já registram alerta inicial para branqueamento de corais.
A seca já está medida, não é projeção. Segundo o Índice Integrado de Seca (IIS-3) do Cemaden referente a maio de 2026, as condições de seca moderada e severa se concentram no oeste do Tocantins, no centro-sul do Pará, no norte do Amazonas, no leste do Mato Grosso, no sul de Goiás e no oeste de Minas Gerais. Entre abril e maio de 2026, 66 municípios registraram transição para a condição de seca severa, com maior incidência em Minas Gerais e Goiás.
E o mapa do fogo já está desenhado: o Cemaden aponta que o trimestre entre julho e setembro deve concentrar o maior risco de incêndio no Centro-Oeste e no arco sul da Amazônia, com destaque para Mato Grosso, Rondônia, Acre, sul do Amazonas, sul do Pará e a região do Matopiba.
O que o documento oficial da OPAS realmente diz
Em 7 de julho de 2026, a Organização Pan-Americana da Saúde anunciou publicamente a Public Health Situation Analysis: El Niño in the Americas, 2026-2027, documento técnico datado de 24 de junho de 2026. O MNDN leu o PDF completo, de 59 páginas, direto na fonte, para trazer os números com precisão — inclusive onde eles corrigem o que a imprensa vinha resumindo.
Quer conferir a fonte com seus próprios olhos? O documento completo está disponível gratuitamente no site da OPAS.
📄 Baixar o PDF oficial da OPAS (59 páginas, inglês)A OPAS não trata o risco como um número único. Ela separa duas tabelas: uma para cenários secos e outra para cenários úmidos, porque o mesmo El Niño produz riscos diferentes dependendo de qual dos dois lados do Brasil você está.
Risco muito alto em condição SECA: desnutrição, cólera e outras doenças de veiculação hídrica, estresse térmico, arboviroses (dengue, zika, chikungunya, oropouche, febre amarela), sarampo.
Risco alto em condição SECA: malária, outras doenças transmitidas por vetor, outras doenças preveníveis por vacina, doenças respiratórias, saúde materno-infantil, lesões diretas, violência de gênero, saúde mental, acidentes por animais peçonhentos.
Risco muito alto em condição ÚMIDA: desnutrição, cólera e doenças de veiculação hídrica, malária (aqui sim, muito alto), arboviroses, sarampo.
Risco alto em condição ÚMIDA: outras doenças transmitidas por vetor, outras preveníveis por vacina, doenças respiratórias, saúde materno-infantil, lesões diretas, violência de gênero, saúde mental, acidentes por animais peçonhentos.
A malária, especificamente, é classificada como risco alto (não “muito alto”) em cenário de seca, e muito alto em cenário de chuva intensa — a diferença importa porque parte da imprensa brasileira simplificou isso como um único nível de risco. Fonte: OPAS/OMS, 2026, p. 12-16.
📊 Releia essa lista de risco muito alto: desnutrição, cólera, arboviroses, sarampo — e, em cenário de chuva, malária. Praticamente todas são doenças negligenciadas ou determinadas socialmente. Um documento técnico de uma agência internacional de saúde descreve, sem usar a expressão, boa parte da agenda do MNDN.
Os hospitais em risco, e uma nuance importante
É verdade que a OPAS avaliou a vulnerabilidade de hospitais de emergência a inundações costeiras. Mas o documento é específico sobre o que essa análise mede: são 756 hospitais de emergência que podem ficar expostos a inundações costeiras entre 2020 e 2070, num cenário de longo prazo de elevação do nível do mar — não um efeito direto e imediato do El Niño 2026-2027. A própria OPAS classifica essa elevação do mar como uma ameaça climática de longo prazo, e não uma consequência direta do El Niño, embora o fenômeno possa agravar temporariamente o risco de inundação costeira através de marés mais altas e chuva intensa.
Como o clima vira doença: os cinco caminhos
1. O mosquito acelera. Temperaturas mais altas podem afetar a dinâmica e a capacidade do vetor mosquito e a replicação viral, ao mesmo tempo em que reduzem os habitats de reprodução — o efeito real depende de qual das duas forças pesa mais em cada território.
2. A água some ou contamina. Secas levam ao armazenamento doméstico de água, criando criadouros. Enchentes contaminam a água potável com esgoto e resíduo animal, facilitando cólera e outras doenças de veiculação hídrica.
3. O ar fica irrespirável. Fumaça de queimada viaja longas distâncias e aumenta a exposição a material particulado fino, contribuindo para problemas respiratórios e cardiovasculares mesmo longe do fogo ativo.
4. O corpo perde a regulação. O estresse térmico é a principal causa de morte relacionada ao clima, segundo a OPAS, podendo causar desidratação, exaustão, insolação e mortalidade prematura, além de agravar doença cardiovascular, doença renal crônica, diabetes, doença respiratória, asma e condições de saúde mental.
5. O serviço de saúde para. Danos a estradas, pontes e infraestrutura crítica podem prejudicar o acesso a cuidados de saúde. Para quem depende de tratamento contínuo — insulina, quimioterapia, outros medicamentos de uso prolongado — a interrupção pode ter consequências graves.
OPAS/OMS, 2026, seções “Heat stress” (p. 35) e “Health System Status and Disruptions” (p. 59).
O calor já matou 120 mil brasileiros, e quase ninguém soube
Em 17 de junho de 2026, a Fiocruz e a Universidade Federal da Bahia lançaram o estudo Saúde e ondas de calor no Brasil: evidências sobre mortalidade, morbidade hospitalar e implicações para o SUS.
- A análise de dados de mortalidade em 5.566 municípios, entre 2000 e 2019, estimou aproximadamente 120 mil óbitos atribuíveis ao calor extremo no país;
- O número equivale a 0,6% da mortalidade total do período, excluindo causas externas;
- Os idosos foram os mais afetados: mais de 97 mil óbitos em pessoas de 65 anos ou mais, cerca de 80% do total atribuível;
- A maioria dos municípios brasileiros apresentou tendência de aumento na frequência e intensidade das ondas de calor nas duas décadas estudadas.
Cento e vinte mil mortes em vinte anos. Nenhuma delas foi registrada na certidão de óbito como “morte por calor”. Elas aparecem como infarto, como AVC, como insuficiência respiratória. É por isso que essa é uma epidemia invisível.
Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)
Dengue: o que os números da OPAS realmente mostram
Aqui está um ponto onde o MNDN precisa corrigir o próprio senso comum. Segundo o documento da OPAS, a incidência de dengue na Região das Américas em 2026 caiu 64% em relação ao mesmo período de 2025, e 68% comparada à média dos últimos cinco anos. Ou seja: neste exato momento, a dengue não está em alta, está em queda.
Isso não invalida a preocupação — pelo contrário, explica por que ela é séria. A própria OPAS destaca que, após o El Niño anterior (2018-2019 e novamente 2023-2024), houve grandes aumentos de incidência em todos os países endêmicos da região, com o pico da doença observado entre 3 e 6 meses depois do início do fenômeno, podendo persistir por até 2 anos. O padrão de 2024 — a pior epidemia de dengue da história do Brasil — não foi coincidência temporal com o El Niño anterior, foi consequência dele, com atraso.
- O Brasil registrou em 2024 mais de 6,5 milhões de casos prováveis de dengue, o maior número da série histórica;
- Foram cerca de 6 mil mortes, aumento de aproximadamente 400% em relação a 2023;
- Naquele ano, a dengue matou mais brasileiros que a Covid-19.
👆 Toque aqui para ver o que isso significa para o calendário de 2026-2027.
Ainda não revelado. Toque no card acima.
A OPAS também registra um dado que a imprensa brasileira ainda não deu a devida atenção: a chikungunya está em aumento sustentado desde o fim de 2025 e o início de 2026, com circulação significativa relatada especificamente nas regiões centro-oeste e sudeste do Brasil, além de Cuba e do sul da Bolívia — e retomada de transmissão em áreas que não registravam o vírus havia anos.
A água: dois desastres opostos, a mesma doença
A nota técnica do Observatório de Clima e Saúde do Icict/Fiocruz, de 19 de junho de 2026, aponta que a relevância sanitária do El Niño no Brasil decorre não apenas das alterações no regime de chuvas, mas da capacidade do fenômeno de amplificar riscos já existentes em territórios com déficit de saneamento e infraestrutura urbana frágil.
O próprio documento da OPAS traz um exemplo concreto e verificável desse mecanismo, ocorrido durante a seca amazônica de 2023: no Amazonas, a redução dos níveis de rios e poços afetou a disponibilidade de água, bombas pararam de funcionar em algumas áreas, a qualidade da água piorou pela alta turbidez, e várias comunidades indígenas ficaram isoladas. Segundo o Unicef, citado no documento, pelo menos 25 sistemas de água em terras indígenas pararam de funcionar, obrigando comunidades a percorrer longas distâncias em busca de fontes alternativas — com aumento relatado de diarreia aguda nas áreas afetadas.
No outro extremo, a OPAS documenta o desastre mais grave já registrado de inundação no contexto de El Niño nas Américas em anos recentes: as chuvas torrenciais e enchentes no Rio Grande do Sul, em abril e maio de 2024. Segundo dados oficiais citados no documento, até 10 de junho de 2024 foram contabilizados 173 mortos, 38 desaparecidos, mais de 423 mil pessoas deslocadas e 806 feridos.
As doenças negligenciadas que ninguém colocou na conta
Aqui o MNDN precisa fazer uma distinção honesta, e ela é importante — inclusive porque nos obriga a corrigir uma hipótese própria depois de ler o documento completo da OPAS.
Tudo o que foi apresentado até agora sobre risco de doenças vem de fonte primária citada com página. O que vem a seguir é análise do Movimento, e onde o documento da OPAS trata diretamente do tema, isso está sinalizado.
- Leishmaniose — aqui a evidência aponta o contrário do que se poderia supor. O próprio documento da OPAS mostra que a incidência de leishmaniose cutânea e visceral na Região das Américas está em tendência de queda desde 2005, com o menor número de casos anuais registrado justamente em 2024. A OPAS observa que, em alguns territórios, a transmissão historicamente diminui em anos de El Niño e aumenta nos anos de La Niña seguintes — embora reconheça que essa dinâmica não é universal e depende do ambiente local. Isto é: a seca pode reduzir a doença em vez de agravá-la, ao contrário do que instintivamente se assumiria. O MNDN registra essa correção para não repetir um erro de raciocínio simplista;
- Tracoma. É uma doença de falta de água para higiene do rosto. A OPAS não cita o tracoma nominalmente no documento, mas destaca de forma geral a importância de garantir acesso à água segura em áreas de seca prolongada. Onde a água acaba, a lavagem do rosto de crianças costuma ser uma das primeiras rotinas de higiene sacrificadas — e o Brasil já não sabe dizer com precisão quantas pessoas ainda têm tracoma;
- Esquistossomose, a “barriga d’água”. Doença de contato com água doce contaminada. Não citada nominalmente pela OPAS, mas o mecanismo geral que o documento descreve para “outras doenças transmitidas por vetor” e para eventos de enchente — deslocamento de reservatórios de água, aumento de contato humano-ambiente — se aplica igualmente a doenças de contato hídrico direto como esta;
- Doença de Chagas. Fora da transmissão vetorial clássica, o Brasil registra surtos por transmissão oral, ligados a alimentos como açaí e caldo de cana contaminados. Qualquer fator que altere produção, transporte e armazenamento de alimentos em regiões endêmicas merece vigilância redobrada durante o período;
- Filariose linfática. Transmitida pelo Culex quinquefasciatus, que se reproduz em água poluída e esgoto a céu aberto. O Brasil declarou eliminação da transmissão, mas o esgoto que sustentava o vetor continua exposto em áreas de Recife e Olinda — e chuva extrema sobre esgoto exposto é o pior cenário possível para vigilância pós-eliminação;
- Hanseníase, tuberculose e tratamentos longos. Aqui o mecanismo não é transmissão, é interrupção — e este ponto está diretamente confirmado pela OPAS. O documento afirma textualmente que, para pessoas vivendo com doenças não transmissíveis, interrupções nos serviços de saúde e nas cadeias de suprimento podem ser particularmente graves, já que o acesso contínuo a tratamento é frequentemente vital, recomendando telessaúde, equipes móveis, reposição de receitas e distribuição descentralizada de medicamentos essenciais.
Existe um padrão que se repete na maioria delas, mas não em todas — e isso é mais honesto do que uma narrativa de que “tudo piora”. O El Niño não cria a doença negligenciada, e às vezes até reduz uma delas temporariamente. O que ele faz, de forma consistente, é retirar as últimas defesas que um território sem saneamento, sem água encanada e sem posto de saúde por perto ainda tinha. O fenômeno é climático. A vulnerabilidade é social. E a ciência, quando lida com cuidado, é mais complexa do que qualquer manchete.
João Victor Pacheco Fós Kersul de Carvalho, Presidente do MNDN
Saúde mental, sarampo e violência de gênero: os riscos menos falados
O documento da OPAS dedica seções específicas a três temas que raramente entram no debate público brasileiro sobre El Niño.
- Sarampo: entre a semana epidemiológica 1 e a 19 de 2026, a Região das Américas registrou 20.332 casos confirmados de sarampo em 16 países e territórios, incluindo 25 mortes — um aumento marcante em relação ao mesmo período de 2025. A cobertura vacinal na região segue abaixo da meta de 95% para BCG (88%), Pólio 3 (86%) e, principalmente, a segunda dose da vacina contra sarampo (79%);
- Saúde mental: evidências do Peru, após as enchentes de 2017, documentaram ligação entre sintomas de estresse pós-traumático, insegurança alimentar e redução de capital social entre mães afetadas. Ondas de calor também têm sido associadas a aumento de risco de suicídio, internações psiquiátricas e atendimentos de emergência em saúde mental;
- Violência de gênero: a OPAS estima que quase 123 milhões de mulheres e meninas com 15 anos ou mais — cerca de uma em cada três — já sofreram violência física ou sexual na Região das Américas ao longo da vida. Evidência do México sugere relação mensurável entre déficit de chuva e aumento de violência por parceiro íntimo, registrada em sistemas de saúde, boletins policiais e ligações de emergência.
Onde o Brasil está no mapa de vulnerabilidade
O documento da OPAS classifica os países segundo o Índice de Risco INFORM, uma ferramenta que combina condições estruturais para indicar risco geral de crise. Nessa classificação, o Brasil aparece na categoria de risco INFORM médio, junto de Argentina, Colômbia, México, Peru, Bolívia e outros. No topo da escala, com risco muito alto, está o Haiti; com risco alto, Guatemala, Honduras, Equador e Venezuela.
Essa classificação de risco estrutural precisa ser lida junto com outro dado do próprio documento: em 2024, os deslocamentos internos nas Américas atingiram o recorde de 14,5 milhões de pessoas, mais do que a soma dos cinco anos anteriores, impulsionados majoritariamente por eventos relacionados a desastres — e as enchentes no Rio Grande do Sul foram destacadas pela OPAS como um dos principais eventos de deslocamento da região naquele ano.
📌 O ponto que o MNDN quer fixar: segundo dados da plataforma AdaptaBrasil, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, dois em cada três municípios brasileiros apresentam baixa ou muito baixa capacidade adaptativa às mudanças climáticas. Como aponta o Greenpeace Brasil, os impactos mais severos tendem a atingir principalmente populações periféricas, indígenas, ribeirinhas, costeiras e agricultores familiares — os mesmos grupos que concentram a carga das doenças negligenciadas no país.
O que você pode fazer, a partir de hoje
- Contra o mosquito: se você precisa armazenar água por causa da seca, mantenha os recipientes bem tampados. Revise semanalmente calhas, pratos de planta, pneus e lajes;
- Contra o calor: beba água antes de sentir sede, evite exposição solar entre 10h e 16h. Fique atento a idosos que moram sozinhos, é o grupo com 80% dos óbitos por calor no Brasil;
- Contra a fumaça: em dias de fumaça densa, mantenha janelas fechadas nos horários de pico e evite exercício ao ar livre. Quem tem asma ou DPOC deve manter a medicação de resgate acessível;
- Depois de enchente: evite contato com água de enchente. Febre, dor muscular intensa e dor de cabeça após contato com essa água exigem avaliação médica, pela suspeita de leptospirose;
- Sobre tratamento em curso: se você faz tratamento contínuo de hanseníase, tuberculose ou outra condição crônica e mora em área de risco de isolamento, converse agora com sua unidade de saúde sobre como garantir a medicação em caso de desastre;
- Vacinação: com o sarampo em alta nas Américas e a cobertura vacinal regional abaixo da meta, verifique a caderneta de vacinação da família.
Perguntas que o MNDN dirige aos gestores
- As salas de situação climática e sanitária recomendadas pela nota técnica da Fiocruz já foram ativadas nos estados e municípios de maior risco?
- Qual é o plano específico de continuidade de tratamento para pacientes de hanseníase, tuberculose e leishmaniose em municípios com risco de isolamento, considerando que a própria OPAS recomenda telessaúde, equipes móveis e distribuição descentralizada de medicamentos?
- Diante do dado da OPAS de que a chikungunya já está em aumento sustentado no Centro-Oeste e no Sudeste desde o fim de 2025, que medidas de controle vetorial específicas foram reforçadas nessas regiões?
- Com 20.332 casos de sarampo já confirmados nas Américas em 2026 e cobertura vacinal regional abaixo da meta, qual é o plano de reforço de campanhas de vacinação de rotina no Brasil?
- Existe sistema de alerta precoce para ondas de calor operando no Brasil, com protocolo definido para o SUS, considerando que o estudo da Fiocruz atribui 120 mil mortes ao calor extremo entre 2000 e 2019?
- Qual é o plano de garantia de sistemas de abastecimento de água em terras indígenas, considerando que pelo menos 25 sistemas pararam de funcionar no Amazonas durante a seca de 2023?
A posição do Movimento
O MNDN reconhece o avanço institucional representado pelo Painel El Niño 2026-2027, pela nota técnica da Fiocruz e pelo próprio documento técnico da OPAS, que é rigoroso, transparente sobre incertezas e distingue cenários secos de úmidos com precisão. O país está, desta vez, alertado com meses de antecedência.
Mas alerta não é preparação. Nossa posição:
- Clima é pauta de saúde, não apenas de meio ambiente. O boletim mensal do El Niño precisa ter capítulo sanitário permanente e participação formal do Ministério da Saúde;
- As doenças negligenciadas precisam entrar explicitamente nos planos de contingência, com o mesmo rigor técnico que a OPAS aplicou às arboviroses e à malária;
- Continuidade de tratamento é prioridade absoluta. Nenhum paciente pode abandonar tratamento de hanseníase, tuberculose ou leishmaniose porque a estrada alagou ou o posto fechou;
- Reforço imediato de vigilância de chikungunya no Centro-Oeste e no Sudeste, onde a OPAS já identifica aumento sustentado de casos;
- Campanha de reforço vacinal contra o sarampo, dado o cenário regional de 20 mil casos confirmados em 2026;
- Garantia de sistemas de abastecimento de água em terras indígenas antes do pico da próxima seca amazônica;
- Participação das comunidades atingidas — periféricas, indígenas, ribeirinhas, quilombolas, costeiras e de agricultura familiar — na definição das prioridades de resposta em seus próprios territórios.
O El Niño de 2026-2027 tem data, tem intensidade projetada e tem um documento técnico de 59 páginas descrevendo, risco por risco, o que pode acontecer. É, provavelmente, o desastre mais bem documentado da história recente das Américas. A pergunta que fica não é se ele vem, porque ele já começou. A pergunta é se, desta vez, o país vai usar os meses que tem pela frente — e o ano de 2027, que a própria OPAS aponta como o mais crítico — ou se vai esperar o pico do desastre para descobrir que sabia dele desde julho de 2026.
Perguntas frequentes sobre o El Niño
Um episódio de El Niño costuma se desenvolver entre abril e junho, atingir o pico entre novembro e fevereiro, e persistir de 9 a 12 meses — embora alguns eventos durem mais. O ciclo 2026-2027 foi confirmado em junho de 2026, com pico previsto entre setembro e outubro de 2026, e alta probabilidade de seguir ativo até o início de 2027.
São fases opostas do mesmo fenômeno, o ENSO (El Niño-Oscilação Sul). O El Niño é o aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial; a La Niña é o resfriamento dessas mesmas águas. Os dois alteram o regime de chuvas do planeta, mas geralmente em direções opostas: onde o El Niño costuma trazer seca, a La Niña tende a trazer mais chuva, e vice-versa.
Não. O El Niño é um fenômeno natural e cíclico, que ocorre há milhares de anos independentemente da ação humana. O que muda é o contexto: hoje ele acontece sobre um planeta já mais aquecido pelas emissões de gases-estufa, o que pode intensificar seus efeitos, como ondas de calor mais fortes e secas mais severas.
Não, pelo contrário. O Brasil costuma se dividir em dois cenários opostos: o Norte e o Centro-Oeste tendem à seca e ao aumento de temperatura, com maior risco de incêndios florestais na Amazônia e no Pantanal, enquanto o Sul tende a ter chuva acima da média, com maior risco de enchentes, enxurradas e deslizamentos.
Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde, os riscos de maior gravidade incluem arboviroses (dengue, zika, chikungunya, febre amarela, oropouche), cólera e outras doenças de veiculação hídrica, desnutrição, sarampo e, em cenário de chuva intensa, malária. O estresse térmico é apontado como a principal causa de morte relacionada ao clima. O efeito costuma aparecer com atraso: o pico de doenças como a dengue geralmente ocorre entre 3 meses e 2 anos depois do início do fenômeno.
Segundo a NOAA, há cerca de 96% de probabilidade de o fenômeno permanecer ativo até o início de 2027. Como os impactos mais graves na saúde costumam aparecer no ano seguinte ao início do evento, 2027 pode ser, na prática, mais crítico que 2026.
Fontes e referências
- PAN AMERICAN HEALTH ORGANIZATION / WORLD HEALTH ORGANIZATION. Public Health Situation Analysis: El Niño in the Americas, 2026-2027. Washington, D.C.: PAHO/WHO, 24 de junho de 2026 (divulgação pública em 7 de julho de 2026). Documento consultado na íntegra pelo MNDN, com página citada em cada dado. paho.org — PDF oficial · Nota de imprensa em português.
- INPE. O que é El Niño e La Niña? Perguntas frequentes — Previsão de Tempo e Clima. gov.br/inpe.
- INPE, INMET, ANA, CEMADEN, SGB e SEDEC. Painel El Niño 2026-2027 — Boletim Mensal nº 01, junho de 2026. gov.br/inpe.
- CEMADEN/MCTI. Lançado o primeiro Boletim do Painel El Niño 2026-2027. 30/06/2026. gov.br/cemaden.
- FIOCRUZ e UFBA. Saúde e ondas de calor no Brasil: evidências sobre mortalidade, morbidade hospitalar e implicações para o SUS. Projetos Ciência&Clima e ProAdapta, 17 de junho de 2026. fiocruz.br.
- Observatório de Clima e Saúde, Icict/FIOCRUZ, com PPG em Direito da UFSM. Nota Técnica — Chegada do El Niño e potenciais impactos sobre a saúde, os desastres e a organização dos serviços. 19 de junho de 2026. climaesaude.icict.fiocruz.br.
- UNEMAT. Estudo epidemiológico ecológico retrospectivo sobre custos das internações por doenças cardiorrespiratórias associadas a queimadas na Amazônia Legal e no Cerrado setentrional (2010–2021), citado pelo Portal Amazônia.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Painel de Monitoramento das Arboviroses, dados de 2023 e 2024.
- AdaptaBrasil / MCTI. Índices de capacidade adaptativa dos municípios brasileiros às mudanças climáticas.
- Greenpeace Brasil. Super El Niño 2026: o que esperar e como o Brasil precisa se preparar. Maio de 2026. greenpeace.org/brasil.
Nota de transparência editorial: todos os dados atribuídos diretamente à OPAS/OMS neste texto foram conferidos pelo MNDN no PDF oficial do documento (59 páginas), com a página de origem indicada sempre que possível. A seção “As doenças negligenciadas que ninguém colocou na conta” combina achados diretos do documento (sinalizados como tal) com análise própria do MNDN sobre doenças não nominalmente citadas pela OPAS, e não deve ser confundida com posição oficial da organização.
- Esta matéria tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Se você apresentar febre, falta de ar, dor muscular intensa ou mal-estar após exposição a fumaça, calor extremo ou água de enchente, procure uma unidade de saúde e informe a exposição. O atendimento é gratuito pelo SUS. Em caso de risco iminente de desastre, acione a Defesa Civil pelo 199 ou os Bombeiros pelo 193.