MOVIMENTO NACIONAL DAS DOENÇAS NEGLIGENCIADAS — JUSTIÇA SOCIAL E SAÚDE PARA TODOS
🛒
← Voltar para o início Teníase e cisticercose: a doença que pode explicar 1 em cada 3 crises de epilepsia
📅 | 📂 🔬 Saúde Pública | ✍️

Teníase e cisticercose: a doença que pode explicar 1 em cada 3 crises de epilepsia

🧠 Saúde pública

A neurocisticercose é considerada pela OMS a principal causa evitável de epilepsia no mundo. Em áreas endêmicas, até 30% das pessoas com epilepsia têm lesões causadas por essa doença no cérebro. E ela nasce de algo tão simples quanto comer uma verdura mal lavada.

Esta reportagem tem cards interativos. Toque neles ao longo do texto para ver mais.

Existe uma doença que pode estar por trás de uma em cada três crises convulsivas em regiões endêmicas do Brasil, e que a maioria das pessoas nunca ouviu falar pelo nome certo. Chama-se neurocisticercose, e ela é a fase mais grave de um problema que começa de um jeito banal: um ovo de tênia, presente nas fezes de uma pessoa infectada, contamina água ou alimento, e vai parar no cérebro de outra pessoa. A Organização Mundial da Saúde já chamou essa doença de uma das poucas parasitoses do planeta com potencial real de erradicação. Décadas depois, ela continua entre nós, quase sem notificação obrigatória e quase sem visibilidade pública.

Descreva a cena: criação de porcos a céu aberto ou hortaliças em feira livre
A cisticercose humana nasce do encontro entre saneamento precário e criação de porcos sem controle sanitário. Créditos : CCOM-MPMA

Duas doenças, um só parasita, dois hospedeiros diferentes

Teníase e cisticercose formam o que a literatura médica chama de complexo teníase-cisticercose. As duas são causadas pelo mesmo parasita, a tênia (Taenia solium ou Taenia saginata), mas representam estágios completamente diferentes da doença.

  • 👆 Toque aqui: Teníase — a fase mais leve. Acontece quando a pessoa ingere carne de porco ou boi mal cozida, contaminada com a larva do parasita. A larva vira verme adulto no intestino.
  • 👆 Toque aqui: Cisticercose — a fase grave. Acontece quando a pessoa ingere os ovos da tênia, geralmente por água ou alimento contaminado com fezes humanas. Os ovos viram larvas que migram pelo corpo e podem se alojar em qualquer tecido, inclusive o cérebro.

Toque em um dos cards acima para entender melhor cada fase da doença.

Aqui está o detalhe que poucas pessoas sabem: uma pessoa com teníase no próprio intestino pode se autocontaminar com cisticercose, se não tiver bons hábitos de higiene. E pode contaminar toda a família ao seu redor, através dos ovos eliminados nas fezes. A tênia de uma pessoa vira o risco de todos que vivem com ela.

Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)

Neurocisticercose: quando a larva chega ao cérebro

Quando os cistos da larva se alojam no sistema nervoso central, a doença ganha um nome próprio: neurocisticercose. É considerada a doença parasitária mais comum do sistema nervoso humano em todo o mundo, e sua manifestação mais frequente é a crise epiléptica.

  • Estima-se entre 2,56 e 8,30 milhões de pessoas infectadas por neurocisticercose no mundo;
  • Aproximadamente 50 mil mortes por ano em países em desenvolvimento, segundo a Organização Mundial da Saúde;
  • Em áreas endêmicas, exames de neuroimagem revelam lesões de neurocisticercose em até 30% das pessoas com epilepsia;
  • Estudos internacionais apontam que um terço dos casos de epilepsia, em regiões onde a Taenia solium é endêmica, está associado à neurocisticercose.

O que os hospitais brasileiros já registraram

Não é teoria distante. Estudos feitos dentro de hospitais brasileiros confirmam essa relação de forma concreta:

  • 📍 Recife
    Clique para ver o resultado
  • 📍 Ribeirão Preto
    Clique para ver o resultado
  • 📍 Unicamp
    Clique para ver o resultado

Toque em um dos três locais acima para ver o que cada estudo encontrou.

Descreva a cena: exame de tomografia ou atendimento em serviço de neurologia
O diagnóstico da neurocisticercose depende de exames de imagem, nem sempre disponíveis fora dos grandes centros. Fotos: Pedro Augusto – Secom

Onde a doença é mais notificada, e por quê

Aqui está um dos pontos mais reveladores desta reportagem, e ele exige leitura cuidadosa: os estados que mais notificam a doença não são necessariamente os que mais a têm. São os que mais conseguem diagnosticá-la.

  • As regiões endêmicas mais estudadas no Brasil são São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Goiás;
  • O Paraná aparece com maior incidência entre os estudos publicados;
  • Estados como Acre, Rondônia, Amazonas, Roraima e Tocantins aparecem com poucas notificações, mas isso provavelmente reflete dificuldade de acesso à tomografia computadorizada, não ausência real da doença;
  • Um estudo no Hospital Universitário Regional de Maringá encontrou mais casos de neurocisticercose nos prontuários médicos do que os que haviam sido notificados oficialmente à vigilância epidemiológica no mesmo período.

Um mapa de notificações de neurocisticercose no Brasil não é, na prática, um mapa da doença. É um mapa de quem tem tomógrafo por perto. Regiões sem acesso a exame de imagem não somem da estatística porque não têm a doença: somem porque ninguém consegue prová-la.

Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)

Os óbitos que o Brasil já registrou

Existe uma dificuldade estrutural para falar de números nesta doença: ela não tem notificação compulsória nacional. Os dados que existem vêm de estudos pontuais, cruzando registros do Sistema de Informações sobre Mortalidade.

  • Entre 1980 e 1989, o Brasil registrou 937 óbitos por cisticercose;
  • Entre 2015 e 2017, um levantamento apresentado no Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical encontrou 254 óbitos pela doença;
  • Um estudo cobrindo 2008 a 2018 encontrou a maior taxa de mortalidade em 2013: 0,51 óbito por milhão de habitantes, com tendência de queda ao longo da série;
  • São Paulo, Minas Gerais e Paraná concentraram mais da metade das mortes por cisticercose no país nesse período;
  • A letalidade da neurocisticercose, quando diagnosticada, varia entre 16,4% e 25,9% em levantamentos brasileiros.

O mesmo estudo que reuniu esses dados chega a uma conclusão direta: os achados sugerem provável subnotificação do complexo teníase-cisticercose, justamente pela ausência de obrigatoriedade de notificação nacional.

Quem morre dessa doença no Brasil

  • Óbitos por teníase
    51,4% sexo feminino
    51,4% raça/cor preta
  • Óbitos por cisticercose
    57,3% sexo masculino
    50% raça/cor branca

Um segundo estudo, com recorte mais recente, mostra outro perfil: a maioria dos óbitos por cisticercose no país ocorre em homens de origem branca, entre 50 e 59 anos. Já um levantamento no Nordeste encontrou 22 óbitos por cisticercose humana num período analisado, com a maior parte das mortes concentrada em pessoas com baixa escolaridade — o mesmo padrão social que atravessa praticamente todas as doenças desta série.

Diagnóstico e tratamento: o que existe hoje

  • Diagnóstico: exames de neuroimagem, como tomografia computadorizada e ressonância magnética, além de exame do líquido cefalorraquiano quando necessário;
  • Tratamento: o albendazol é hoje o medicamento de primeira escolha, geralmente associado a corticoide para controlar a inflamação causada pela morte da larva no tecido nervoso;
  • Desafio real: exames de neuroimagem não estão amplamente disponíveis em regiões de alta incidência, segundo diretriz da OMS/OPAS para manejo da doença.

Como se prevenir: o ciclo que pode ser cortado

  • Não comer carne de porco ou boi mal cozida, especialmente de origem sem inspeção sanitária;
  • Lavar bem verduras e frutas, principalmente as que são consumidas cruas;
  • Ter acesso a água tratada e saneamento básico, que impede que fezes humanas contaminem o solo e a água usada na agricultura;
  • Tratar quem tem teníase, interrompendo a fonte de novos ovos circulando no ambiente;
  • Inspeção sanitária da criação de porcos, incluindo destino adequado de fezes humanas em propriedades rurais, já que o porco se contamina exatamente por acesso a fezes humanas infectadas.

Repare no ciclo completo: a pessoa com teníase contamina o solo, o porco criado solto come essa contaminação, a carne desse porco mal cozida infecta outra pessoa. É o mesmo tipo de ciclo que já vimos nas geo-helmintíases e na esquistossomose: fezes humanas sem destino adequado, entrando de novo na cadeia alimentar.

Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)

Linha do tempo

  • 1980 a 1989 O Ministério da Saúde registra 937 óbitos por cisticercose nessa década, um dos primeiros levantamentos oficiais consolidados sobre a doença no país.
  • 1993 A Secretaria da Saúde do Paraná lança um dos primeiros programas estaduais de prevenção, com educação comunitária e administração de medicamento em áreas rurais de alta frequência da doença.
  • 1993 O International Task Force for Disease Eradication, analisando mais de 90 doenças infecciosas e parasitárias, conclui que a cisticercose está entre as poucas com potencial real de erradicação com a tecnologia já disponível.
  • 2013 Registrada a maior taxa de mortalidade por cisticercose da série histórica estudada: 0,51 óbito por milhão de habitantes, com queda gradual observada nos anos seguintes.
  • 2015 a 2017 Levantamento apresentado no Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical identifica 254 óbitos pela doença no período, reforçando a hipótese de subnotificação nacional.
  • 2022 A Organização Mundial da Saúde reafirma a neurocisticercose como principal causa evitável de epilepsia não idiopática no mundo, em diretriz técnica publicada com a OPAS.

Perguntas que o MNDN dirige aos gestores

Logo do Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas
As perguntas a seguir são formuladas pelo MNDN no exercício do controle social previsto na Lei nº 8.142/1990, que garante à sociedade civil participar da formulação e da fiscalização das políticas de saúde.
  • Por que o complexo teníase-cisticercose ainda não tem notificação compulsória em todo o território nacional?
  • Que investimento existe para ampliar o acesso a exames de neuroimagem em regiões de baixa notificação, como Norte e parte do Centro-Oeste, para diferenciar ausência real da doença de simples falta de diagnóstico?
  • Existe algum programa nacional de inspeção sanitária da criação de porcos em pequenas propriedades rurais, onde o controle costuma ser mais frágil?
  • Como os serviços de neurologia do SUS são orientados a investigar neurocisticercose em pacientes com epilepsia de início tardio, especialmente em regiões endêmicas?
  • Que programas de saneamento básico priorizam, explicitamente, a redução do ciclo fecal-oral que sustenta essa doença?

A posição do Movimento

Já em 1993, um comitê internacional apontou a cisticercose como uma das poucas doenças parasitárias do planeta com potencial real de erradicação. Mais de trinta anos depois, o Brasil ainda não tem um sistema nacional de vigilância obrigatória para essa doença, e boa parte do que se sabe sobre ela vem de estudos pontuais em hospitais universitários, não de um sistema de saúde pública estruturado para acompanhá-la.

Nossa posição:

  • Notificação compulsória nacional para o complexo teníase-cisticercose, encerrando a dependência de estudos pontuais para saber o tamanho real do problema;
  • Ampliação do acesso a exames de neuroimagem fora dos grandes centros, para que ausência de notificação deixe de ser confundida com ausência de doença;
  • Investigação sistemática de neurocisticercose em todo paciente com epilepsia de início tardio em região endêmica, como já recomenda a literatura médica brasileira;
  • Inspeção sanitária efetiva da criação de porcos, sobretudo em pequenas propriedades rurais, onde o ciclo entre fezes humanas e alimentação animal é mais difícil de fiscalizar;
  • Saneamento básico como política central de prevenção, já que o ciclo inteiro depende de fezes humanas alcançando água, solo ou ração animal.

As doenças negligenciadas não começam no consultório nem terminam no medicamento. Elas têm origem nas condições em que as pessoas vivem. Uma doença que pode ser eliminada com saneamento básico, e que em vez disso segue causando crises epilépticas evitáveis, é a definição exata do que este movimento existe para enfrentar.

João Victor Pacheco Fos Kersul de Carvalho, Presidente do MNDN

A neurocisticercose não é uma doença rara nem exótica. É uma consequência previsível de saneamento ausente, criação de animais sem controle sanitário e um sistema de vigilância que, décadas depois de identificada como potencialmente erradicável, continua sem os instrumentos básicos para ser combatida de forma sistemática.

Fontes e referências

  • Organização Mundial da Saúde / OPAS. Diretrizes para o manejo da neurocisticercose por Taenia solium, 2022.
  • Neurocisticercose (revisão). SciELO, Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical.
  • Etiologia das crises epilépticas na cidade do Recife, Brasil: estudo de 249 pacientes. SciELO, Arquivos de Neuro-Psiquiatria.
  • Perfil clínico-epidemiológico de pacientes com neurocisticercose atendidos no Hospital Universitário Regional de Maringá, Paraná, Brasil. SciELO, Arquivos de Neuro-Psiquiatria.
  • Perfil epidemiológico dos óbitos por teníase e cisticercose no Brasil. Periódicos Brasil, Pesquisa Científica.
  • Aspectos clínicos e tratamento da neurocisticercose. Revisão de literatura, com referência a Garcia HH et al., 2020.
  • Complexo teníase-cisticercose humana no Brasil. Repositório EPSJV, com dados do DATASUS e do 54º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical.
  • Secretaria de Saúde do Paraná. Teníase e Cisticercose, informações epidemiológicas e medidas de prevenção.
  • Neurocisticercose: a causa mais frequente de epilepsia não idiopática prevenível no mundo. Revista FT, revisão integrativa de literatura.
  • Esta matéria tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Se você tem epilepsia de início tardio, especialmente sem diagnóstico definido, converse com seu neurologista sobre a possibilidade de neurocisticercose. O diagnóstico e o tratamento são oferecidos pelo SUS.

🔴 Quer saber mais sobre doenças negligenciadas?

Participe do nosso movimento e receba informações sobre mutirões e campanhas.

Quero participar →