Em julho, o MNDN mostrou que o Piauí examinava contatos de pessoas com hanseníase pior do que quase todo o resto do Nordeste, uma falha que atrasa diagnósticos, prolonga a cadeia de transmissão e deixa crianças doentes sem que ninguém tenha investigado de onde veio o bacilo. Passados alguns meses, o quadro mudou pouco nos números, mas mudou na institucionalidade: a Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (SESAPI) publicou, em setembro, uma Nota Técnica que orienta o uso de uma ficha padronizada de avaliação clínica de contatos em toda a Atenção Primária e a enviou a todas as secretarias municipais. A ficha não nasceu em gabinete: foi desenvolvida pela enfermeira Telma Vieira Lima em sua dissertação de mestrado profissional na Universidade Federal do Piauí (UFPI), sob orientação da Profa. Dra. Olívia Dias de Araújo, validada cientificamente e aprovada pela Comissão Intergestores Bipartite (CIB) antes de virar orientação estadual. Nesta matéria, o MNDN atualiza os dados com a fonte oficial mais recente do Ministério da Saúde, conta quem criou a nova ficha, o que ela promete resolver e o que ela, sozinha, não resolve.
O retrato que expôs a lacuna
Hanseníase é uma doença de transmissão lenta e silenciosa: a pessoa pode conviver anos com o bacilo de Hansen antes de manifestar qualquer sinal. Por isso a “avaliação de contatos”, isto é, examinar quem morou ou conviveu de perto com um caso confirmado, é considerada a ação mais estratégica do controle da doença: é ela que encontra os casos em estágio inicial, antes das incapacidades físicas, e que interrompe a cadeia de transmissão dentro de casa. O Guia de Linhas de Cuidado da Hanseníase e Tuberculose, publicado pela SESAPI em parceria com o Centro de Inteligência em Agravos Tropicais, Emergentes e Negligenciados (CIATEN/UFPI), é claro sobre o tamanho do problema no estado.
- 701 casos novos de hanseníase foram diagnosticados no Piauí em 2024;
- mais de 76% deles já na forma multibacilar, ou seja, diagnosticados tarde, quando a carga bacilar é mais alta;
- 20 casos em menores de 15 anos, o que o próprio guia estadual chama de “forte indicador de transmissão ativa” dentro de casa;
- 85,6% de taxa de cura: regular, mas distante do ideal, que se aproxima de 100%;
- 66,8% dos contatos dos casos diagnosticados foram avaliados em 2024, segundo o próprio guia SESAPI/CIATEN, um índice que o documento classifica como “precário”.
Contato domiciliar é quem mora ou já morou com uma pessoa com hanseníase; contato social é quem conviveu de forma próxima e prolongada, mesmo sem dividir teto, como vizinhos e colegas de trabalho ou de escola. A nova Nota Técnica da SESAPI reforça as duas categorias, mesmo priorizando o contato domiciliar, como já orienta o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) nacional. Examinar esse grupo é o que permite achar casos ainda sem sintomas visíveis, vacinar contatos assintomáticos com BCG quando indicado e, sobretudo, cortar a corrente de transmissão antes que ela chegue a outra criança.
Fonte: Nota Técnica nº 4/2026/CDT/GAS/DUVAS/SUPAT/SESAPI-PI; PCDT da Hanseníase (Portaria SCTIE/MS nº 67/2022).
Como o Piauí se compara ao resto do Nordeste em 2024
Os dados mais recentes e oficiais sobre o tema não vêm do estado, mas da própria série histórica do Ministério da Saúde: o painel “Percentual de contatos examinados de hanseníase por Unidades da Federação, Regiões e Brasil, 2010 a 2024”, da Coordenação-Geral de Vigilância da Hanseníase e Doenças em Eliminação. Segundo esse painel, o Piauí fechou 2024 com 67,4% de contatos examinados, uma diferença pequena em relação ao número citado pelo próprio guia estadual (66,8%), típica de cortes de dados feitos em momentos diferentes do ano. O que os dois números confirmam é o mesmo: o Piauí está abaixo da média do Nordeste (79,1%) e do Brasil (80,0%).
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Uma queda que não é linear
O Piauí não vem de um patamar historicamente baixo, pelo contrário. Entre 2016 e 2019, o estado examinava entre 75% e 77% dos contatos registrados, patamar respeitável. A queda mais forte aconteceu em 2022 (58,7%), no rescaldo da pandemia de covid-19, quando boa parte da Atenção Primária ainda reorganizava rotinas. Houve recuperação parcial em 2023 (73,4%), mas 2024 trouxe nova queda, para 67,4%, sinal de que o problema não é apenas herança da pandemia, e sim de sustentação da rotina de vigilância ano após ano.
O que mudou: uma ficha criada na universidade que virou orientação estadual
A Ficha de Avaliação Clínica de Contatos de Hanseníase foi desenvolvida pela enfermeira Telma Vieira Lima, que atua em uma equipe de Saúde da Família em Teresina, na dissertação de mestrado profissional “Desenvolvimento e evidência de validação de tecnologia assistencial para avaliação clínica de contatos de hanseníase”, do Programa de Pós-Graduação em Saúde da Família (RENASF/UFPI/FIOCRUZ). A pesquisa foi orientada pela Profa. Dra. Olívia Dias de Araújo, docente do Departamento de Enfermagem da UFPI, e é vinculada ao Centro de Inteligência em Agravos Tropicais, Emergentes e Negligenciados (CIATEN/UFPI). Segundo a autora, o instrumento é inédito: até então, não havia uma ferramenta que organizasse e orientasse, passo a passo, a avaliação de contatos de hanseníase.
Depois de validada, a ficha foi apreciada e aprovada pela Comissão Intergestores Bipartite (CIB) do Piauí, lançada em evento e recomendada pela SESAPI para uso pelos profissionais da Atenção Primária em todo o estado. Em 1º de setembro de 2026, a SESAPI publicou a Nota Técnica nº 4/2026, com as orientações para utilização da ficha. Dez dias depois, em 11 de setembro, a Secretária de Estado da Saúde substituta, Karol Silva Ciríaco, assinou o Ofício Circular nº 0026381337/2026, encaminhando a nota técnica a todas as secretarias municipais de saúde do estado.
A validação foi feita em duas frentes: com especialistas em hanseníase de vários estados e com o público-alvo, ou seja, profissionais que vão usar o instrumento na rotina. Os resultados:
- 0,97 foi o Índice de Validade de Conteúdo (IVC) da ficha, avaliado por 11 juízes especialistas;
- 0,919 foi o alfa de Cronbach global, medida de consistência interna do instrumento;
- 80,0 foi a mediana de usabilidade (System Usability Scale) entre 11 profissionais da Atenção Primária que testaram a ficha, com 90,9% deles pontuando 68 ou mais.
Fonte: Nota Técnica nº 4/2026/SESAPI-PI, com base na dissertação de Telma Vieira Lima (RENASF/UFPI/FIOCRUZ), orientada pela Profa. Dra. Olívia Dias de Araújo.
Telma enviou um depoimento sobre a trajetória da pesquisa. Reproduzimos o texto na íntegra:
Sou enfermeira da Atenção Primária, atuando numa equipe de Saúde da Família no município de Teresina. Quando resolvi fazer o mestrado, eu tinha certeza de que o tema da minha dissertação seria a hanseníase, por ser uma doença que, apesar de ter tratamento e poder ser manejada na maioria dos casos na Atenção Primária, ainda é um importante problema de saúde pública. Ao longo dos anos de minha vida profissional, o contato com as pessoas acometidas pela hanseníase e os desafios que surgem diante desses casos me fizeram ter um interesse maior pela doença e buscar meios de me qualificar para poder atender melhor esse grupo.
Tive a oportunidade de estar em um programa de mestrado que me permitiu ser orientada pela professora Olívia Dias, que sempre vi como uma grande referência na assistência de pessoas com hanseníase. O desafio seria desenvolver e validar uma ficha de avaliação de contatos, já que a chance maior de encontrar novos casos é fazer uma boa avaliação desses contatos.
A ficha foi desenvolvida e passou por um processo de validação junto a profissionais de vários estados, todos com expertise e bastante experiência em hanseníase, e também com o público-alvo, ou seja, profissionais que usarão o instrumento na sua rotina de assistência. Na análise de dados, obteve índices excelentes de aprovação, sendo, portanto, validada como um instrumento que pode fortalecer a prática profissional na assistência aos contatos de hanseníase, qualificando o processo de vigilância e cuidado desses contatos, melhorando os registros e dando mais segurança na tomada de decisões no seguimento dos atendimentos. Por fim, entendo que é um instrumento que sistematiza o atendimento do contato, guiando o profissional no passo a passo de sua avaliação e monitoramento.
Telma Vieira Lima, enfermeira da Atenção Primária em Teresina e autora da Ficha de Avaliação Clínica de Contatos de Hanseníase
Na prática, a ficha padroniza o que antes ficava a critério de cada profissional: identificação do contato e do caso índice, roteiro de sinais e sintomas por região do corpo, exame dermatoneurológico sistemático (avaliação de sensibilidade térmica, dolorosa e tátil, palpação de nervos periféricos, teste de força muscular), fluxo do teste rápido para IgM anti-Mycobacterium leprae e conduta sobre BCG. A nota técnica da SESAPI é explícita: a ficha “não substitui os instrumentos oficiais de notificação, investigação, registro ou acompanhamento” do Ministério da Saúde e do SUS. Ela é um roteiro de apoio, não um novo sistema de informação.
Documentos oficiais na íntegra
O MNDN hospedou cópia dos três documentos que embasam esta apuração. São registros públicos; a Nota Técnica e o Ofício têm código verificador SEI, que permite conferir a autenticidade diretamente em sei.pi.gov.br. Reprodução com citação de fonte.
Segundo o fluxo descrito na Nota Técnica nº 4/2026, um contato sem sinais de hanseníase que testa reagente entra em vigilância ativa, com avaliação clínica anual por até cinco anos, e quem testa não reagente recebe orientação sobre autoexame e sinais de alerta. Já contatos com alterações clínicas inconclusivas passam por baciloscopia: se positiva, inicia-se o tratamento; se negativa, o caso é encaminhado para avaliação na Atenção Especializada. O teste rápido nunca é usado sozinho para fechar diagnóstico. Isso, quando os critérios clínicos já apontam hanseníase, é decisão clínica.
Fonte: Nota Técnica nº 4/2026/CDT/GAS/DUVAS/SUPAT/SESAPI-PI, seção 8 (Fluxo do teste rápido para contatos assintomáticos e casos inconclusivos).
Centro Maria Imaculada: a porta de entrada da hanseníase em Teresina
Um nome aparece repetidas vezes nos documentos e nas histórias por trás desta reportagem: Centro Maria Imaculada (CMI). É o serviço especializado que a Nota Técnica da SESAPI lista como referência secundária de hanseníase para Teresina e região. É também o lugar onde o estudante Raí de Moura Ribeiro conheceu as pessoas que viraram protagonistas do documentário “A Dor da Pele”. E é onde atua Stephanie, uma das lideranças que participaram do evento retratado na foto acima, hoje coordenadora do CMI.
O CMI é mantido pela ASA Teresina (Ação Social Arquidiocesana da Arquidiocese de Teresina) e atende gratuitamente pessoas com hanseníase de Teresina e de diversos municípios do Piauí, com cuidado integral e humanizado. Segundo a própria instituição, “hanseníase tem cura e o tratamento é gratuito”; depois de iniciado o tratamento, a pessoa deixa de transmitir a doença.
- Diagnóstico: consultas dermatológicas, baciloscopia e biópsia;
- Tratamento completo, com medicação entregue de forma gratuita;
- Fisioterapia especializada para reabilitação e prevenção de incapacidades;
- Apoio psicossocial no enfrentamento ao estigma da hanseníase;
- Confecção gratuita de órteses, próteses e palmilhas;
- Setor de curativo especializado em hanseníase e Serviço Social próprio.
O endereço do CMI, Rua Dezenove de Novembro, 4370, Real Copagri, Teresina, aparece de forma idêntica tanto no site da ASA Teresina quanto no Anexo E da série de notas técnicas da SESAPI sobre encaminhamento de pacientes com hanseníase, o que confirma tratar-se do mesmo serviço, hoje peça central da rede de referência especializada do estado.
Tuberculose: o outro lado da mesma rede de cuidado
O mesmo guia que traz os dados de hanseníase também documenta a tuberculose no Piauí, e o retrato ali é mais duro. Diferente da hanseníase, a tuberculose é uma doença curável em poucos meses de tratamento quando bem conduzida; ainda assim, o estado está longe da meta.
- 1.147 casos de tuberculose foram diagnosticados no Piauí em 2023, sendo 902 casos novos;
- incidência de 26,8 por 100 mil habitantes;
- apenas 57,3% de taxa de cura, bem abaixo do parâmetro considerado adequado pelo Ministério da Saúde;
- 4,9% de interrupção de tratamento e 3,2 óbitos por 100 mil habitantes em mortalidade associada;
- 18,9% dos casos de tuberculose no estado eram coinfectados por HIV.
Para o êxito do tratamento da tuberculose é fundamental que o profissional de saúde acolha o usuário com abordagem humanizada, e o estabelecimento de vínculo entre profissional e usuário.
Guia de Linhas de Cuidado da Hanseníase e Tuberculose, SESAPI/CIATEN-UFPI, 2025
Ciência vira tela: “A Dor da Pele” leva a hanseníase ao Cinema do Piauí
Enquanto a rede de saúde reorganiza a vigilância de contatos, outra frente do CIATEN/UFPI trabalhava com a mesma doença por um caminho diferente: o audiovisual. O documentário “A Dor da Pele”, produzido no centro de pesquisa, foi selecionado para o 20º Festival Nacional de Cinema do Piauí (CINEPIAUÍ), Encontro Nacional de Cinema e Vídeo dos Sertões, anunciado em 16 de setembro de 2026. A obra nasceu de um projeto de iniciação científica do estudante de Medicina Raí de Moura Ribeiro, sob orientação do professor Fábio Solon Tajra, a partir do contato do estudante com pessoas em tratamento ou já curadas no Centro Maria Imaculada, em Teresina.
A produção técnica e artística ficou a cargo de Alisson Carvalho, responsável por direção, captação de imagens, produção, edição e pós-produção. Foram cerca de oito a dez entrevistas com pessoas afetadas pela hanseníase, familiares e integrantes do Centro Maria Imaculada. Para o professor Fábio Solon Tajra, o objetivo é aproximar quem está fora da universidade do conhecimento científico produzido dentro dela, como parte de uma proposta mais ampla do grupo de unir ciência e arte na circulação do conhecimento.
Quando você vê a própria pessoa falando da sua dor, você passa a observar o outro não mais como um dado.
Alisson Carvalho, diretor de “A Dor da Pele” (CIATEN/UFPI)
Vídeo do documentário
Assista a “A Dor da Pele”, documentário do CIATEN/UFPI. Direção: Alisson Carvalho.
O que avançou e o que ainda trava
Seguindo a metodologia que o MNDN já usa para avaliar promessas e políticas públicas, classificamos o que os documentos oficiais mais recentes permitem afirmar sobre o Piauí:
- Avançou: existe agora um instrumento padronizado, inédito e cientificamente validado para a avaliação clínica de contatos. Desenvolvido em mestrado profissional da UFPI (RENASF/UFPI/FIOCRUZ) e aprovado pela CIB/PI, tem uso orientado pela Nota Técnica nº 4/2026, traz fluxo claro de teste rápido, BCG e encaminhamento e já foi formalmente enviado a todos os municípios em 11/09/2026;
- Avançou: o Guia de Linhas de Cuidado (SESAPI/CIATEN-UFPI, 2025) consolidou fluxogramas de referência e contrarreferência para hanseníase e tuberculose, algo que antes dependia de arranjos informais entre serviços;
- Parcial: a taxa de cura da hanseníase (85,6%) é “regular”, nas palavras do próprio guia estadual, mas segue distante do parâmetro ideal, próximo de 100%;
- Travado: o percentual de contatos examinados caiu de 76,7% em 2019 para 67,4% em 2024. A nova ficha ainda não tem, até a publicação desta matéria, indicador público de quanto vai elevar esse número, nem prazo definido para adoção em todos os 224 municípios;
- Travado: a tuberculose segue com cura de apenas 57,3% (2023) e mortalidade de 3,2 por 100 mil habitantes, indicadores que os próprios documentos da SESAPI reconhecem como insuficientes;
- Sem evidência: não há, nos documentos consultados, dados públicos sobre quantos dos 20 casos pediátricos de 2024 tiveram a fonte de infecção domiciliar efetivamente identificada e tratada, uma lacuna de transparência que o MNDN registra, sem atribuir a omissão a má-fé de nenhum gestor.
Perguntas que o MNDN dirige ao poder público
- Por que o percentual de contatos de hanseníase examinados no Piauí caiu de 76,7% (2019) para 67,4% (2024), mesmo com estrutura de vigilância já existente?
- Qual é o prazo e a meta numérica que a SESAPI estabelece para que os 224 municípios piauienses adotem a nova Ficha de Avaliação Clínica de Contatos?
- Como e onde será publicado, de forma pública e periódica, o indicador de contatos efetivamente avaliados após a implantação da nova ficha?
- Que ações concretas de capacitação de equipes da Atenção Primária estão previstas, com orçamento e cronograma divulgados, para viabilizar o uso da ficha?
- Os 20 casos de hanseníase em menores de 15 anos registrados em 2024 tiveram a fonte domiciliar de infecção investigada e notificada?
- Que plano específico existe para elevar a cura da tuberculose no Piauí, hoje em 57,3%, e reduzir a mortalidade associada à doença?
A posição do Movimento
A Ficha de Avaliação Clínica de Contatos de Hanseníase é uma conquista real: nasceu da pesquisa de mestrado de uma enfermeira da Atenção Primária, Telma Vieira Lima, orientada pela Profa. Dra. Olívia Dias de Araújo na UFPI; passou por validação com juízes especialistas e por teste de usabilidade com quem vai efetivamente usá-la no dia a dia; foi aprovada pela CIB e chegou a todos os municípios por via institucional formal. É a universidade pública e a ciência brasileira produzindo, a partir da prática do SUS, uma ferramenta que volta para o SUS. Isso não é pouco em um estado onde, historicamente, a vigilância de contatos oscilou por falta de padronização. Mas um instrumento de qualidade não substitui meta, prazo e orçamento, e é exatamente isso que falta nos documentos que o MNDN teve acesso até agora. Nossa posição:
- Meta pública com prazo: a SESAPI deve publicar uma meta numérica de contatos examinados para 2027, com cronograma de implantação da ficha por regional de saúde;
- Transparência recorrente: o indicador de contatos avaliados deve ser publicado trimestralmente, não apenas em guias técnicos de circulação restrita a profissionais;
- Prioridade à infância: todo caso pediátrico de hanseníase deve ter a busca da fonte domiciliar de infecção registrada e auditável, dado o valor desse indicador como sinal de transmissão ativa;
- Tuberculose no mesmo patamar de atenção: a cura de 57,3% para tuberculose exige plano específico, com o mesmo grau de institucionalidade que a nova ficha de hanseníase recebeu;
- Ciência e comunicação de mãos dadas: a ficha de contatos e o documentário “A Dor da Pele” mostram que a universidade pública, junto aos serviços do SUS, é capaz tanto de validar um instrumento clínico quanto de combater o estigma pela narrativa, e essas iniciativas merecem financiamento contínuo, não apenas reconhecimento pontual.
Um instrumento validado é conquista técnica; virar rotina em 224 municípios, com meta e prestação de contas, é conquista política. O Piauí deu o primeiro passo; falta dizer até quando vai levar para dar o segundo.
João Victor Pacheco Fós Kersul de Carvalho, Presidente do MNDN
Perguntas frequentes sobre hanseníase no Piauí
É um instrumento padronizado para orientar profissionais da Atenção Primária na avaliação clínica de contatos de pessoas com hanseníase: identificação do contato, exame dermatoneurológico, uso do teste rápido, situação vacinal de BCG e conduta. Foi desenvolvido e validado na dissertação de mestrado profissional da enfermeira Telma Vieira Lima (RENASF/UFPI/FIOCRUZ), orientada pela Profa. Dra. Olívia Dias de Araújo e vinculada ao CIATEN/UFPI. Após aprovação pela CIB do Piauí, teve o uso recomendado pela SESAPI por meio da Nota Técnica nº 4/2026, enviada a todos os municípios em setembro de 2026.
Porque a hanseníase tem transmissão lenta e o bacilo pode incubar por anos sem sintomas visíveis. Examinar quem conviveu de perto com um caso confirmado é a forma mais eficaz de achar novos casos no início, antes de incapacidades físicas, e de interromper a cadeia de transmissão dentro da própria casa, algo especialmente relevante quando há crianças na rede de convívio.
Nos dados de fechamento de 2024 do Ministério da Saúde, o Piauí (67,4%) aparece na segunda pior posição do Nordeste, à frente apenas da Bahia (65,9%) e atrás do Rio Grande do Norte (69,3%). Está, de todo modo, bem abaixo da média regional (79,1%) e nacional (80,0%), o que confirma a gravidade do problema mesmo sem ser, no corte mais recente, o pior isolado da região.
Os principais canais são o painel de dados epidemiológicos de hanseníase do Ministério da Saúde (gov.br/saude), o SINAN/DATASUS, e os documentos técnicos publicados pela SESAPI, como o Guia de Linhas de Cuidado da Hanseníase e Tuberculose e as notas técnicas da Coordenação de Doenças Transmissíveis, disponíveis no site institucional da Secretaria de Estado da Saúde do Piauí.
Nota de correção (28/09/2026)
A versão original desta matéria, publicada em 21/09/2026, atribuiu à SESAPI a criação da Ficha de Avaliação Clínica de Contatos de Hanseníase e não mencionou a orientação acadêmica, o vínculo com o CIATEN/UFPI nem a aprovação pela CIB/PI. A ficha foi desenvolvida na dissertação de mestrado profissional de Telma Vieira Lima (RENASF/UFPI/FIOCRUZ), sob orientação da Profa. Dra. Olívia Dias de Araújo, e teve o uso recomendado pela SESAPI após aprovação pela CIB. O título, o texto, as perguntas frequentes e as referências foram atualizados. Corrigimos ainda a descrição do documentário “A Dor da Pele”, que foi selecionado para o festival, e não premiado. O MNDN agradece à Profa. Olívia Dias de Araújo e a Telma Vieira Lima pelas informações.
Fontes e referências
- LIMA, Telma Vieira. Desenvolvimento e evidência de validação de tecnologia assistencial para avaliação clínica de contatos de hanseníase. Dissertação (Mestrado Profissional em Saúde da Família), Programa de Pós-Graduação em Saúde da Família, RENASF/UFPI/FIOCRUZ, Teresina. Orientadora: Profa. Dra. Olívia Dias de Araújo. Vinculada ao Centro de Inteligência em Agravos Tropicais, Emergentes e Negligenciados (CIATEN/UFPI).
- SESAPI; CIATEN/UFPI. Linhas de Cuidado da Hanseníase e Tuberculose: Guia de orientações para gestores e profissionais de saúde do Piauí. Teresina, versão 14/10/2025. PDF hospedado pelo MNDN.
- SESAPI. Nota Técnica nº 4/2026/CDT/GAS/DUVAS/SUPAT/SESAPI-PI: Orientações para Utilização da Ficha de Avaliação Clínica de Contatos de Hanseníase na Atenção Primária à Saúde no Estado do Piauí. 01/09/2026. PDF hospedado pelo MNDN.
- SESAPI. Ofício Circular nº 0026381337/2026/SESAPI-PI/GAB/SUPAT, encaminhado às Secretarias Municipais de Saúde do Piauí. 11/09/2026. PDF hospedado pelo MNDN.
- Informações prestadas ao MNDN pela Profa. Dra. Olívia Dias de Araújo (UFPI) e por Telma Vieira Lima, autora da ficha, em setembro de 2026.
- BRASIL. Ministério da Saúde/SVSA/CGDE. Percentual de contatos examinados de hanseníase por Unidades da Federação, Regiões e Brasil, 2010 a 2024. gov.br/saude.
- UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ (UFPI). Documentário “A Dor da Pele”, produzido pelo CIATEN/UFPI, é selecionado para o 20º Festival Nacional de Cinema do Piauí. 16/09/2026. ufpi.br.
- MOVIMENTO NACIONAL DAS DOENÇAS NEGLIGENCIADAS (MNDN). Hanseníase no Piauí: o estado que menos examina contatos no Nordeste. mndnbrasil.org, matéria original que motivou esta atualização.
- AÇÃO SOCIAL ARQUIDIOCESANA DA ARQUIDIOCESE DE TERESINA (ASA Teresina). Centro Maria Imaculada. asateresina.org.br.
Créditos das imagens: visita domiciliar: reprodução/CEJAM (cejam.org); fita roxa: divulgação/Biblioteca Cofen; lideranças no evento: acervo MNDN; Centro Maria Imaculada: divulgação/ASA Teresina; produção de “A Dor da Pele”: divulgação/CIATEN-UFPI; mapa e logo: arte MNDN.
Nota de transparência: todos os dados numéricos citados têm fonte indicada acima. O percentual de contatos avaliados no Piauí em 2024 aparece com pequena diferença entre a fonte estadual (66,8%, guia SESAPI/CIATEN) e a fonte federal (67,4%, painel MS/SVSA/CGDE); ambos os números são citados nesta matéria, pois refletem cortes de apuração distintos. A aprovação da ficha pela CIB/PI foi informada ao MNDN pela autora e pela orientadora. O mapa da Região Nordeste usa a malha de fronteiras estaduais de domínio público (derivada de dados do IBGE, via repositório aberto), simplificada para exibição em tela; não é um produto cartográfico oficial do IBGE ou da SESAPI. Não foi possível confirmar publicamente, até a publicação desta matéria, meta ou cronograma estadual para elevar o percentual de contatos examinados; essa lacuna é registrada como falta de transparência do Estado, não como fracasso de apuração do MNDN.