Arbovirose é o nome técnico dado a doenças transmitidas por vírus que dependem de um vetor artrópode para chegar até o corpo humano. No Brasil, quase todas as que importam vêm do mesmo inseto: o Aedes aegypti. Isso significa que dengue, zika, chikungunya e a febre amarela urbana não são quatro problemas separados. São quatro sintomas de um único problema, que é o ambiente que oferecemos a esse mosquito para se reproduzir. Entender essa doença exige olhar menos para o vírus e mais para a caixa d’água, o pneu no quintal e o clima que está mudando.
Um mosquito, quatro doenças
O Aedes aegypti é hoje o vetor mais relevante de saúde pública urbana no Brasil. Pela picada de uma única fêmea, é possível transmitir o vírus da dengue, o vírus zika, o vírus chikungunya e, em contextos de reintrodução urbana, até o vírus da febre amarela. É um inseto pequeno, doméstico e silencioso, que se adaptou de forma quase perfeita à cidade brasileira.
A dengue é a mais conhecida e a de maior impacto em número de casos. A chikungunya provoca dores articulares que podem se tornar crônicas, incapacitando por meses. A zika, além do quadro agudo geralmente leve, ficou marcada por sua associação com microcefalia em bebês de mães infectadas durante a gestação. As três circulam simultaneamente em boa parte do território nacional, e uma pessoa pode ser infectada por mais de uma delas na mesma vida, às vezes na mesma estação de chuvas.
2024: o pior ano já registrado
Os números de 2024 não têm precedente na série histórica brasileira. Segundo o Painel de Monitoramento de Arboviroses do Ministério da Saúde, o país registrou mais de 6,6 milhões de casos prováveis de dengue e mais de 6 mil óbitos confirmados naquele ano.
- Os casos de dengue em 2024 representaram um aumento de 300% em relação a 2023;
- As mortes confirmadas cresceram 422% na mesma comparação;
- Seis estados concentraram 87,5% dos casos prováveis de dengue no primeiro semestre de 2024: Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, Goiás e Distrito Federal;
- As regiões com maior incidência deixaram de ser exclusivamente as tradicionalmente endêmicas: Sudeste, Centro-Oeste e Sul registraram os maiores coeficientes.
Em 2025, o país iniciou o ano com queda expressiva em relação ao pico anterior, muito em função da imunidade adquirida coletivamente após a epidemia anterior e das medidas de resposta emergencial. Ainda assim, entre janeiro e junho de 2025, o Brasil somava mais de 1,5 milhão de casos prováveis e cerca de 1.300 óbitos confirmados, com outras 651 mortes em investigação. Uma epidemia menor que a anterior continua sendo uma epidemia grave.
Comparar 2025 com o recorde histórico de 2024 e chamar o resultado de “melhora” é uma leitura perigosa. O patamar de 2025 ainda supera, em muitos estados, tudo o que o Brasil considerava alarmante há poucos anos.
Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)
Onde o mosquito realmente nasce
Existe um dado que deveria orientar toda política pública de combate à dengue, e que frequentemente se perde nas campanhas genéricas: 75% dos focos de Aedes aegypti são encontrados dentro das próprias casas, não em terrenos baldios ou espaços públicos distantes. Caixas d’água mal vedadas, pratos de vaso de planta, calhas entupidas, garrafas viradas para cima e pneus acumulados no quintal são os criadouros mais comuns.
Isso muda o centro do problema. Combate à dengue não é, primeiramente, uma questão de fumacê ou de mutirão pontual, embora essas ações tenham seu papel. É, antes de tudo, uma questão de infraestrutura doméstica básica: abastecimento de água regular, que evita o hábito de estocar água em recipientes abertos, e coleta de lixo eficiente, que evita o acúmulo de pneus, garrafas e entulho que retêm água da chuva.
O crescimento de cidades sem infraestrutura adequada, com saneamento básico precário e falta de controle de resíduos, cria exatamente as condições que mais favorecem a proliferação do mosquito. É a mesma equação que já apareceu, nesta série, em relação à esquistossomose, às geo-helmintíases e à leishmaniose: a doença nasce onde a infraestrutura falta, não onde a natureza é mais hostil.
O clima está mudando, e o mosquito está indo atrás
Aqui está a análise que faltava nas coberturas convencionais sobre arboviroses: o Ministério da Saúde, em publicação técnica oficial, reconhece que as mudanças climáticas têm papel direto na expansão do Aedes aegypti pelo território brasileiro, e o mecanismo biológico por trás disso é bem compreendido.
Temperaturas mais altas aceleram o ciclo de vida do mosquito, reduzindo o tempo entre ovo, larva e adulto, o que significa mais gerações de mosquitos no mesmo período de tempo. E o aumento da temperatura média permite que o inseto sobreviva e se reproduza em regiões antes consideradas frias demais para ele, ampliando sua distribuição para maiores altitudes e latitudes que historicamente estavam livres do vetor.
- Durante períodos de El Niño, estudos identificam aumento significativo na infestação por larvas de Aedes aegypti, especialmente em regiões com temperaturas acima de 23,3°C e precipitação superior a 153 milímetros;
- Segundo o relatório global The Lancet Countdown, o aquecimento decorrente das mudanças climáticas pode aumentar em até 37% o potencial de transmissão da dengue no mundo;
- Um estudo do Observatório do Clima projeta que, sem redução das emissões de gases-estufa, a densidade de Aedes aegypti no Brasil pode crescer 31% até 2080 em relação a 2024. Com ação climática efetiva, esse crescimento fica limitado a 11%.
O Sul do Brasil é o exemplo mais concreto dessa mudança em curso. Regiões que historicamente tinham baixa incidência de dengue, por causa do clima mais frio, vêm registrando crescimento significativo de casos nos últimos anos, à medida que o mosquito se estabelece em territórios onde nunca havia conseguido sobreviver ao inverno.
Há ainda um efeito duplo das chuvas irregulares que a crise climática intensifica. Em períodos de seca prolongada, a população passa a armazenar água em recipientes improvisados, como caixas d’água, calhas e reservatórios, criando criadouros. Quando a chuva volta de forma intensa e concentrada, os mesmos episódios ampliam repentinamente os pontos de água parada pela cidade. O mosquito se beneficia dos dois extremos do mesmo padrão climático instável.
A dengue costuma ser tratada como problema de comportamento individual, “não deixe água parada”. Mas quando o próprio Ministério da Saúde reconhece que mudanças climáticas globais estão redesenhando o mapa da doença, fica claro que nenhuma campanha de conscientização, sozinha, resolve um problema que também é estrutural e planetário.
Movimento Nacional das Doenças Negligenciadas (MNDN)
Quem adoece: o perfil por trás dos números
Os dados de 2025 permitem traçar um perfil claro de quem mais é notificado com dengue no Brasil.
- O sexo feminino tem maior prevalência nos casos prováveis, correspondendo a 54% deles;
- A faixa etária mais acometida, tanto entre homens quanto entre mulheres, é a de 20 a 29 anos;
- Quanto à cor ou raça, 50% dos pacientes se autodeclaram brancos, 30,3% pardos, 4,9% pretos, 1,2% amarelos e 0,2% indígenas.
Esse perfil demográfico é diferente do observado em outras doenças desta série, como tuberculose ou geo-helmintíases, que se concentram fortemente em populações pretas, pardas e de baixa renda. A dengue, por depender de um vetor que se reproduz dentro de qualquer residência com água parada, não poupa nenhuma faixa de renda da mesma forma. Ainda assim, a letalidade e o acesso ao diagnóstico precoce continuam desiguais: bairros com melhor saneamento, coleta de lixo regular e abastecimento de água constante enfrentam menos criadouros domésticos do que áreas onde essa infraestrutura falha.
O que mudou na resposta: vacina e Wolbachia
Depois do recorde de 2024, o Brasil ampliou duas frentes tecnológicas de resposta que merecem registro.
A vacina Qdenga (TAK-003) começou a ser incorporada ao SUS, com diretrizes específicas publicadas pelo Ministério da Saúde em fevereiro de 2025. Para 2025, o governo federal firmou a aquisição de 9,5 milhões de doses. É a primeira vez que o país conta com uma ferramenta de imunização em escala nacional contra a doença.
A segunda frente é o método Wolbachia, que consiste em liberar mosquitos Aedes aegypti infectados com uma bactéria que impede que os vírus da dengue, zika e chikungunya se desenvolvam dentro do inseto. Diferente do fumacê tradicional, que mata o mosquito, essa técnica substitui gradualmente a população selvagem por uma população que continua picando, mas não transmite mais o vírus. A expansão dessa tecnologia é apontada, em revisões técnicas recentes, como uma das medidas mais promissoras de resposta estrutural, complementar à vacina.
O que veio depois: febre do Oropouche
Vale registrar que o mosquito Aedes não age sozinho no cenário brasileiro de arboviroses. Em 2024, a febre do Oropouche, transmitida por um mosquito diferente, do gênero Culicoides, passou a ser testada e diagnosticada de forma sistemática nos laboratórios de referência do país, após anos de subnotificação. Em janeiro de 2025, o Brasil já somava quase 3 mil casos da doença, com cerca de 95% das notificações concentradas no Espírito Santo, sinal de que a vigilância de arboviroses no país precisa acompanhar mais de um vetor ao mesmo tempo, e não apenas o mais conhecido.
Linha do tempo
- 2022 a 2024 — O recrudescimento Depois de um patamar menor em 2021, o país entra em forte crescimento de casos, associado à predominância do sorotipo DENV-1 e à influência do fenômeno El Niño de 2023-2024.
- 2024 — O recorde histórico Mais de 6,6 milhões de casos prováveis e mais de 6 mil mortes confirmadas por dengue, aumento de 300% em casos e 422% em óbitos em relação a 2023, o pior ano já registrado no país.
- 2024 — Febre do Oropouche entra no radar A doença passa a ser testada e diagnosticada sistematicamente nos laboratórios de referência nacionais, revelando circulação até então subnotificada.
- Janeiro de 2025 — Resposta emergencial O governo federal ativa o Centro de Operações de Emergência em Saúde Pública para Dengue e outras Arboviroses (COE Dengue), de forma preventiva, antes mesmo do pico sazonal.
- Fevereiro de 2025 — A vacina chega ao SUS O Ministério da Saúde publica diretrizes nacionais para vacinação com a Qdenga (TAK-003), com aquisição de 9,5 milhões de doses para o ano.
- Início de 2025 — Queda em relação ao pico Os primeiros meses de 2025 registram redução de quase 70% nos casos em relação ao mesmo período de 2024, atribuída em parte à imunidade coletiva adquirida na epidemia anterior.
- 2025 em diante — O horizonte climático Estudos de modelagem projetam expansão contínua do Aedes aegypti para o Sul do país e para maiores altitudes, com trajetória que depende diretamente das políticas globais de redução de emissões nas próximas décadas.
Perguntas que o MNDN dirige aos gestores
São perguntas de interesse público, dirigidas ao Ministério da Saúde, às secretarias estaduais e municipais de saúde e aos órgãos de saneamento e meio ambiente:
- Como as metas de universalização do saneamento básico e abastecimento regular de água estão sendo priorizadas nos municípios com maior histórico de infestação por Aedes aegypti?
- A ampliação do método Wolbachia tem cronograma público de expansão nacional, e quais critérios definem a ordem de prioridade entre municípios?
- Qual a meta de cobertura vacinal da Qdenga para os próximos anos, e como ela é comunicada de forma acessível à população?
- Existe planejamento específico para os estados do Sul do país, diante da expansão geográfica do vetor já documentada pela ciência?
- Como a vigilância de outras arboviroses, como a febre do Oropouche, está sendo estruturada para não repetir anos de subnotificação?
- As políticas de combate ao Aedes consideram, de forma explícita e orçada, os cenários de mudança climática projetados para as próximas décadas, ou seguem tratando o problema apenas em bases anuais?
A posição do Movimento
O MNDN reconhece avanços concretos na resposta brasileira às arboviroses: a chegada da vacina ao SUS, a expansão do método Wolbachia e a ativação preventiva de centros de emergência antes mesmo do pico sazonal mostram que o país aprendeu, ao menos parcialmente, as lições do recorde de 2024.
Mas tratar as arboviroses como emergência sazonal recorrente, sem enfrentar as duas causas estruturais que as sustentam, é resolver o sintoma e preservar a causa. Nossa posição:
- Saneamento e abastecimento regular de água como política antivetorial, e não apenas como agenda de infraestrutura desconectada da saúde;
- Planejamento climático de longo prazo nas políticas de combate ao Aedes, incorporando as projeções científicas já disponíveis sobre expansão geográfica do vetor;
- Prioridade explícita para o Sul do país, região historicamente despreparada para arboviroses que agora enfrenta expansão real e documentada do vetor;
- Ampliação acelerada do método Wolbachia, com transparência sobre os critérios de priorização entre municípios;
- Vigilância multivetor, incluindo doenças emergentes como a febre do Oropouche, sem esperar anos de subnotificação para começar a diagnosticar sistematicamente;
- Participação social no planejamento territorial de combate a vetores, reconhecendo que quem vive no território sabe onde estão os pontos críticos de acúmulo de água antes de qualquer mapeamento oficial chegar até lá.
As doenças negligenciadas não começam no consultório nem terminam no medicamento. Elas têm origem nas condições em que as pessoas vivem. Com as arboviroses, essa origem tem nome duplo: infraestrutura que falta hoje, e clima que muda amanhã. Enfrentar só o mosquito, sem enfrentar essas duas raízes, é combater a consequência e deixar a causa intacta.
João Victor Pacheco Fos Kersul de Carvalho, Presidente do MNDN
O Aedes aegypti não escolhe bairro rico ou pobre para picar. Mas escolhe, sistematicamente, onde a água fica parada, e essa escolha tem endereço, tem infraestrutura e, cada vez mais, tem clima. Enquanto o Brasil tratar isso como problema de verão, o mosquito vai continuar tratando isso como oportunidade o ano inteiro.
Fontes e referências
- BRASIL. Ministério da Saúde. Painel de Monitoramento de Arboviroses e Boletim Epidemiológico, v. 55, n. 11: Monitoramento das arboviroses e balanço de encerramento do COE Dengue e outras Arboviroses 2024.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Como as mudanças climáticas estão favorecendo a disseminação do Aedes aegypti, fevereiro de 2025. gov.br/saude.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Ministério da Saúde divulga 1º Informe Semanal sobre arboviroses e reforça controle das doenças, fevereiro de 2025.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Nota Técnica n. 14/2025-CGFAM/DPNI/SVSA/MS: Diretrizes para vacinação contra a dengue (Qdenga/TAK-003), fevereiro de 2025.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Boletim Epidemiológico, Volume 55, nº 11, 4 de julho de 2024 — fonte da concentração de 87,5% dos casos prováveis em seis estados. gov.br/saude.
- APM — Associação Paulista de Medicina. Com mais de 1,5 milhão de casos de dengue, Brasil avança para 1.300 óbitos ocasionados pela arbovirose em 2025.
- APM — Associação Paulista de Medicina. Ministério da Saúde divulga novos dados da dengue e demais arboviroses, julho de 2024, com dados extraídos do boletim oficial acima.
- Declaração pública da então ministra da Saúde, Nísia Trindade, confirmando que cerca de 75% dos focos do Aedes aegypti são encontrados dentro de residências, citada em cobertura da imprensa especializada em vigilância epidemiológica.
- JORNAL DA UNESP. Alta incidência de casos de dengue preocupa autoridades, e número de óbitos em SP já alcança três dezenas, fevereiro de 2025.
- Arboviroses no Brasil (2020-2025): tendências, determinantes e respostas de saúde pública. Revista Contribuciones a las Ciencias Sociales, 2025.
- OBSERVATÓRIO DO CLIMA. Sem ação climática, Brasil terá 30% a mais de mosquito da dengue em 2080, setembro de 2025.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Levantamento Rápido de Índices para Aedes aegypti (LIRAa) e Levantamento de Índice Amostral (LIA), 2023 — base da constatação oficial de que 3 em cada 4 focos do mosquito estão dentro das residências.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Levantamento Rápido de Índices para Aedes Aegypti (LIRAa) para vigilância entomológica, manual metodológico, 2013.
- SciELO / Revista de Saúde Pública. Clima e sobreposição da distribuição de Aedes aegypti e Aedes albopictus na infestação do Estado de São Paulo.
- COFEN. Brasil ultrapassa marca de um milhão de casos de dengue em 2025.
- THE LANCET COUNTDOWN. Relatório global sobre mudanças climáticas e potencial de transmissão da dengue.
- Esta matéria tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Se você apresenta febre alta, dor no corpo, atrás dos olhos ou manchas na pele, procure uma Unidade Básica de Saúde. O diagnóstico é gratuito pelo SUS, e a identificação precoce dos sinais de alarme é decisiva para evitar complicações graves.