Na reportagem anterior desta série, mostramos que a eutanásia de cães infectados por leishmaniose é uma política questionada pela própria comunidade científica. Uma pergunta ficou em aberto: se não é a eutanásia, o que é? Parte da resposta já existe, e está no bairro, não no laboratório. São os protetores de animais, pessoas que resgatam, alimentam, tratam e conhecem cada cão da região onde moram, muitas vezes anos antes de qualquer agente público passar por ali.
Quem são os protetores, em números
Não existe um cadastro nacional oficial e único de protetores de animais no Brasil, o que já é, em si, um dado revelador sobre o quanto esse trabalho segue invisível para o Estado. Mas os levantamentos disponíveis mostram a escala do problema que eles tentam resolver, sozinhos, na maior parte do tempo.
- O Brasil tem uma população estimada de 78,1 milhões de cães e gatos, segundo o Instituto Pet Brasil;
- Cerca de 5% desses animais, o equivalente a aproximadamente 3,9 milhões, estão em situação de vulnerabilidade: abandonados, em risco ou sem tutor definido;
- Quase 185 mil animais vivem hoje sob a tutela de ONGs e grupos de protetores cadastrados, sendo 96% cães;
- Esse número não inclui os protetores individuais, pessoas físicas que resgatam e cuidam de animais por conta própria, sem vínculo com nenhuma organização formal;
- O Instituto Pet Brasil monitora mais de 400 ONGs de proteção animal no país, concentradas principalmente na Região Sudeste.
Por trás desses números está um padrão que organizações do setor descrevem com franqueza: os protetores frequentemente se doam por completo, e muitas vezes se endividam pessoalmente para sustentar o trabalho, diante da ausência de políticas públicas estruturadas para enfrentar o problema do abandono. É trabalho essencial sendo sustentado, majoritariamente, no bolso e no tempo livre de quem o faz.
Por que eles importam especificamente para a leishmaniose
Como já explicamos nesta série, o cão funciona como reservatório urbano da leishmaniose visceral: o mosquito-palha pica um cão infectado e depois transmite o parasita a outro animal ou a um humano. Isso significa que identificar cães sintomáticos cedo, e garantir que recebam diagnóstico e cuidado, é uma das etapas mais decisivas do controle da doença.
E aqui está o ponto central desta reportagem: protetores de animais já fazem, informalmente, boa parte dessa identificação precoce. Eles reconhecem quando um cão emagrece, perde pelo, desenvolve feridas de pele ou fica letárgico, muitas vezes antes de qualquer sintoma óbvio para quem não convive diariamente com aquele animal. Eles sabem onde estão os focos de cães sem tutor. Eles têm, sem nenhum treinamento formal, o tipo de conhecimento de território que qualquer política de vigilância epidemiológica levaria anos para construir do zero.
O problema é que esse conhecimento raramente é reconhecido, formalizado ou conectado ao sistema oficial de vigilância em saúde. Ele existe, mas funciona à margem, sem protocolo de encaminhamento, sem capacitação técnica sobre sinais específicos da doença e sem qualquer suporte institucional que sustente esse trabalho a longo prazo.
Existe uma rede de vigilância informal, gratuita e já instalada em praticamente todo bairro do país. Ela não aparece em nenhum organograma de secretaria de saúde. Formalizar essa rede custa muito menos do que construí-la do zero, e o Brasil já tem essa rede pronta, sustentada por quem ama animais.
Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)
De “controle” para “vigilância e cuidado”: um modelo que já existe
A boa notícia é que esse modelo de integração não é hipotético. Ele está sendo testado, com dados concretos, em municípios do estado de São Paulo, articulados pelo Conselho de Secretários Municipais de Saúde (Cosems-SP).
O relato documentado pelo Cosems-SP é direto sobre a mudança de paradigma: historicamente, a população associa o Centro de Controle de Zoonoses a ações restritas de captura, castração e eutanásia. A experiência recente reposicionou essa atuação para “vigilância e cuidado”, ampliando acesso, vínculo, escuta e resposta às demandas da própria comunidade.
E os protetores entram explicitamente nesse desenho. O planejamento territorial das ações inclui “mobilização comunitária com apoio de lideranças, protetores e equipamentos públicos”, como parte formal da estratégia, articulada com Atenção Primária, Vigilância Epidemiológica, Vigilância Ambiental e, quando pertinente, secretarias de bem-estar animal e desenvolvimento social.
- Desde 2024, essa estratégia realizou 32 ações territoriais em bairros priorizados por dados epidemiológicos e vulnerabilidade;
- Resultaram em 3.311 cães e gatos vacinados contra a raiva;
- Foram coletadas 1.049 amostras para investigação de leishmaniose;
- A iniciativa inclui parceria de ensino-serviço com estudantes de Medicina Veterinária, fortalecendo capacidade de campo e qualificação do registro de dados.
É um exemplo real de que formalizar a parceria com protetores não é ideia distante: é política pública em execução, com números que podem ser auditados, replicados e cobrados em outros municípios.
A lacuna: quem é capacitado, e quem não é
Aqui está a assimetria que esta reportagem quer expor. Municípios como Porto Alegre, Contagem e Patos de Minas realizam capacitações regulares sobre leishmaniose, com carga técnica sobre sinais clínicos, manejo e encaminhamento. Mas essas capacitações são dirigidas quase sempre a Agentes Comunitários de Saúde e Agentes de Combate a Endemias, profissionais do quadro público, e raramente incluem, de forma sistemática, os protetores voluntários que também estão na ponta do problema.
Em Contagem, uma capacitação reuniu mais de 50 profissionais de saúde para tratar especificamente do enfrentamento à leishmaniose, dentro de uma política pública que a própria prefeitura descreve como baseada no conceito de Saúde Única. Em Patos de Minas, o Centro de Controle de Zoonoses tem realizado ciclo de palestras para que agentes públicos aprendam a identificar, durante visitas domiciliares, sinais da doença em cães. São iniciativas corretas, e precisam continuar. Mas o protetor que resgata, alimenta e leva um cão ao veterinário raramente é convidado para a mesma sala.
A própria coordenação de zoonoses de Patos de Minas resume o problema com uma frase que o MNDN endossa integralmente: vencer essa batalha exige ação conjunta entre prefeitura e sociedade. O que falta, na maior parte do país, é transformar essa frase em prática sistemática, e não em exceção pontual.
O que uma capacitação de protetores deveria incluir
Não é preciso reinventar o conteúdo técnico: os manuais de vigilância de zoonoses do Ministério da Saúde já orientam capacitação de equipes de Agentes Comunitários de Saúde e da Estratégia de Saúde da Família especificamente para leishmaniose. O mesmo conteúdo, adaptado à linguagem e à rotina de quem já atua no território, pode e deve alcançar protetores. Entre os pontos que fariam diferença prática:
- Reconhecimento de sinais clínicos em cães: emagrecimento progressivo, queda de pelo, lesões de pele que não cicatrizam, crescimento anormal das unhas, apatia;
- Fluxo claro de encaminhamento: para onde levar um animal suspeito, com que documentação e prazo de resposta esperado, hoje frequentemente desconhecido até por quem já atua há anos;
- Manejo ambiental do entorno de abrigos e áreas de resgate, já que locais que concentram muitos animais também podem, se mal manejados, se tornar criadouro do próprio mosquito-palha;
- Noções básicas de biossegurança para quem lida diretamente com animais potencialmente infectados;
- Canal formal de comunicação com a vigilância epidemiológica local, hoje inexistente na maioria dos municípios brasileiros.
Reconhecimento não é só treinamento: também é sustento
Capacitar sem apoiar materialmente é meia solução. As mesmas reportagens que documentam o trabalho dos protetores também documentam sua sobrecarga: organizações relatam aumento de até 60% no número de animais resgatados desde 2020, ao mesmo tempo em que o volume de doações e o número de voluntários disponíveis diminuiu. Abrigos mantidos majoritariamente por doação espontânea hoje abrigam centenas de animais cada, sustentados por poucas pessoas.
Isso significa que qualquer política pública que queira formalizar a parceria com protetores precisa ir além do curso: precisa incluir apoio com ração, insumos veterinários básicos, acesso prioritário a castração gratuita e, no mínimo, reconhecimento formal como parceiros da vigilância municipal, o tipo de reconhecimento que abre porta para editais, parcerias e continuidade do trabalho para além da boa vontade individual.
Perguntas que o MNDN dirige aos gestores
São perguntas de interesse público, dirigidas às secretarias municipais de saúde, aos centros de controle de zoonoses e às secretarias de bem-estar animal, onde existirem:
- Existe, no seu município, algum canal formal de capacitação em vigilância de leishmaniose aberto a protetores de animais, e não apenas a agentes públicos?
- O modelo de integração testado em municípios de São Paulo, com participação de protetores no planejamento territorial de ações de zoonoses, está sendo avaliado para replicação em outras regiões?
- Existe apoio material, como ração, insumos veterinários ou prioridade em castração gratuita, para protetores que colaboram com a identificação precoce de animais doentes?
- Como o conhecimento de território acumulado por protetores é hoje incorporado, ou não, ao planejamento de ações de vigilância epidemiológica?
- Existe algum cadastro municipal de protetores que permita, no futuro, formalizar essa parceria com segurança jurídica para ambos os lados?
A posição do Movimento
O MNDN reconhece que o modelo testado em municípios de São Paulo mostra um caminho real, com dados concretos de vacinação e coleta de amostras que comprovam que integrar protetores à vigilância não é apenas desejável: é operacionalmente viável e já está em curso em algum lugar do país.
Mas isso ainda é exceção, não regra. Nossa posição:
- Capacitação formal e recorrente para protetores, com o mesmo conteúdo técnico hoje restrito a agentes públicos, adaptado à rotina de quem atua voluntariamente;
- Fluxo oficial de encaminhamento entre protetores e vigilância epidemiológica municipal, com prazo de resposta definido e acompanhamento;
- Apoio material contínuo, incluindo insumos veterinários e prioridade em castração, como parte da política de zoonoses, e não como favor pontual;
- Replicação avaliada do modelo Cosems-SP em outros estados, com metas públicas e prestação de contas;
- Reconhecimento formal do protetor como agente de saúde pública comunitária, com a mesma lógica de valorização que este movimento já defende para Agentes Comunitários de Saúde e Agentes de Combate às Endemias;
- Participação social ampliada, incluindo protetores nos conselhos e espaços de decisão sobre políticas de controle de zoonoses, não apenas como executores no território, mas como formuladores da política.
A partir desse diálogo, surge uma possibilidade concreta: construir, junto às secretarias de saúde, aos protetores e aos movimentos sociais, um programa de capacitação e apoio que reconheça o trabalho que já existe, em vez de ignorá-lo até que a doença apareça.
João Victor Pacheco Fos Kersul de Carvalho, Presidente do MNDN
O Brasil não precisa criar do zero uma rede de vigilância comunitária contra a leishmaniose. Ela já existe, em cada protetor que conhece pelo nome os cães do seu bairro. Falta o Estado decidir, de forma sistemática, tratá-la como parceira, e não como coadjuvante invisível de uma política que, sozinha, não tem dado conta do problema.
Fontes e referências
- CNN BRASIL. Brasil tem quase 185 mil animais resgatados por ONGs, diz instituto, com dados do Instituto Pet Brasil (IPB), agosto de 2022.
- REVISTA NOVA FAMÍLIA. A realidade das ONGs que protegem os animais no país, com dados do Instituto Pet Brasil sobre a população pet nacional (78,1 milhões).
- MEDIUM / Alef Midrei. Os protetores dos desprotegidos: ONG luta para acolher animais em situação de vulnerabilidade, com dado de 5% de vulnerabilidade (3,9 milhões de animais).
- RAMPA UERJ. ONGs passam por sobrecarga com excesso de animais abandonados, sobre aumento de 60% em resgates desde 2020.
- COSEMS/SP — Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo. Vigilância em Zoonoses e Saúde Única como Integração e Resposta Territorial, com dados de 32 ações territoriais, 3.311 vacinações e 1.049 coletas para leishmaniose desde 2024.
- PREFEITURA DE CONTAGEM (MG). Qualificação para enfrentar a leishmaniose — capacitação de Agentes Comunitários de Saúde e Agentes de Combate às Endemias.
- PATOS AGORA. Patos de Minas capacita servidores da saúde e amplia vigilância sobre leishmaniose.
- PREFEITURA DE PORTO ALEGRE. Saúde capacita agentes de endemias da Zona Sul sobre leishmaniose visceral.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Vigilância, Prevenção e Controle de Zoonoses: Normas Técnicas e Operacionais, com diretrizes de capacitação de equipes de Atenção Primária.
- PREFEITURA DE BELO HORIZONTE. Manejo Estratégico de Cães e Gatos — controle sanitário e leishmaniose visceral canina.
- Esta matéria tem caráter informativo e não substitui orientação veterinária ou de saúde pública. Se você é protetor de animais e identifica sinais de doença em um cão sob seus cuidados, procure o Centro de Controle de Zoonoses ou a vigilância ambiental do seu município para orientação e diagnóstico.