Toda terça-feira 28 de julho, o mundo para para falar de um órgão que, segundo os próprios médicos, “sofre em silêncio”: o fígado. Em 2026, a data caiu justamente numa terça-feira, e o Brasil decidiu não apenas comemorar, mas apresentar contas. No mesmo dia em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) promovia, ao lado do governo brasileiro, o evento internacional de alto nível do Dia Mundial das Hepatites Virais, o Ministério da Saúde entregou à Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e à OMS o dossiê que pede a certificação de que o Brasil eliminou a transmissão da hepatite B de mãe para filho como problema de saúde pública. É importante ser preciso aqui, porque a diferença importa: o Brasil solicitou a certificação ela ainda não foi concedida, e depende de avaliação técnica internacional.
Por que 28 de julho, e o que o tema de 2026 quer dizer
A data homenageia o cientista Baruch Blumberg, ganhador do Prêmio Nobel, nascido em 28 de julho, que descobriu o vírus da hepatite B e desenvolveu o teste de diagnóstico e a vacina para essa infecção. A OMS instituiu o Dia Mundial de Luta Contra as Hepatites Virais com a meta de eliminar essas doenças como problema de saúde pública até 2030. No Brasil, a data integra o Julho Amarelo, mês nacional de conscientização instituído pela Lei nº 13.802/2019.
O tema oficial da campanha global de 2026, definido pela OMS, é “Hepatitis: Let’s Break It Down” um chamado para remover as barreiras financeiras, sociais e do próprio sistema de saúde que impedem milhões de pessoas de acessar prevenção, testagem, tratamento e cuidado contínuo contra as hepatites virais.
Para a região das Américas, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) reforçou a campanha com a mensagem “Hepatite: de A a E tudo o que você precisa saber”, incentivando a população a conhecer os cinco tipos do vírus e buscar testagem oportuna.
Neste ano, o evento internacional de alto nível da OMS para o Dia Mundial das Hepatites foi organizado em conjunto com o governo brasileiro, à margem da AIDS 2026 (26ª Conferência Internacional sobre Aids), reunindo ministros, especialistas técnicos e sociedade civil para discutir investimento, acesso equitativo e as metas de eliminação até 2030.
Fontes: OMS (who.int/campaigns/world-hepatitis-day/2026); OPAS/OMS EMRO; evento oficial OMS de 28/07/2026.
O panorama mundial em números
O retrato mais recente é o do Relatório Global de Hepatites de 2026 da OMS, divulgado durante a Cimeira Mundial da Hepatite. As hepatites B e C, responsáveis por 95% das mortes relacionadas à doença no mundo, causaram 1,34 milhão de óbitos em 2024. Ao mesmo tempo, a transmissão não parou: são mais de 4,9 mil novas infecções por dia, o equivalente a 1,8 milhão por ano.
- 1,1 milhão de mortes por hepatite B e 240 mil mortes por hepatite C em 2024, sendo cirrose hepática e câncer de fígado as principais causas;
- Avanço desde 2015: novas infecções por hepatite B caíram 32% e as mortes por hepatite C caíram 12% no mundo;
- Crianças protegidas: a prevalência de hepatite B em menores de 5 anos caiu para 0,6% globalmente, com 85 países já atingindo ou superando a meta de 0,1% prevista para 2030;
- Concentração geográfica: dez países Bangladesh, China, Etiópia, Gana, Índia, Indonésia, Nigéria, Filipinas, África do Sul e Vietnã responderam por 69% das mortes por hepatite B no mundo em 2024, com maior carga nas regiões da África e do Pacífico Ocidental.
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O que o Brasil anunciou em 28 de julho e o que ainda não aconteceu
Durante o evento do Dia Mundial de Luta Contra as Hepatites Virais no Rio de Janeiro, o Ministério da Saúde informou que o Brasil atingiu, por dois anos consecutivos, os critérios internacionais para eliminar a transmissão da hepatite B de mãe para filho como problema de saúde pública. O indicador usado é a prevalência de infecção ativa pelo vírus HBV (medida pelo exame HBsAg) em crianças de até 5 anos, que precisa ficar abaixo de 0,1%. No último ano completo de dados, 2025, essa prevalência estimada no Brasil foi de 0,0111%.
Com esse resultado, o governo brasileiro solicitou formalmente à OPAS e à OMS a certificação internacional de eliminação. O pedido ainda passa por três etapas: avaliação interna da OPAS, revisão por um comitê externo de especialistas e, por fim, análise do Comitê Global de Validação da OMS. Não há, até a publicação desta matéria, data prevista para a resposta.
- Cobertura de pré-natal superou 98% entre 2024 e 2025, acima da meta de 95%;
- Meta de vacinação contra HBV nas primeiras horas de vida: pelo menos 90% dos recém-nascidos;
- A prevenção combina testagem da gestante no pré-natal, tratamento antiviral quando necessário durante a gravidez, vacina contra HBV preferencialmente nas primeiras 12 horas de vida e aplicação de imunoglobulina (HBIG) em filhos de mães com hepatite B;
- Em dezembro de 2025, o Brasil já havia recebido a certificação internacional de eliminação da transmissão vertical do HIV o país agora busca repetir o feito para hepatite B e mantém o compromisso de eliminar, até 2030, a transmissão vertical de sífilis, doença de Chagas e HTLV.
Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, a retomada dos investimentos na atenção primária foi “decisiva” para o resultado, já que, em suas palavras, não é possível eliminar doenças infecciosas sem atenção primária forte e saúde baseada nas comunidades.
O retrato das hepatites no Brasil
Segundo o Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais 2025, do Ministério da Saúde, o Brasil confirmou 826.292 casos de hepatites virais entre 2000 e 2024. A hepatite C respondeu pela maior fatia das notificações (41,5%, ou 342.328 casos), seguida da hepatite B (36,6%, 302.351 casos) e da hepatite A (21,2%, 174.977 casos). Hepatite D e E somam, juntas, menos de 1% dos registros do período.
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O MNDN em campo: Julho Amarelo em Natal (RN)
Enquanto o anúncio nacional acontecia no Rio de Janeiro, o MNDN também esteve na ponta da conscientização. Em Natal, a campanha Julho Amarelo que neste mês iluminou de amarelo o pórtico de entrada da cidade e a ponte Newton Navarro foi fortalecida por ações conjuntas da APHETO (Associação dos Portadores de Hepatites do Estado do Rio Grande do Norte), presidida por Luzy Barbosa, do Movimento Brasileiro de Hepatites Virais (MBHV), presidido por Neide Barros, e do MNDN, representado localmente pelo advogado potiguar Bartolomeu Aquino, vice-presidente do movimento na região. As atividades incluíram orientação ao público, distribuição de material educativo e incentivo à realização de testes rápidos gratuitos pelo SUS.
Ação de sala de espera: Bartolomeu Aquino leva o Dia Mundial das Hepatites até quem aguarda atendimento
Além da mobilização em espaços públicos de Natal, o vice-presidente do MNDN , Bartolomeu Aquino, também realizou, no próprio 28 de julho, uma atividade de sala de espera dedicada ao tema. A ação de sala de espera é uma estratégia de educação em saúde amplamente usada por unidades do SUS e por movimentos sociais: em vez de esperar que o paciente procure a informação, a informação vai até ele enquanto aguarda a consulta um momento em que o público costuma estar mais disponível e atento a orientações sobre prevenção, testagem e sintomas.
Na atividade, batizada de “Dia Mundial das Hepatites Virais”, Bartolomeu conversou diretamente com pacientes e acompanhantes sobre as formas de transmissão do vírus, a importância da testagem mesmo na ausência de sintomas e os caminhos gratuitos de diagnóstico e tratamento oferecidos pelo SUS, reforçando a mesma mensagem que orienta a campanha nacional do Julho Amarelo.
A gente não pode esperar que a pessoa vá atrás da informação sobre hepatite muitas vezes ela nem sabe que precisa procurar. Por isso a sala de espera é tão importante: é ali, no tempo em que o paciente já está dentro da unidade de saúde, que a gente consegue explicar que existe teste rápido gratuito, que existe tratamento pelo SUS e que a hepatite B tem vacina. Um bom diálogo nesses poucos minutos pode ser o motivo que falta para alguém finalmente se testar.
Bartolomeu Aquino, vice-presidente do MNDN
Perguntas frequentes sobre o Dia Mundial das Hepatites Virais
Ainda não de forma certificada. O Brasil atingiu, por dois anos consecutivos, os critérios técnicos para eliminar a transmissão de mãe para filho (vertical) da hepatite B como problema de saúde pública, e solicitou a certificação internacional à OPAS/OMS em julho de 2026. O pedido está em análise e ainda passa por revisão de comitês técnicos internacionais.
O tema global definido pela OMS é “Hepatitis: Let’s Break It Down”, um chamado para remover barreiras financeiras, sociais e do sistema de saúde que impedem o acesso à prevenção, testagem e tratamento das hepatites virais.
Segundo o Relatório Global de Hepatites 2026 da OMS, as hepatites B e C causaram 1,34 milhão de mortes em 2024, respondendo por 95% de todas as mortes relacionadas a hepatites virais no mundo.
Sim. O tratamento antiviral de curta duração (8 a 12 semanas), oferecido pelo SUS, cura mais de 95% das infecções por hepatite C. O desafio apontado pela OMS é de acesso: apenas 20% das pessoas com hepatite C no mundo foram tratadas desde que esse tratamento passou a estar disponível, em 2015.
Perguntas que o MNDN dirige ao poder público
- Existe cronograma público para a resposta da OPAS/OMS ao pedido brasileiro de certificação de eliminação da transmissão vertical da hepatite B?
- Como o Ministério da Saúde pretende sustentar, nos próximos anos, a cobertura de pré-natal acima de 98% e a vacinação neonatal contra HBV nas primeiras horas de vida em todas as regiões do país, inclusive nas mais remotas?
- Diante da meta de tratar 80% das pessoas com hepatite C até 2030, qual é o plano do SUS para ampliar a testagem, considerando que a maior parte dos portadores no Brasil ainda desconhece o próprio diagnóstico?
- Que ações estão previstas para reduzir a concentração de casos de hepatite A na Região Nordeste, associada a condições de saneamento básico?
- Qual é o estágio atual dos compromissos de eliminação da transmissão vertical de sífilis, doença de Chagas e HTLV até 2030, anunciados junto com a meta da hepatite B?
A posição do Movimento
O MNDN reconhece o avanço representado pelo pedido de certificação da eliminação da transmissão vertical da hepatite B como resultado de um trabalho sustentado de atenção primária, testagem e vacinação. Mas o movimento também reforça que uma solicitação em análise não é, ainda, uma conquista consolidada e que ela convive, no mesmo boletim epidemiológico, com mais de 300 mil casos históricos de hepatite B e mais de 340 mil de hepatite C notificados no país. Nossa posição:
- Transparência no processo de certificação: divulgação pública das etapas e prazos da avaliação da OPAS/OMS sobre o pedido brasileiro;
- Sustentação da atenção primária que tornou o resultado possível, protegida de cortes orçamentários em transições de governo;
- Ampliação da testagem de hepatite C, hoje o tipo mais notificado no país, para reduzir a distância entre os 20% tratados no mundo desde 2015 e a meta de 80% até 2030;
- Enfrentamento das causas estruturais da hepatite A, ligada a saneamento básico e concentrada na Região Nordeste;
- Cumprimento dos compromissos de eliminação da transmissão vertical de sífilis, doença de Chagas e HTLV até 2030, na mesma velocidade anunciada para a hepatite B.
Pedir a certificação é reconhecer que o trabalho técnico foi bem feito. Mas certificação não é ponto final é o começo da cobrança para que o resultado se sustente em todos os estados, não só nos indicadores nacionais.
Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)
Fontes e referências
- OMS. World Hepatitis Day 2026. who.int.
- OMS. World Hepatitis Day 2026 — High-level commemoration (evento co-organizado com o governo do Brasil). who.int.
- OMS/EMRO. World Hepatitis Day 2026. emro.who.int.
- ONU News. Relatório da OMS indica avanços no combate à hepatite no mundo e destaca Brasil. news.un.org.
- Observador. OMS avisa que hepatite viral ainda é um “desafio global” apesar dos progressos. observador.pt.
- PÚBLICO. OMS avisa que hepatite viral ainda é um “desafio global” apesar dos progressos. publico.pt.
- Ministério da Saúde. Brasil atinge metas para eliminar transmissão da hepatite B de mãe para filho e solicita certificação à OPAS/OMS. gov.br/saude.
- Agência Brasil. Brasil atinge meta de redução da transmissão vertical de hepatite B. agenciabrasil.ebc.com.br.
- Agência Brasil. Dia Mundial de Luta Contra as Hepatites Virais alerta para prevenção (Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais 2025). agenciabrasil.ebc.com.br.
- CNN Brasil. Hepatites virais causam mais de 3 mil mortes por dia no mundo, segundo OMS. cnnbrasil.com.br.
- Via Cearatá Natal. 28 de julho — Dia Mundial de Luta Contra as Hepatites: ações do MNDN, APHETO e MBHV em Natal. viacertanatal.com.br.
- OMS. Global hepatitis report 2024 (metodologia de referência dos indicadores). who.int.
Nota de transparência: todos os dados citados têm fonte oficial verificada, indicada acima. Onde a certificação internacional ainda está em análise, isso é sinalizado explicitamente nesta reportagem.